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domingo, 6 de setembro de 2026

AMEAÇA :Trump orienta as autoridades a considerarem a retirada das proteções aos lobos-cinzentos


 Foto: Getty Images

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na sexta-feira uma ordem executiva que determina ao Departamento do Interior a avaliação da retirada dos lobos-cinzentos e dos lobos-cinzentos-mexicanos da lista federal de espécies ameaçadas de extinção. A medida também orienta o governo a analisar formas de facilitar autorizações para matar os animais.

O secretário do Interior, Doug Burgum, terá três meses para determinar se as populações atingiram um nível de recuperação que justificaria a retirada das proteções previstas pela Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção (ESA). A iniciativa, porém, ocorre enquanto a própria situação jurídica da proteção dos lobos-cinzentos permanece em disputa.

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (USFWS), órgão ligado ao Departamento do Interior, já havia tentado retirar a espécie da lista. A decisão foi contestada judicialmente e, em 2022, uma corte federal determinou a manutenção da proteção dos lobos na maior parte de sua distribuição nos 48 estados contíguos do país.

Montana, Idaho e Wyoming são exceções. Nesses estados do norte das Montanhas Rochosas, a gestão das populações foi transferida aos governos estaduais. Em Minnesota, os lobos permanecem classificados como ameaçados.

A nova ofensiva também alcança o lobo-cinzento-mexicano, uma das populações mais raras de lobos da América do Norte. A subespécie voltou a ocupar áreas do Arizona e do Novo México após sua reintrodução em 1998, mas ainda enfrenta obstáculos que tornam uma retirada precipitada da proteção especialmente arriscada.

O plano federal de recuperação estabelece uma média superior a 320 animais durante quatro anos consecutivos como um dos critérios para que seja considerada a retirada da subespécie da lista. No fim de 2025, Arizona e Novo México contabilizaram 319 lobos. O número permite o início da contagem do primeiro período de quatro anos, mas ainda não representa o cumprimento da exigência estabelecida no plano.

Há outra ameaça menos visível, mas igualmente grave. A população apresenta baixa diversidade genética, segundo Michael Robinson, defensor do Centro para a Diversidade Biológica. A fragilidade genética reduz a capacidade de uma população pequena de responder a doenças, alterações ambientais e outros fatores de pressão.

Para Robinson, retirar os lobos da proteção antes que a recuperação esteja efetivamente consolidada abriria uma nova frente de disputa judicial. O ambientalista afirmou que grupos de conservação irão contestar a medida e defendeu que decisões sobre o futuro dos animais sejam baseadas em ciência.

A ordem presidencial também determina que autoridades federais incentivem os estados a retirar proteções próprias concedidas aos lobos e a flexibilizar restrições à matança dos animais. Para organizações ambientalistas, a orientação representa uma tentativa de contornar os mecanismos estabelecidos pelo Congresso para impedir que decisões sobre espécies ameaçadas sejam submetidas a interesses políticos ou econômicos.

Leia Barnett, líder de conservação do Novo México da WildEarth Guardians, criticou a iniciativa e afirmou que pressionar os estados a abandonar suas próprias salvaguardas para a fauna representa uma ameaça à estrutura criada para proteger espécies em recuperação.

A história dos lobos nos Estados Unidos ajuda a dimensionar o risco de repetir velhos padrões. Entre o fim do século XIX e o início do século XX, o governo federal promoveu uma campanha sistemática de captura e extermínio desses animais. Milhares foram mortos, sobretudo sob o argumento de proteger rebanhos, e os lobos chegaram à beira da extinção em grande parte dos 48 estados contíguos.

A perseguição não desapareceu. Lobos ainda são tratados por setores da pecuária como uma ameaça econômica, enquanto políticas públicas voltadas à produção de carne bovina continuam exercendo influência sobre as decisões relacionadas à fauna.

Durante a cerimônia de assinatura da ordem, o próprio Trump deixou explícita a intenção de ampliar a possibilidade de matar os animais. Ao ser questionado sobre os lobos-cinzentos-mexicanos, perguntou se já seria possível atirar neles. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, respondeu que Burgum ainda precisaria tomar medidas para isso.

Em outro momento, um fazendeiro relatou ao presidente supostos problemas provocados por lobos no estado de Washington e mencionou uma situação em que uma menina teria subido em uma árvore para se proteger de uma matilha. Trump respondeu que o homem teria autorização para “cuidar disso”.

A fala, ainda que não altere por si só a legislação federal, revela a disposição política por trás da ordem executiva. Os lobos continuam protegidos pela ESA na maior parte de sua área de distribuição, e matar um animal protegido permanece crime federal nas circunstâncias abrangidas pela lei.

A recuperação de uma espécie não pode ser medida apenas pela existência de indivíduos vivos. Para animais que foram perseguidos durante décadas e ainda enfrentam perda de habitat, conflitos com atividades humanas e baixa diversidade genética em populações particularmente vulneráveis, a proteção legal constitui uma barreira contra o retorno de políticas que quase os eliminaram.

Retirar essa barreira antes que a recuperação esteja assegurada significa devolver aos lobos uma ameaça que a própria história americana já demonstrou ser capaz de levá-los à beira da extinção. A sobrevivência desses animais não deveria depender da conveniência política de um governo ou dos interesses econômicos de quem deseja eliminá-los.

Fonte: anda.jor.br

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