Margus de Wallachia | Redação ANDA
São Paulo – Edinailde Santos, de 43 anos, procura aliviar a sensação de abandono nas ruas da capital paulista adotando animais de estimação. Dormindo entre calçadas e marquises há quase vinte anos, recolhe cachorros para se proteger do desamparo social e da violência.
A Organização Mundial da Saúde
(OMS) estima que só no Brasil hajam mais de 30 milhões de animais abandonados.
Dentre esse número, cerca de 10 milhões são de gatos e 20 milhões de cães. A
cada 5 habitantes de uma grande cidade há um cachorro, dos quais 10% estão
abandonados.
Quando explodiu o novo vírus,
Edina já sabia que teria de enfrentar ainda mais dificuldades que antes. Só não
sabia que a nutrição de Bia, 2 anos, e de Scooby, 2 meses, entraria em risco
com esta nova crise.
Tentando diariamente enganar a
fome, ela conta com dinheiro de recicláveis coletados na Lapa, bairro de classe
média da zona oeste. Edina vive também de doações provindas de ONGs e de
amostras grátis entregues por funcionários de pet shops da
região.
Segundo um estudo britânico,
comissionado pela Silentnight Pet Beds, donos de pets são
mais zelosos quando é para seus peludos. Dois mil ‘UK pet owners‘
foram estudados, e 8 em cada 10 deles comprometeriam seu sono para que seus
animais dormissem melhor.
E outro estudo ianque, mais raso,
indica que pessoas com cães/gatos terminam sacrificando parte de suas vidas
para cuidar deles.
Ração de
manhã e de noite
Edina se desdobra nos sete dias da
semana. Com a reciclagem, consegue juntar num dia “muito bom” no máximo
cinquenta reais. De segunda a quinta, cuida do Scooby, e de sexta a domingo vai
à casa do sogro, em Santana de Parnaíba, fazer companhia para a cadela Bia. Na
sua ausência, um irmão em situação de rua cuida do filhote, que já tem a
quantidade certa de ração.
Graças a uma doação mensal de
cesta básica de uma igreja local, a situação dela e marido não está pior. Com o
tutu garantido, Edina se sente mais aliviada ao desembolsar R$200 em 30kg de
ração.
“Fome eles não passam. A pandemia deixou ainda mais
difícil a compra de comida para os cachorros. Se eu ganho mais na reciclagem,
compro mais ração para eles. Os bichinhos comem, viu? Dou ração de manhã e de
noite”, afirma a carroceira.
“Me bate um
desespero quando vejo que meus cachorros não têm comida. A alimentação é
básica, tem que ter. Eu fico com fome para dar comida para eles.”
No mundo ideal de Edina, ela
estaria empregada com carteira assinada e abrigada numa casa alugada com Bia e Scooby.
Na falta de dinheiro, todavia, a melhor resposta é achada no improviso. A
carroceira dá um jeito de cozinhar arroz e cadáver num fogareiro feito com um
fundo de lata de refrigerante.
“Se a pandemia de coronavírus mudou a paisagem
urbana das grandes cidades, deixando ruas de todo o país vazias, por outro
aumentou o número de animais domésticos abandonados. Seja pela crise,
pelo medo de que cães e gatos transmitam o coronavírus ou pela mudança de vida
causada pela pandemia, mais donos de animais de estimação estão se desfazendo
dos seus outrora melhores amigos.”, publicou Edison Veiga para a BBC News
Brasil.
Covardia
Olhando além da mazela a que são
submetidos, animais abandonados representam uma série de problemas para a saúde
pública. Podem espalhar zoonoses diversas como raiva, leishmaniose,
esporotricose e leptospirose. Isso sem contar nos vários riscos como acidentes
de trânsito, sujeira, ataques a pessoas, entre outros. Mas o número de animais
abandonados pode piorar quando a quarentena acabar.
O perfil de abandonados nas ruas
brasileiras é bem notado: animais sem raça definida, vulgo “vira-latas”, são a
imensa maioria. Entre os motivos evitáveis ainda estão a falta de tempo,
questões comportamentais e a chegada de um filho.
Parte do abandono durante o
isolamento pode ser resultado de uma desinformação. Muitos, com medo de que os
animais sejam transmissores da covid-19, acabam os desertando sem antes
procurar informações com credibilidade. De acordo com a Organização Mundial de Saúde
Animal, não tem razão para tomar medidas contra animais que
comprometam seu bem-estar. Um artigo recente publicado na revista Journal of Travel Medicine alerta
sobre o abandono de animais domésticos à base de pânico.
“Infelizmente, penso que há uma possibilidade maior
dos animais adotados agora serem abandonados após a pandemia, pois o ser humano
tende a se voltar para os seus próprios interesses e se esquecer dos bons
momentos vividos juntos com os seus animais”, lamenta Stelio Pacca Loureiro
Luna, médico veterinário e docente na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em
entrevista para a revista eletrônica ComCiência. Ele coordena um projeto de
pesquisas sobre dor e qualidade de vida em animais.
“Um problema são as
informações errôneas de que cães e gatos podem transmitir o coronavírus.
Certamente esse não é o caso para cães e ainda não há comprovação definitiva
para gatos”, destaca Stelio.
No começo da pandemia, Olívia
Ferreira da Silva, de 55 anos, notou que tinha algo de diferente na sua casa.
Então ela contou seus animais de estimação e viu que havia um bichinho a mais.
Aliás, uma bichinha; uma gata prenha!
Daí a teoria da família de que um
vizinho/pedestre andava na rua e a jogou no quintal da casa. A gatinha pariu
uma ninhada de filhotes, que se somaram aos três que já viviam ali: Onix, Ben e
Logan.
Desempregada desde a chegada do
vírus, a costureira autônoma achou por bem adotar os animais. A preocupação era
de que machos e fêmeas dessem cria. Para isso, buscou informações no Centro de
Zoonoses mais perto dela, que vive na Cidade Nitro Química, na periferia da zona
leste, mas não obteve êxito.
Primeiro os
de quatro patas
O aperreio de Olívia, no fim das
contas, era certo. As gatas emprenharam duas vezes, e hoje ela cuida de 21
gatos – a maioria, filhotes. A única renda fixa é o salário do marido, e ela
consegue um bico na máquina-de-costura de vez em quando. O dinheiro que entra
em casa vai para alimentar os bichos de estimação.
“Eu passo necessidade, mas meus bichinhos não ficam
sem se alimentar. Se eu não tenho dinheiro, peço para amigos. Alguns me
depositam R$ 10, R$ 20 e eu compro tudo de ração para eles”, pontua ao Metrópoles.
“A minha maior
felicidade é pôr comida para meus bichinhos comerem. Isso me engrandece. Eles
sentem fome, mas não vão chegar em um lugar e pedir. Eu tenho muito amor por
eles”, exclama.
Além dos gatos, ela cuida de dois
cachorros, Pedrinho e Fred, 9 e 6 anos, e um jabuti, Rango, já adulto quando
ela se mudou para a casa, há mais de 40 anos.
Num mês, Olívia gasta uma média
de R$ 600 para alimentar gatos, cães e o réptil. A despensa vazia por causa dos
preços altos, pelo menos a ração de cada dia não falta para os animais.
A
população pet no Brasil é de cerca de 140 milhões de animais, entre cães,
gatos, peixes, aves e répteis e pequenos mamíferos. A maioria é de cachorros
(54,2 milhões) e felinos (23,9 milhões), num total de 78,1 milhões de animais. Desses,
5% são Animais em Condição de Vulnerabilidade (ACV), o que representa 3,9
milhões de pets.
Do total
da população ACV, cães representam 69% (2,69 milhões), enquanto os gatos
correspondem a 31% (1,21 milhões). Os dados são do Instituto Pet Brasil (IPB).
Os Animais em Condição de Vulnerabilidadesão aqueles que vivem sob tutela das
famílias classificadas abaixo da linha de pobreza, ou que vivem nas ruas, mas
recebem cuidados de pessoas.
Não estão
incluídos entre os ACV os animais abandonados, que são aqueles que vivem por um
determinado tempo sem um tutor definido. A maioria desses pets abandonados
vivem sob tutela de Organizações não Governamentais (ONGs), denominadas
popularmente como Proteção Animal, ou protetores que assumem a responsabilidade
de manter esses animais e promover a adoção voluntária.
O
levantamento do Instituto Pet Brasil apurou a existência de 370 ONGs atuando na
proteção animal.
A ONG Célula Mãe, de Salvador/BA, atua desde 2004 desenvolvendo
campanhas educativas em bairros carentes para a guarda responsável e campanhas
de castração em massa para controle reprodutivo e consequente diminuição da
superpopulação de animais de rua nestas regiões.
Coordenadora da Célula Mãe,
Janaína Rios disse que a instituição surgiu de forma assistencialista, por meio
de um grupo de mulheres motivadas em agir pela raiz do problema, que é a
promoção de ações preventivas, para inibir a superpopulação de cães e gatos,
propagação de zoonoses e abandono.
Além de dificuldades com o manejo
do resgate de animais em situação de risco ou rua e castração, a organização
anda recebendo críticas por ter projeto aprovado junto à SESAB.
A ONG Focinhos de Luz,
de Sepetiba/RJ, acolhe animais num abrigo e promove eventos com profissionais
da área veterinária. Além das feiras de adoção (que não pararam, se adaptando
ao ambiente virtual), eles ainda têm o programa de apadrinhamento. Você pode se
tornar padrinho de um pet garantindo alimentação e despesas à
distância.
A junta de voluntários se formou
em 2010 para refazer um “campo de concentração de animais” a que foram ajudar
como abrigo. Uma senhora mantinha bichos resgatados, porém sem qualquer
organização ou atenção à saúde dos animais, um verdadeiro depósito sem adoção.
Atualmente eles estão construindo
uma Casa de Passagem que dará atendimento à saúde e lar temporário para os
animais que serão adotados e que hoje estão sob nossa responsabilidade.
A ONG Cão sem dono,
de São Paulo, atua em toda Itapecerica da Serra, na capital e região
metropolitana. Também tem forte atuação em Pouso Alegre (MG) e cidades da
região sul de Minas Gerais.
A associação dá suporte a animais
em tragédias com material de campanha e cercados, captação e transporte de
alimentos e veterinários. Anualmente, realiza campanhas de conscientização,
mutirões de castração e atendimento veterinário gratuito.
Mantém 2 abrigos (em Itapecerica da Serra, SP) com
450 animais que são tratados por veterinários, alimentados com ração de
qualidade, bebem água potável e dormem em abrigos especialmente construídos.
Possui em sua estrutura grandes
canis, espaço para atendimento veterinário emergencial, depósitos, casas de
caseiros, área de internação e muito, mas muito verde.
Apenas o
essencial
Na casa de Normangela Pereira da
Rocha, de 51 anos, a compra do essencial é motivo de festa. Ela tem cinco
cachorros, – Branquinho, 12; Liliu, 7; Pituca, 6; Shakira, 3; e Dudu, 2 – e
cinco gatos sem raça definida que não se dão.
Ela é auxiliar de limpeza, mas se
encontra desempregada desde o surto da Sars-CoV-2 no Brasil. Normângela mantém
a casa onde mora, na Favela do Pedreira, em Guaianases, zona leste da capital.
Os pets se valem com a pensão por viuvez que ela recebe
mensalmente.
Em suas palavras, os cuidados com
animais de estimação vão além da nutrição. No entanto, ela nada pode fazer com
a quantia requerida para fazer a bateria de exames, medicamentos e injeções de
que os 10 necessitam.
Dentro do que pode, Normângela
diz que mimou demais os animais, principalmente os cães, que comem ração com
arroz e caldo. Um luxo seriam ossinhos, bifinhos e outros petiscos, mas está
fora de alcance no momento.
“Eles são
gordinhos, são bonitinhos. Se eu tivesse condições, adotaria mais”, fala, aos
risos.
Foto: Blog Pet Anjo
Fonte: anda.jor.br


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