Foto: Vinicius Becker
Charles, apontado como o último urso-pardo-americano do Rio Grande do Sul, morreu na terça-feira (1º), aos cerca de 27 anos, no Zoológico São Braz, em Santa Maria (RS). O animal passou aproximadamente dez anos em um circo antes de ser levado ao zoológico, onde permaneceu confinado por outros 17 anos. A causa da morte será investigada por meio de necropsia realizada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Charles chegou a Santa Maria em março de 2009, aos aproximadamente dez anos. Quando foi encontrado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), durante uma operação que localizou o circo onde vivia, estava dentro de uma jaula de cerca de seis metros quadrados, pequena a ponto de impedir que permanecesse em pé.
A estrutura utilizada para transportar o urso expunha uma realidade recorrente na exploração de animais em espetáculos. Retirados de seus ambientes naturais e submetidos a deslocamentos constantes, confinamento e apresentações diante de público, animais silvestres são transformados em atrações contra suas necessidades físicas e comportamentais.
Segundo Silvia Machado, coordenadora do Zoo São Braz, Charles carregava marcas do período vivido no circo. Ela relata que o urso teria sido submetido a maus-tratos durante as apresentações. Entre as práticas descritas está a colocação do animal sobre uma superfície aquecida. O calor fazia com que ele movimentasse as patas, enquanto o público interpretava os movimentos como uma espécie de dança.
A transferência para Santa Maria interrompeu a exploração circense, mas não devolveu a Charles aquilo que havia sido retirado dele. O urso passou a viver em um recinto de aproximadamente 150 metros quadrados, equipado com tanque de água, troncos, areia e uma área coberta para descanso.
Embora o espaço representasse uma mudança em relação às condições anteriores, continuava sendo um ambiente artificial, delimitado e incapaz de reproduzir a complexidade de uma vida livre. Um urso-pardo-americano percorre grandes territórios, explora diferentes ambientes, procura alimento, estabelece relações com o espaço e responde continuamente aos estímulos de seu habitat. Nenhum recinto de zoológico consegue oferecer essa liberdade.
A equipe do São Braz relatou que, com o passar dos anos, Charles apresentou redução de comportamentos agressivos e de sinais de estresse. Ainda assim, determinadas situações exigiam cuidados específicos. Barulho excessivo e a concentração de muitas pessoas próximas ao recinto eram evitados para diminuir estímulos capazes de provocar desconforto.
A adaptação comportamental, contudo, não apaga o histórico de privação. Animais submetidos durante anos ao cativeiro podem desenvolver comportamentos associados às experiências vividas e permanecer dependentes de ambientes controlados por seres humanos.
Nos últimos dias de vida, o estado de saúde de Charles se deteriorou. Na quinta-feira (27 de agosto), a equipe percebeu que ele havia deixado parte da alimentação. A partir da sexta-feira (28), houve agravamento do quadro, com redução da ingestão de alimentos e alteração na regulação da temperatura corporal.
O urso já era considerado idoso e recebia acompanhamento veterinário periódico. Exames realizados ao longo dos anos apontavam alterações compatíveis com a idade. Apesar de uma estabilização inicial, o prognóstico era desfavorável.
Charles morreu aos cerca de 27 anos. Seu corpo foi encaminhado à UFSM, onde será submetido a necropsia para determinar a causa do óbito. O zoológico informou que o resultado deve ficar disponível na primeira quinzena de setembro. Materiais biológicos e genéticos também poderão ser destinados a pesquisas.
A instituição transformou a história de Charles em parte de suas ações de educação ambiental, apresentando sua trajetória principalmente a crianças e grupos escolares como exemplo dos impactos da ação humana sobre os animais. O problema é que a própria existência de animais silvestres em zoológicos mantém uma das formas de exploração que precisa ser questionada.
Charles não pôde retornar à natureza porque havia passado grande parte da vida em cativeiro e não pertencia a uma espécie nativa do Brasil. A impossibilidade de libertá-lo não torna o confinamento uma solução desejável. Ela é consequência de uma trajetória iniciada justamente pela retirada do animal de uma vida para a qual seu corpo e seu comportamento haviam evoluído.
O destino de Charles expõe uma contradição. O mesmo animal que foi explorado em um circo acabou transformado em atração de outro espaço criado para receber visitantes. Mudaram as condições e os cuidados, mas permaneceu a impossibilidade de escolher onde viver, para onde ir e como conduzir a própria existência.
A morte do urso encerra uma história marcada por decisões humanas tomadas em seu nome. Charles sobreviveu ao circo, mas passou o restante da vida atrás de limites impostos por pessoas. Sua trajetória deveria servir menos para celebrar a permanência de animais em zoológicos e mais para questionar por que seres sencientes ainda são retirados de seus ambientes, confinados e expostos à observação humana como forma de entretenimento ou educação.
Nenhum animal deveria precisar sobreviver à exploração para depois passar o restante da vida em cativeiro.
Fonte: anda.jor.br
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