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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Avestruzes têm penas arrancadas com alicates para abastecer indústria da moda na África do Sul


 Foto: GIANLUIGI GUERCIA / AFP

Uma investigação da World Animal Protection em parceria com a Collective Fashion Justice documentou avestruzes sendo encurraladas, imobilizadas e submetidas à retirada dolorosa de penas em fazendas comerciais e instalações de processamento na África do Sul. Segundo as organizações, trabalhadores colocavam sacos sobre a cabeça das aves e arrancavam as penas sem administrar analgésicos.

Intitulada “Penas de Sangue”, a investigação examinou diferentes etapas da cadeia produtiva que transforma as penas dos avestruzes em matéria-prima para a indústria da moda. A África do Sul responde por cerca de 75% do mercado mundial desses animais, explorados comercialmente pela carne, couro e penas.

As apurações identificaram o fornecimento de penas para marcas de luxo como YSL, Louis Vuitton, Dior e Chanel, além da gigante do fast-fashion Shein.

Em algumas fazendas, as penas eram cortadas acima da linha sanguínea, permanecendo ligadas a tecidos que ainda recebem irrigação sanguínea. Depois, trabalhadores as retiravam da pele das aves com alicates. O procedimento, segundo a World Animal Protection, podia ser repetido a cada seis meses em determinados avestruzes.

A presença de sangue na haste dessas penas deu origem ao termo “penas de sangue”. A organização contesta a ideia de que o material utilizado pela moda seja simplesmente recolhido durante a muda natural das aves.

A investigação também registrou animais feridos. Alguns avestruzes aparentavam não conseguir permanecer em pé, enquanto outros apresentavam lesões nos olhos e nas penas provocadas por bicadas.

Exploração além da matança

A cadeia das penas está ligada a uma indústria que também mantém os avestruzes para produção de carne e couro. Dados obtidos junto ao governo sul-africano e citados pela organização indicam que mais de 150 toneladas de penas foram exportadas pelo país durante a temporada de 2024-2025.

No mesmo período, cerca de 150 mil avestruzes foram mortos para atender aos mercados de penas, carne e pele.

Para Olivia Charlton, gerente de campanhas da World Animal Protection, a retirada das penas representa uma forma de sofrimento que não pode ser dissociada da indústria que utiliza os animais como matéria-prima.

“As penas são a nova pele. É a mesma crueldade, só que com um animal diferente”, afirmou.

Emma Hakansson, diretora fundadora da Collective Fashion Justice, questionou a incoerência de marcas que rejeitam peles de animais enquanto utilizam penas de avestruz provenientes de uma cadeia produtiva associada à matança.

A investigação aponta ainda que alternativas produzidas a partir de tecidos e biomateriais já permitem reproduzir características valorizadas pela moda, como leveza, volume e movimento, sem depender da exploração de aves.

Uma indústria centenária

A exploração comercial de avestruzes possui raízes profundas na história econômica da África do Sul. No início do século XX, as penas estavam entre os principais produtos de exportação do país, atrás apenas do ouro, dos diamantes e da lã.

A procura da indústria da moda por plumas contribuiu para um grande crescimento da atividade naquele período. Mais de um século depois, as penas continuam integradas a uma cadeia que transforma partes do corpo dos avestruzes em produtos destinados ao consumo.

Para a World Animal Protection, as descobertas da investigação colocam em dúvida a narrativa de que as penas utilizadas pela moda seriam obtidas de maneira natural e sem sofrimento. Os registros apresentados pela organização descrevem aves submetidas à contenção, à manipulação física e à retirada de estruturas que ainda estavam em crescimento e ligadas a tecidos vivos.

Fonte: anda.jor.br

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