Rachel Fobar
(National Geographic) | Traduzido por Gabriele Lopes e Marcella Martinez Marques
Foto: Reprodução | Wikipedia
Em
setembro de 2020, doze mangabeis-de-ventre-dourado, ameaçados de extinção, e
treze outros macacos foram resgatados pelas autoridades da vida selvagem do
Zimbábue. Esses animais aguardam transferência para um santuário em seu país de
origem, a República Democrática do Congo, e podem eventualmente ser devolvidos
à natureza.
Durante
uma fiscalização de rotina na fronteira no início de setembro, as autoridades
zimbabuanas resgataram 25 macacos jovens, encontrados em gaiolas na traseira de
um caminhão que entrava no país vindo da Zâmbia com destino à África do Sul.
Os
agentes, com o Projeto Anti-Caça Furtiva do Chirundu, uma operação conjunta
entre a Autoridade de Gestão de Vida Selvagem e Parques do Zimbabwe (ZimParks)
e a Hemmersbach Rhino Force, imediatamente perceberam que algo estava errado
porque os animais não eram nativos de seu país. Eles prenderam os quatro homens
que estavam no caminhão.
“Eles
estavam contrabandeando os macacos”, disse o porta-voz da ZimParks, Tinashe
Farawo. “Tentaram subornar alguns dos oficiais na fronteira.”
Até o
momento, essa é uma dos maiores resgates conhecidos de primatas comercializados
ilegalmente na África, de acordo com a Pan African Sanctuary Alliance (PASA),
uma coalizão localizada nos EUA e composta por 23 centros e santuários de vida
selvagem em todo o continente. O caso destaca uma rota bem conhecida de
contrabando por via terrestre de primatas vivos da República Democrática do
Congo (RDC), passando pela Zâmbia e o Zimbábue até a África do Sul, afirma Jean
Fleming, gerente de comunicações da PASA.
É
possível que milhares de animais, incluindo centenas de primatas, sejam
comercializados de forma ilegal por meio desta rota todos os anos, diz Adams
Cassinga, um explorador emergente da National Geographic e fundador da organização
de investigação de crimes contra a vida selvagem Conserv Congo.
Ele
descreve a RDC como o marco zero para o tráfico de vida selvagem, e diz que
esses animais são vulneráveis, sobretudo, porque tanto os grandes símios quanto
os pequenos primatas possuem alta demanda nos zoológicos, no comércio ilegal de
carne de caça e como animais domésticos.
Os
macacos confiscados são todos nativos da República Democrática do Congo: 12
mangabeis-de-ventre-dourado, dois macacos de L’Hoest, dois macacos-lesula, dois
mangabeis-de-bochechas-cinzas, cinco macacos-de-nariz-branco e dois
macacos-do-pântano-de-Allen. A União Internacional para a Conservação da
Natureza, uma autoridade global que trata do estado de conservação de animais e
plantas selvagens, identifica a maioria dessas espécies como vulneráveis ou
ameaçadas de extinção.
Os
homens, que são cidadãos da RDC, Zâmbia e Malawi, foram condenados por tráfico
de vida selvagem e agora cumprem pena de seis meses na prisão de Karoi, no
norte do Zimbábue. Os traficantes disseram aos agentes da ZimParks que estavam
levando os animais para a África do Sul. Enquanto isso, até que possam ser
transferidos para um santuário, os macacos estão sendo cuidados pelo Projeto
Anti-Caça Furtiva do Chirundu, em uma vila próxima a fronteira Zimbábue-Zâmbia,
num endereço confidencial.
Os 25
macacos estavam possivelmente a caminho de zoológicos na China, conta Gregg
Tully, diretor executivo da PASA. Com o crescimento da classe média da China,
cresceu também o número de zoológicos privados no país, todos ansiosos para
exibir os primatas africanos. Aproximadamente cem zoológicos foram abertos nos
últimos cinco anos, de acordo com Dave Neale, diretor de bem-estar animal da
Animals Asia, uma organização de bem-estar animal localizada em Hong Kong.
O
Ministério da Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural da China possui códigos
de bem-estar para os zoológicos do país. No entanto, de acordo com um relatório
de 2018 da Ape Alliance, um grupo que busca combater o comércio de grandes
símios, muitas instalações estão “operando em contravenção a essas
regulamentações nacionais.”
Quando
questionado, o Ministério da Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural não
forneceu nenhum comentário.
Um “caso
divisor de águas”
“Vinte e
cinco animais é uma grande quantidade – não é algo aleatório”, diz Fleming. “É
um esquema organizado para transportar o maior número de animais em um caminhão
que cruza as fronteiras.” As quatro condenações, acrescenta, tornam este um
“caso divisor de águas.”
Cassinga
destaca que a RDC não é somente o local de origem do comércio ilegal de vida
selvagem, mas também uma das principais zonas de trânsito para o tráfico de
animais africanos. Ela compartilha com outros países nove fronteiras amplamente
transitáveis e não monitoradas.
“Nossas
fronteiras são extensas e possuímos uma das agências de segurança mais fracas
do mundo”, diz Cassinga. Se alguém está tentando escapar da aplicação da lei na
RDC, “essa pessoa pode facilmente desaparecer.”
Depois
dos pangolins e dos elefantes, diz Cassinga, os grandes símios são os animais
mais procurados por caçadores. A RDC é o lar de três das espécies mais valiosas
– chimpanzés, gorilas e bonobos. De acordo com um relatório das Nações Unidas,
nos anos de 2005 a 2011, mais de 3.000 grandes símios desapareceram das
florestas da África e da Ásia. Os pequenos primatas, o que inclui a maioria dos
macacos confiscados no Zimbábue, também possuem alta demanda, visto que seu
tamanho os tornam mais fáceis de esconder e transportar, reitera Cassinga.
A RDC
possui tantos “animais incríveis e endêmicos – você não irá encontrá-los em
nenhum outro lugar do mundo”, assegura Franck Chantereau, presidente e fundador
do J.A.C.K Chimpanzee Sanctuary, uma instalação de resgate em Lubumbashi para
chimpanzés e jagras do senegal órfãos em razão do comércio ilegal. “O país está
perdendo animais em um ritmo intenso”, diz ele. O santuário, que é membro da
PASA, concordou em fornecer um lar para os macacos confiscados, que devem
chegar a qualquer dia.
A República Democrática do Congo “está perdendo
animais em um ritmo intenso.”
Franck Chantereau, Presidente e fundador do J.A.C.K Chimpanzee Sanctuary
A teoria
de Chantereau é a de que, como os 25 macacos são jovens, eles podem ser vítimas
de uma organização de carne de caça, como muitos dos chimpanzés órfãos que seu
santuário acolhe. Os caçadores furtivos são pagos para matar animais adultos
por sua carne, e seus filhotes, que não oferecem mais do que meio quilo ou dois
de carne, são contrabandeados para o comércio de animais domésticos ou zoológicos.
Ao serem
questionados, os representantes do Instituto Congolês para a Conservação da
Natureza, que administra parques nacionais e é responsável por preservar as
espécies protegidas, não forneceram nenhum comentário sobre o tráfico de
primatas na RDC.
Um pólo
para exportação ilegal
Embora os
quatro homens presos em setembro tenham dito às autoridades do ZimParks que
estavam a caminho da África do Sul, o destinatário pretendido é desconhecido,
diz Smaragda Louw, diretora da Ban Animal Trading (BAT), uma organização
sul-africana de direitos dos animais. Louw é co-autora de um relatório de 2020
com a Fundação EMS, outro grupo conservacionista sul-africano, sobre o comércio
de vida selvagem do país com a China.
A África
do Sul é um pólo para exportação ilegal de animais selvagens vivos e partes de
animais mortos, Louw diz — tudo, de primatas e papagaios-cinzento a répteis,
girafas e ossos de leão. A China é um grande mercado, mas outros países
asiáticos, como Bangladesh e Paquistão, também são destinos.
O
contrabando já existe há décadas. Por exemplo, no início dos anos 2000, quatro
gorilas-ocidentais-das-terras-baixas conhecidos como os “Taiping Four” foram
capturados ilegalmente na selva em Camarões, enviados pela África do Sul, e
acabaram no zoológico de Taiping, na Malásia. Os animais foram eventualmente
devolvidos para Camarões.
Em agosto
de 2019, um grupo de 18 chimpanzés do Hartbeespoort Snake and Animal Park,
perto de Pretória, foi vendido para o Beijing Wild Animal Park na China, de
acordo com o relatório da Fundação BAT/EMS.
Os
chimpanzés foram listados em suas licenças como criados em cativeiro, mas de
acordo com o relatório, a África do Sul não possui criadouros para chimpanzés,
e “não há evidências que confirmem que os chimpanzés não foram capturados na
natureza e importados ilegalmente para a África do Sul”. Os chimpanzés não são
nativos da África do Sul, eles são encontrados apenas na África Central e
Ocidental.
Pelo
menos 5.035 animais selvagens foram exportados da África do Sul para a China
entre 2016 e 2019, aponta o relatório. Muitos dos destinos chineses listados
nas licenças de exportação “são pura ficção”, afirma. Uma parte deles não
existia, outra não podia ser encontrada ou não era o que os exportadores diziam
ser. Alguns, por exemplo, eram edifícios comerciais e hotéis.
‘Uma
grande bagunça’
A razão
para o crescimento dos negócios de exportação na África do Sul se resume à
desorganização e à supervisão negligente, de acordo com Louw.
Para
exportar muitas espécies de primatas legalmente, os exportadores devem obter uma
licença nos termos da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da
Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), um acordo entre
nações que monitora o comércio global de vida selvagem.
Cada uma
das nove províncias da África do Sul emite suas próprias licenças CITES para
exportação, diferente da maioria dos países, em que o governo nacional é
responsável por isso. Além disso, tudo é feito no papel. “Não temos um banco de
dados de licença centralizado na África do Sul” diz Louw. “Tudo está em
arquivos e caixas… uma grande bagunça”.
Isso
facilita o comércio ilegal, ela diz, porque os traficantes podem reutilizar
licenças de exportação antigas, apenas mudando informações como o endereço do
exportador ou a espécie do animal. “Não há como os responsáveis verificarem se
aquela licença foi utilizada antes”, afirma.
O
Departamento de Meio Ambiente, Silvicultura, e Pesca da África do Sul “não está
ciente de quaisquer desafios” com seu sistema de autorização CITES emitido em
papel, escreveu o diretor de comunicação, Albi Modise, em um e-mail. É
incorreto dizer que o sistema de permissão da África do Sul facilita o tráfico,
porque “uma vez que a licença foi usada, não pode ser reutilizada pois será
cancelada no ponto de entrada”.
Mesmo que
comerciantes ilegais sejam detidos, eles não são necessariamente impedidos de
obter uma licença de exportação no futuro, diz Louw. Por exemplo, um
comerciante ilegal de répteis chamado Beric Muller foi considerado culpado de
contrabandear sapos para Taiwan sem as licenças de exportação necessárias, mas
depois de pagar uma multa, ele continuou a solicitar e receber licenças, de
acordo com Louw.
Regulações
internacionais não exigem que países exportadores assegurem que o endereço de
destino seja legítimo, disse ela. Isso significa que animais selvagens
ameaçados de extinção podem acabar em parques de diversão, circos e
laboratórios. Isso contraria a exigência da CITES, de que certas espécies
protegidas não sejam negociadas principalmente para fins comerciais, disse
Louw.
Em vez
disso, cabe às autoridades do país importador garantir que as instalações de
destino sejam adequadas, Francisco Pérez, um porta-voz da CITES, escreveu por
e-mail. Licenças de importação são necessárias para espécies marcadas com o
nível mais alto de proteção pela CITES, incluindo todos os grandes símios. Para
espécies com níveis mais baixos de proteção, licenças de importação não são
necessárias, o que significa que não é obrigatório para nenhum dos países
verificar o destino.
Quando
pesquisadores da Fundação BAT/EMS investigaram os destinos listados nas
licenças de exportação para muitos dos animais vivos enviados da África do Sul
de 2016 a 2019, descobriram que muitos dos destinos não eram legítimos.
Alguns
zoológicos na China, por exemplo, adquiriram animais ameaçados de extinção para
exibi-los principalmente a fim de benefício comercial. Outros animais acabaram
em criadouros, onde desapareceram em um “buraco negro”, disse Louw.
Modise
negou que o departamento tenha emitido qualquer licença que viole os
regulamentos da CITES. Não existe “nenhum instrumento legal que capacite a
África do Sul, como o país exportador, a monitorar o cumprimento da [CITES]”
nos países importadores, disse Modise. A responsabilidade recai sobre os países
importadores para garantir que eles tenham legislações domésticas em vigor.”
‘Os
sortudos’
Foi de
“partir o coração” que ninguém mais pudesse receber os 25 macacos confiscados,
disse Franck Chantereau, do J.A.C.K Chimpanzee Sanctuary. Embora fossem de
espécies com as quais ele não estava familiarizado, e mesmo com pouco dinheiro
e espaço, ele sabia que deveria intervir.
Chantereau
arrecadou dinheiro para construir quatro gaiolas, cada uma com cerca de 6
metros de altura, e três cercados ao ar livre, com grama e árvores para os
macacos explorarem.
Eles
devem chegar em Lubumbashi a qualquer dia, mas J.A.C.K provavelmente será um
lar temporário. Quando os macacos estiverem mais velhos e mais fortes, as
autoridades na RDC aprovarão que eles retornem à natureza, diz ele.
Ele chama
os macacos de “os sortudos”, mas Chantereau se pergunta sobre todas as outras
vítimas, aquelas que não têm uma segunda chance. “E os milhares de macacos que
chegam à capital de Kinshasa todo mês, apenas para se tornarem carne de caça?”
diz ele. “Vamos acabar por esvaziar a floresta para sempre.”
Fonte: anda.jor.br

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