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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ONGs e protetoras sustentam a causa animal com a falta do poder público


 (Foto: arquivo pessoal)

O cachorro Javali, de 16 anos, poderia ser apenas mais um animal atropelado nas ruas do ABC. Na noite do último dia 4, ele foi atingido por um carro na rua Cláudio Maurício Maciotta, no Centro de Ribeirão Pires, e ficou gravemente ferido. Moradores que presenciaram o acidente anotaram a placa do veículo, identificaram a motorista, mas ela ainda não foi penalizada. Segundo testemunhas, ela teria dito que buscaria ajuda em uma clínica veterinária, mas não voltou ao local.

No final, quem ficou para socorrer o animal foram os moradores. Javali foi levado para atendimento veterinário, onde exames apontaram fraturas nas costelas, problemas hepáticos e anemia. A internação inicial custou R$ 2.749,80 e uma campanha foi criada para arrecadar dinheiro não só para manter o animal internado, mas para custear os medicamentos que tiveram que ser comprados nos dias seguintes de cuidado do pet. Depois, o cachorro passou pelo Departamento de Bem-Estar Animal de Ribeirão Pires e acabou acolhido pela ONG Ajudanimal, que assumiu a continuidade do tratamento.

A conta, porém, continuou. Segundo a presidente da entidade, Maria Cecília Bentini, os gastos assumidos pela ONG depois do resgate já ultrapassaram R$ 5 mil, e a prefeitura sequer apresentou proposta ou ajuda para o tratamento do animal.

O caso de Javali mostra uma contradição que se repete no ABC: enquanto as cidades mantêm serviços de fiscalização, castração, adoção e, em algumas casos, acolhimentos, são as ONGs e protetoras independentes que frequentemente assumem a etapa mais difícil do processo, que é retirar o animal da rua, conseguir atendimento completo, pagar tratamentos e encontrar espaço para mantê-lo seguro e acolhido.

“Percebemos que muitas pessoas ajudam no primeiro momento, quando o caso ganha visibilidade, mas depois esquecem que o animal continua precisando de tratamento, exames, medicamentos e cuidados. A partir daí, parece que ele passa a ser exclusivamente um problema nosso”, afirma a cuidadora Cecília.

A discussão ganhou ainda mais relevância após o Supremo Tribunal Federal (STF) reforçar o dever dos municípios de adotar medidas para proteger e oferecer acolhimento adequado a cães e gatos abandonados ou vítimas de maus-tratos. A decisão não determina que todas as cidades tenham obrigatoriamente um canil ou gatil próprio, mas estabelece que o poder público precisa oferecer uma resposta efetiva, inclusive podendo recorrer a parcerias com organizações da sociedade civil.

Na prática, entretanto, protetoras ouvidas pelo RD relatam uma rotina de falta de suporte por parte do poder público, de vagas, lar temporário para os pets, demora para atendimento, ausência de serviço público 24 horas e dívidas acumuladas em clínicas veterinárias que prestam suporte para o atendimento.

O que acontece quando um animal é encontrado na rua?

Em Ribeirão Pires, a Prefeitura afirma que a política de proteção e bem-estar animal vem sendo ampliada desde a criação do Departamento de Bem-Estar Animal, em 2021. Segundo a administração, mais de 30 mil atendimentos foram realizados desde então. A estrutura inclui um ambulatório destinado a procedimentos de pequena complexidade e atendimentos de urgência para animais comunitários ou em situação de vulnerabilidade.

Na avaliação de moradores e protetores, porém, ainda existem lacunas importantes na assistência aos animais em situação de emergência. Uma moradora que acompanhou o caso de Javali, e que prefere não ser identificada, questiona a capacidade da rede pública para responder a ocorrências fora do horário de funcionamento.

“O departamento até existe, mas do que adianta se não há leitos para internação, atendimento 24 horas, resgate emergencial, veterinários públicos? Nos casos que exigem atendimento de maior complexidade, os animais ficam à mercê da própria sorte e dependem de quem tem um bom coração para enxergá-los”, afirma.

Segundo ela, o caso de Javali mostrou justamente essa dificuldade. O cachorro foi atropelado durante a noite, quando o serviço municipal não estava em funcionamento. “Ele foi atropelado de noite e, se não fosse pelos vizinhos se solidarizarem, ele teria morrido ali”, relata.

A Prefeitura informa que os resgates e fiscalizações são realizados prioritariamente das 8h às 17h, mediante registro pelos canais oficiais, como o aplicativo Ribeirão Pires Digital. O município não possui serviço permanente de resgate nem atendimento hospitalar veterinário 24 horas.

De acordo com a administração, ocorrências registradas fora desse período são avaliadas conforme a gravidade do caso e a disponibilidade das equipes e dos veículos. Já os animais que necessitam de atendimento de maior complexidade são encaminhados a especialistas e instituições parceiras.

Em 2025, foram realizadas 716 fiscalizações de maus-tratos, 256 atendimentos veterinários de urgência, 163 adoções e 2.049 castrações. No primeiro semestre de 2026, foram 106 fiscalizações, 99 atendimentos de urgência, 61 adoções e 954 castrações. Atualmente, 125 animais estão sob responsabilidade direta da administração municipal.

Sobre a decisão do STF, a administração afirma que o modelo adotado em Ribeirão Pires está em consonância com a legislação e com o entendimento da Corte. O município ressalta ainda que não considera obrigatória a manutenção de um canil ou gatil público centralizado e aponta parcerias com entidades do terceiro setor, instituições de ensino e protetores independentes como parte da estratégia.

Para Cecília, entretanto, a estrutura disponível não resolve a etapa do acolhimento. “Ribeirão Pires não oferece acolhimento”, afirma. Para se ter ideia, a Ajudanimal mantém atualmente cerca de 235 cães e 50 gatos acolhidos. A entidade foi fundada oficialmente em Ribeirão Pires em 2008, depois de Cecília atuar durante anos como protetora independente.

Em entrevista ao RD, ela conta ter chegado na cidade em 2004, com mais de 70 animais sob seus cuidados. Hoje, a realidade é outra: a ONG está lotada e evita assumir novos casos justamente porque faltam recursos para manter os animais que já estão no abrigo. “Neste mês, por exemplo, resgatamos dois cães vítimas de atropelamento, casos graves que não poderiam ficar sem atendimento e que exigiram muitos cuidados e recursos”, conta.

Mais de R$ 25 mil em dívidas

A falta de dinheiro, segundo ela, afeta todas as etapas do trabalho. “Dificuldades? Todas!”, diz. A organização acumula mais de R$ 25 mil em dívidas com clínica veterinária, além de enfrentar dificuldades para pagar colaboradores e realizar reformas. “Estamos sempre no vermelho”, afirma.

Segundo Cecília, a ONG não recebe verba ou apoio financeiro da Prefeitura de Ribeirão Pires. A entidade recebe auxílio pontual em castrações e em situações envolvendo captura de animais peçonhentos, mas depende principalmente de doações e apadrinhamentos.


 (Foto: arquivo pessoal)

Quando o resgate vira dívida

A situação descrita pela Ajudanimal também aparece na rotina do Abrigo Anjos de Patinhas. Danielle Alarcon Gimenez Shiga, responsável pela entidade, entrou na causa animal em 2020, depois de enfrentar o tratamento de duas gatas diagnosticadas com PIF. Durante a campanha para salvar os animais, conheceu pessoas que já atuavam na proteção e passou a participar dos resgates.

Hoje, são 58 animais sob seus cuidados, 54 gatos e quatro cachorros. Os pedidos de ajuda, segundo Danielle, chegam constantemente, mas a capacidade de acolhimento é limitada e nem todos os casos podem ser assumidos. “Pedido de ajuda, resgate chegam toda hora, porém não temos condições e estrutura para resgatar todos”, afirma.

Os casos mais frequentes, de acordo com a protetora, envolvem abandono, maus-tratos e animais doentes. Quando a rede pública não consegue absorver a demanda, a alternativa costuma ser recorrer a clínicas particulares que oferecem valores mais acessíveis. Ainda assim, os gastos acabam superando as doações recebidas. “Vamos carregando dívidas nas clínicas, cartão de crédito para poder manter os 58 animais”, relata.

O custo de cada resgate, segundo ela, também é imprevisível, já que a gravidade do quadro só costuma ser conhecida após exames e avaliação veterinária. “Um simples resgate pode virar uma dívida de R$ 10 mil. Nunca sabemos ao certo o que está acontecendo com aquele animal”, afirma.

Além do dinheiro, faltam espaço e voluntários. Depois que um animal é retirado da rua, começa uma rotina que envolve transporte para consultas e exames, acompanhamento de cirurgias, administração de medicamentos, alimentação e limpeza do espaço. Para Danielle, cada novo resgate significa assumir uma responsabilidade que pode se estender por semanas ou meses, muitas vezes sem saber de onde virão os recursos para mantê-lo.

Quando não há vaga, a solução costuma ser buscar lares temporários, que muitas vezes também são pagos.

A protetora também critica a eficácia dos serviços públicos. “Os hospitais públicos são lotados, com 30, 40 senhas sendo que se tem 300 pessoas numa fila. Se não conseguiu hoje, volte amanhã, se for urgente, pague”. Ainda de acordo com a protetora, há casos em que exames demoram semanas e filas de castração chegam a meses. “Se você quiser um atendimento rápido para se salvar um animal com emergência, se paga. Se não, muito provavelmente esse animal não conseguirá sobreviver”, afirma.

Santo André tem hospital veterinário e espaço para adoção

Em Santo André, a estrutura pública é mais ampla, porém também não funciona 24h. O município mantém um Centro de Adoção de Cães e Gatos dentro do Hospital Veterinário Municipal, com capacidade para 30 cães e 20 gatos. Já animais atropelados sem tutor e aqueles vítimas de maus-tratos são atendidos pelo Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal e encaminhados ao espaço, que também conta com internação.

Segundo a Prefeitura, o orçamento destinado à proteção e ao bem-estar animal é de aproximadamente R$ 10 milhões. Entre as iniciativas está o programa Moeda Pet, que oferece ração, vacinação antirrábica e facilita o acesso à castração.

Alternativas fora da cidade

Na ponta dessa estrutura, porém, protetoras relatam que ainda precisam buscar alternativas fora do município. Aline Funari, que atua na proteção animal há cerca de 20 anos em Santo André e Mauá, mantém atualmente dois cães de resgate e sete gatos. O número de animais que chegam varia: “Tem meses que chegam 20 ou 6 ou 10, depende”, conta.

A protetora aponta a falta de atendimento veterinário emergencial gratuito, resgate, espaço e políticas públicas como alguns dos principais problemas. Na prática, também depende de terceiros para transporte, lares e vagas em eventos de adoção.

Embora seja moradora de Santo André, Aline afirma que já recorreu à estrutura de Mauá para conseguir ajuda. “Apesar de eu ser munícipe de Santo André, quem geralmente me ajuda com vagas nos eventos foi o gestor do Bem-Estar Animal de Mauá”, relata. Ela também já procurou o Hospital Veterinário de Santo André, mas avalia que a estrutura não dá conta de toda a demanda.

Quando um animal permanece por meses sem adoção, os custos aumentam, principalmente com medicamentos e internações. “Já fizemos vaquinha para internações e custear medicamentos e para ajudar outras pessoas que ajudam também”, afirma.

Abandono e maus-tratos estão entre as principais causas da demanda de proteção animal. “Muita gente acha que ter um bichinho é pegar e, quando cansam, abandonam, ou não castram, ou se apoderam para ter lucro com venda de filhotes”, afirma.

Diadema aposta em prevenção

Em Diadema, a política municipal está concentrada principalmente em prevenção, fiscalização e controle populacional. A Prefeitura está em processo de cadastramento de ONGs e protetores independentes para conhecer as entidades que atuam na cidade e avaliar possíveis parcerias. O orçamento atual é de R$ 820 mil, com previsão de aumento de 50% no próximo ano.

As denúncias de maus-tratos são encaminhadas à fiscalização ambiental, que pode advertir o responsável e determinar a correção de situações como falta de alimentação, água, higiene, atendimento veterinário ou condições adequadas de abrigo. Em caso de reincidência, a multa prevista é de 100 UFDs, equivalente a R$ 561 em 2026, além das demais sanções.

Sobre o entendimento do STF, a Prefeitura informou que a abrangência e as consequências da decisão ainda estão em estudo.

O que muda com a decisão do STF?

A decisão do Supremo Tribunal Federal reforça que os municípios têm responsabilidade constitucional pela proteção de animais abandonados ou vítimas de maus-tratos. Isso não significa, necessariamente, que todas as cidades sejam obrigadas a manter um canil ou gatil próprio. A estrutura pode ser organizada de outras formas, inclusive por meio de parcerias com ONGs e organizações da sociedade civil.

O ponto central é outro: o município precisa oferecer uma resposta adequada à situação, e no ABC, essa resposta varia. Ribeirão Pires tem ambulatório e atendimento de urgência, mas não mantém leitos próprios de internação; Santo André conta com hospital veterinário, internação e espaço de adoção; e Diadema concentra sua atuação em fiscalização, vacinação, castração e prevenção, além dos animais mantidos na UVZ.

Há, no entanto, um ponto em comum: nenhuma das três cidades mantém uma estrutura municipal permanente de resgate e atendimento veterinário 24 horas.

Sobrecarga

As prefeituras reconhecem o papel de ONGs e protetores. Santo André os classifica como “excelentes parceiros”; Ribeirão Pires inclui entidades do terceiro setor e protetores independentes em sua estratégia; e Diadema trabalha para mapear essa rede e estudar novas parcerias.

Para quem está na ponta, porém, a parceria não pode significar que a responsabilidade pelo animal simplesmente mude de mãos. “Sem ajuda, fica difícil acolher mais animais e oferecer tudo o que precisam”, resume Cecília, da Ajudanimal, que mantém cerca de 285 animais entre cães e gatos.

Dani, do Abrigo Anjos de Patinhas, resume o mesmo problema de outra forma: “A demanda é sempre maior do que a estrutura”. Aline também aponta a necessidade de ampliar atendimento, resgate, vacinação e políticas públicas.

Por Amanda Lemos

Fonte: Repórter Diário

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Vitória! Hungria proíbe shows de circo com animais selvagens


 Créditos: foras05 / Adobe Stock

A Hungria acaba de dar um passo gigante para os direitos dos animais, oficialmente adotando uma nova lei que proíbe o uso de animais selvagens em circos.

Com o Decreto nº 123/2026, publicado em 13 de agosto no Magyar Közlöny, o diário oficial da Hungria, uma enorme gama de espécies de animais não poderão mais ser adquiridas, reproduzidas, mantidas, treinadas ou forçadas a participar de espetáculos circenses a partir de 1 de janeiro de 2027.

A decisão é uma resposta ao aumento de preocupações éticas e ao crescimento da opinião popular contra a exploração de animais selvagens no entretenimento. A proibição se aplicará a 25 grupos distintos de animais que incluem elefantes, primatas, felinos de grande porte, ursos, girafas, focas, répteis e aves de rapina.

Enquanto animais domésticos como cavalos, cães e gatos estão isentos da medida, os animais selvagens que se encontram em circos hoje serão gradualmente aposentados de forma humanitária. Isso significa que eles poderão continuar vivendo onde estão, mas suas carreiras nos holofotes chegaram, oficialmente, ao fim.


Embora muitas espécies são protegidas pela nova lei, aquelas designadas como “animais domesticados”, que incluem cavalos, poderão continuar a ser usadas em shows. Créditos: Andrea Izzotti / Adobe Stock

Por que a Hungria está proibindo os animais de circo?

A nova legislação surgiu depois de uma radical mudança política no país. Com a eleição parlamentar em abril de 2026, o governo recém-formado fundou o Ministério do Meio Ambiente, liderado pelo ex-diretor de zoológico László Gajdos. Com a nova administração, o bem-estar dos animais ganhou mais atenção na agenda política, abrindo espaço para as reformas necessárias.

A medida aproxima a Hungria da maior parte da Europa. Segundo dados do Eurogroup for Animals, 24 dos 27 Estados-membro da União Europeia impõem restrições nacionais aos shows de circo que usam animais.

“A proibição marca um avanço muito aguardado para as políticas de bem-estar dos animais na Hungria”, disse Raul Vida em comunicado à revista Vegan Food & Living. Raul é defensor dos animais, diretor executivo da organização Empathy Story e ganhou destaque na Forbes 30 Under 30.

“É um reflexo de décadas de trabalho de ativistas, organizações e parceiros que mantiveram a questão na agenda pública e política. Tenho orgulho de ter sido parte dessa luta”, continuou.


Os elefantes estão na categoria de animais que não poderão ser reproduzidos, treinados ou utilizados de forma alguma em shows de circo na Hungria. Créditos: Mariia / Adobe Stock

Como ativistas conseguiram a proibição

Esse avanço histórico não aconteceu de um dia para o outro; foi resultado de anos de campanhas das organizações da sociedade civil, investigadores e ativistas digitais.

Plataformas como o canal de defesa dos animais Csir Kevin, que conta com aproximadamente de 300.000 seguidores, passaram mais de uma década chamando a atenção para as duras condições dos animais de show. Por meio de petições, campanhas de conscientização e envolvimento direto com legisladores, ativistas conseguiram transformar a opinião pública, resultando em ação política.

Com foco no futuro, o ministro Gajdos já propôs novas medidas, que incluem uma proibição geral à caça de animais em tocas e a criação de uma autoridade nacional para a aplicação de leis de proteção aos animais em toda a Hungria.

Por Helen Greaves / Tradução de José Arthur da Costa e Silva

Fonte: Vegan Food & LivingVegan Food & Living

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Eleito com fama de matador, vereador de Itu (SP) é cassado após atirar perto de um cão


 Em sessão extraordinária histórica, o então vereador Moacir Cova (Podemos) teve mandato cassado na Câmara de Itu por quebra de decoro parlamentar. Foto: Divulgação/Câmara Itu

O vereador Moacir Cova (Podemos) foi cassado pela Câmara Municipal de Itu por quebra de decoro parlamentar, em uma das sessões extraordinárias mais longas da cidade, que começou na manhã de sexta-feira (21) e terminou na madrugada de sábado (22). Cova, que também é policial civil, perdeu o mandato por ter atirado próximo a um cachorro e assustar o animal, durante uma operação policial. Em 2024, ele foi eleito como o vereador mais bem votado de Itu, com 2.881 votos. Na época, ele era acusado de liderar um grupo de extermínio e usou a fama de policial durão para se eleger com expressiva votação.

Mas, se a pecha de matador rendeu dividendos eleitorais para Moacir, a crueldade com os animais acabou sendo sua ruína. No dia 6 de abril deste ano, o vereador, exercendo a função de policial civil, foi flagrado atirando próximo a cachorros, em meio a uma operação no bairro Potiguara. O episódio, gravado em vídeo, foi somando a outras denúncias.

Segundo a Comissão Processante, parte das acusações foi considerada improcedente, mas a conduta envolvendo o disparo de arma de fogo perto de um cachorro foi apontada como quebra de decoro parlamentar. Nove vereadores votaram a favor da cassação de Moacir e dois foram contrários à perda do mandato.

Em um vídeo publicado nas redes sociais Moacir, que é candidato a deputado federal, diz que “inventaram uma coisinha”, “criaram uma narrativa” para tirar do caminho um mandato que mostra e luta contra os “desmandos desse governo maldito”; “Foi uma aberração, uma coisa de outro mundo”.

O processo contou com mais de mil páginas, além de diversas etapas, como depoimentos, manifestações, discussões e defesa.

Grupo de extermínio

As polêmicas em torno do nome de Moacir já duram anos. Em maio de 2024, dois jovens foram espancados e mortos a tiros. Familiares e amigos alegam que foram assassinados por integrantes do chamado Bonde do Moacir, apontado como um grupo de extermínio. Houve pelos menos três protestos na cidade contra as ações desse grupo. Mães, parentes e amigos de jovens espancados ou assassinados vinham reclamando das ações do grupo de policiais, assim como pediram justiça por seus filhos. Nos atos, as mães usaram os microfones para contar a história dos filhos delas e de como teriam sido vitimados pelos policiais nos bairros periféricos na cidade.

Ao assumir como parlamentar, no dia 1º de janeiro de 2025, Moacir estava suspenso de suas funções na Polícia Civil, por 90 dias, contados a partir de 23 de dezembro. A suspensão aconteceu após apuração da Corregedoria da Polícia envolvendo desvio de conduta em uma ocorrência de 2020. Ele é alvo de inquéritos policiais que estão em investigação na Corregedoria da Polícia Civil, como tortura, abuso de autoridade, ameaça, invasão de domicílio e furto qualificado. Cova também chegou a ser afastado dos serviços de investigador por cerca de seis meses. O grupo também é apontado por postar imagens, fazer comentários jocosos e cheios de ironias sobre os assassinatos praticados por eles.

Antes mesmo de ser eleito, Moacir e outros investigadores foram homenageados pela operação que resultou na prisão de dois suspeitos de tráfico de drogas em abril de 2019, na qual houve perseguição. O veículo suspeito perdeu o controle e chegou a invadir a recepção do Hospital São Camilo.

Fonte: Portal Porque

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Cão resgatado em encosta no Rio de Janeiro começa a recuperar a confiança após ser acolhido em lar temporário


 Foto: Maria Camargo/ Acervo pessoal

Pouco mais de uma semana depois de ser retirado pelo Corpo de Bombeiros de uma encosta do Morro do Cantagalo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o cão Rapel começa a se adaptar a uma rotina segura. Acolhido temporariamente pela roteirista e psicanalista Maria Camargo, ele recebe cuidados, convive com outros animais e, aos poucos, aprende novamente a confiar nas pessoas.

Rapel estava em uma área de difícil acesso, próxima a um condomínio na Rua Alberto de Campos, quando foi avistado por uma associada da ONG Indefesos, moradora da região. O cachorro latia insistentemente na encosta e corria o risco de se ferir. A organização acionou os bombeiros, que precisaram utilizar técnicas de rapel para alcançar o animal e retirá-lo do local.

A operação deu origem ao nome pelo qual ele passou a ser chamado depois do resgate. Encaminhado à Indefesos, Rapel recebeu acolhimento temporário enquanto aguarda uma solução definitiva. Não há informações sobre como ele chegou à encosta.

Na casa de Maria, o cão encontrou uma rotina diferente daquela que enfrentava sozinho em um local perigoso. Alimentação adequada, cuidados, convivência e momentos de lazer passaram a fazer parte dos seus dias. Ainda assustado, ele demonstra ser dócil e vem respondendo gradualmente ao ambiente de segurança.

“Um gesto de carinho e acolhimento vai dando confiança ao cachorro. E eu fiquei muito impressionada em ver aquele cachorrinho preso sozinho naquele lugar, podendo se machucar, latindo muito”, contou Maria.

A tutora temporária procura estabelecer uma relação baseada na confiança, mesmo sabendo que Rapel poderá seguir para outro lar. Para ela, o acolhimento não se resume a oferecer abrigo, mas também a mostrar ao animal que pessoas podem representar segurança e cuidado.

“Mesmo que ele não vá ficar aqui, tento transmitir para ele a confiança em pessoas, confiança de que ele possa receber carinho e ser bem cuidado”, afirmou.

A recuperação de Rapel também expõe uma realidade enfrentada diariamente por organizações e protetores independentes. Para Rosana Guerra, presidente da Indefesos, o número de animais abandonados e vítimas de maus-tratos supera a capacidade das entidades de proteção, que convivem com abrigos lotados e dificuldades financeiras.

“Infelizmente, existem muitos animais abandonados em nosso estado, vítimas de maus-tratos. Não há ONGs nem protetores suficientes para salvar tantos animais que precisam de ajuda. Por isso, é importante que as pessoas entendam que o sofrimento animal é responsabilidade de todos, e não apenas das ONGs e dos protetores”, disse.

Rosana defende a ampliação da rede pública de atendimento veterinário no estado, incluindo vagas gratuitas de internação para animais vítimas de maus-tratos. A medida, segundo ela, ajudaria a reduzir a pressão sobre entidades que assumem casos sem contar com estrutura suficiente para atender à demanda.

A adoção também é apontada pela presidente da ONG como uma das formas de ampliar a capacidade de resgate. Com os espaços ocupados, muitas organizações precisam interromper ou limitar novos acolhimentos.

“A superlotação das ONGs é um problema muito sério e, muitas vezes, impede que outros animais sejam resgatados, além de agravar ainda mais as dificuldades financeiras. A adoção de um animal de uma ONG ou de um protetor independente é o que permite que o trabalho de resgate continue”, afirmou.

Para Rosana, o impacto de uma adoção responsável ultrapassa a vida do animal que deixa o abrigo. Quando uma vaga é liberada, outro indivíduo pode ser retirado das ruas e receber proteção.

“Quando você adota um animal, não salva apenas uma vida: salva várias. Ao liberar aquele espaço físico, você dá a oportunidade para que outro animal seja resgatado e ocupe o lugar daquele que foi adotado”, afirmou.

A dirigente ressalta, porém, que adotar significa assumir um compromisso para toda a vida. Idade, aparência ou tamanho não devem determinar o valor de um animal nem servir como justificativa para descartá-lo posteriormente.

“Também é importante lembrar que a adoção deve ser responsável e para a vida inteira. Ela precisa ser feita com o coração, independentemente da idade, das características físicas ou do tamanho do animal, mas sempre com empatia, amor e solidariedade”, concluiu.

Enquanto aguarda os próximos passos, Rapel permanece protegido em um ambiente onde pode recuperar, no próprio ritmo, a confiança que perdeu. O resgate o retirou de uma situação de risco, mas a construção de uma vida digna depende agora da continuidade do cuidado e da garantia de um lar permanente onde jamais volte a ser tratado como um animal descartável.

Fonte: anda.jor.br

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