Pages - Menu

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Em cenário pandêmico, donos de pets desempregados deixam de comer para dar de comer aos bichanos

 

Margus de Wallachia | Redação ANDA


São Paulo – 
Edinailde Santos, de 43 anos, procura aliviar a sensação de abandono nas ruas da capital paulista adotando animais de estimação. Dormindo entre calçadas e marquises há quase vinte anos, recolhe cachorros para se proteger do desamparo social e da violência.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que só no Brasil hajam mais de 30 milhões de animais abandonados. Dentre esse número, cerca de 10 milhões são de gatos e 20 milhões de cães. A cada 5 habitantes de uma grande cidade há um cachorro, dos quais 10% estão abandonados.


Quando explodiu o novo vírus, Edina já sabia que teria de enfrentar ainda mais dificuldades que antes. Só não sabia que a nutrição de Bia, 2 anos, e de Scooby, 2 meses, entraria em risco com esta nova crise.

Tentando diariamente enganar a fome, ela conta com dinheiro de recicláveis coletados na Lapa, bairro de classe média da zona oeste. Edina vive também de doações provindas de ONGs e de amostras grátis entregues por funcionários de pet shops da região.

Segundo um estudo britânico, comissionado pela Silentnight Pet Beds, donos de pets são mais zelosos quando é para seus peludos. Dois mil ‘UK pet owners‘ foram estudados, e 8 em cada 10 deles comprometeriam seu sono para que seus animais dormissem melhor.



E outro estudo ianque, mais raso, indica que pessoas com cães/gatos terminam sacrificando parte de suas vidas para cuidar deles.


Ração de manhã e de noite

Edina se desdobra nos sete dias da semana. Com a reciclagem, consegue juntar num dia “muito bom” no máximo cinquenta reais. De segunda a quinta, cuida do Scooby, e de sexta a domingo vai à casa do sogro, em Santana de Parnaíba, fazer companhia para a cadela Bia. Na sua ausência, um irmão em situação de rua cuida do filhote, que já tem a quantidade certa de ração.

Graças a uma doação mensal de cesta básica de uma igreja local, a situação dela e marido não está pior. Com o tutu garantido, Edina se sente mais aliviada ao desembolsar R$200 em 30kg de ração.

“Fome eles não passam. A pandemia deixou ainda mais difícil a compra de comida para os cachorros. Se eu ganho mais na reciclagem, compro mais ração para eles. Os bichinhos comem, viu? Dou ração de manhã e de noite”, afirma a carroceira.

“Me bate um desespero quando vejo que meus cachorros não têm comida. A alimentação é básica, tem que ter. Eu fico com fome para dar comida para eles.”

No mundo ideal de Edina, ela estaria empregada com carteira assinada e abrigada numa casa alugada com Bia e Scooby. Na falta de dinheiro, todavia, a melhor resposta é achada no improviso. A carroceira dá um jeito de cozinhar arroz e cadáver num fogareiro feito com um fundo de lata de refrigerante.

“Se a pandemia de coronavírus mudou a paisagem urbana das grandes cidades, deixando ruas de todo o país vazias, por outro aumentou o número de animais domésticos abandonados. Seja pela crise, pelo medo de que cães e gatos transmitam o coronavírus ou pela mudança de vida causada pela pandemia, mais donos de animais de estimação estão se desfazendo dos seus outrora melhores amigos.”, publicou Edison Veiga para a BBC News Brasil.

Covardia

Olhando além da mazela a que são submetidos, animais abandonados representam uma série de problemas para a saúde pública. Podem espalhar zoonoses diversas como raiva, leishmaniose, esporotricose e leptospirose. Isso sem contar nos vários riscos como acidentes de trânsito, sujeira, ataques a pessoas, entre outros. Mas o número de animais abandonados pode piorar quando a quarentena acabar.

O perfil de abandonados nas ruas brasileiras é bem notado: animais sem raça definida, vulgo “vira-latas”, são a imensa maioria. Entre os motivos evitáveis ainda estão a falta de tempo, questões comportamentais e a chegada de um filho.


Parte do abandono durante o isolamento pode ser resultado de uma desinformação. Muitos, com medo de que os animais sejam transmissores da covid-19, acabam os desertando sem antes procurar informações com credibilidade. De acordo com a Organização Mundial de Saúde Animal, não tem razão para tomar medidas contra animais que comprometam seu bem-estar. Um artigo recente publicado na revista Journal of Travel Medicine alerta sobre o abandono de animais domésticos à base de pânico.

“Infelizmente, penso que há uma possibilidade maior dos animais adotados agora serem abandonados após a pandemia, pois o ser humano tende a se voltar para os seus próprios interesses  e se esquecer dos bons momentos vividos juntos com os seus animais”, lamenta Stelio Pacca Loureiro Luna, médico veterinário e docente na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em entrevista para a revista eletrônica ComCiência. Ele coordena um projeto de pesquisas sobre dor e qualidade de vida em animais.

“Um problema são as informações errôneas de que cães e gatos podem transmitir o coronavírus. Certamente esse não é o caso para cães e ainda não há comprovação definitiva para gatos”, destaca Stelio.

No começo da pandemia, Olívia Ferreira da Silva, de 55 anos, notou que tinha algo de diferente na sua casa. Então ela contou seus animais de estimação e viu que havia um bichinho a mais. Aliás, uma bichinha; uma gata prenha!

Daí a teoria da família de que um vizinho/pedestre andava na rua e a jogou no quintal da casa. A gatinha pariu uma ninhada de filhotes, que se somaram aos três que já viviam ali: Onix, Ben e Logan.

Desempregada desde a chegada do vírus, a costureira autônoma achou por bem adotar os animais. A preocupação era de que machos e fêmeas dessem cria. Para isso, buscou informações no Centro de Zoonoses mais perto dela, que vive na Cidade Nitro Química, na periferia da zona leste, mas não obteve êxito.

Primeiro os de quatro patas

O aperreio de Olívia, no fim das contas, era certo. As gatas emprenharam duas vezes, e hoje ela cuida de 21 gatos – a maioria, filhotes. A única renda fixa é o salário do marido, e ela consegue um bico na máquina-de-costura de vez em quando. O dinheiro que entra em casa vai para alimentar os bichos de estimação.

“Eu passo necessidade, mas meus bichinhos não ficam sem se alimentar. Se eu não tenho dinheiro, peço para amigos. Alguns me depositam R$ 10, R$ 20 e eu compro tudo de ração para eles”, pontua ao Metrópoles.

“A minha maior felicidade é pôr comida para meus bichinhos comerem. Isso me engrandece. Eles sentem fome, mas não vão chegar em um lugar e pedir. Eu tenho muito amor por eles”, exclama.

Além dos gatos, ela cuida de dois cachorros, Pedrinho e Fred, 9 e 6 anos, e um jabuti, Rango, já adulto quando ela se mudou para a casa, há mais de 40 anos.

Num mês, Olívia gasta uma média de R$ 600 para alimentar gatos, cães e o réptil. A despensa vazia por causa dos preços altos, pelo menos a ração de cada dia não falta para os animais.

A população pet no Brasil é de cerca de 140 milhões de animais, entre cães, gatos, peixes, aves e répteis e pequenos mamíferos. A maioria é de cachorros (54,2 milhões) e felinos (23,9 milhões), num total de 78,1 milhões de animais. Desses, 5% são Animais em Condição de Vulnerabilidade (ACV), o que representa 3,9 milhões de pets.

Do total da população ACV, cães representam 69% (2,69 milhões), enquanto os gatos correspondem a 31% (1,21 milhões). Os dados são do Instituto Pet Brasil (IPB). Os Animais em Condição de Vulnerabilidadesão aqueles que vivem sob tutela das famílias classificadas abaixo da linha de pobreza, ou que vivem nas ruas, mas recebem cuidados de pessoas.

Não estão incluídos entre os ACV os animais abandonados, que são aqueles que vivem por um determinado tempo sem um tutor definido. A maioria desses pets abandonados vivem sob tutela de Organizações não Governamentais (ONGs), denominadas popularmente como Proteção Animal, ou protetores que assumem a responsabilidade de manter esses animais e promover a adoção voluntária.

O levantamento do Instituto Pet Brasil apurou a existência de 370 ONGs atuando na proteção animal.


ONG Célula Mãe, de Salvador/BA, atua desde 2004 desenvolvendo campanhas educativas em bairros carentes para a guarda responsável e campanhas de castração em massa para controle reprodutivo e consequente diminuição da superpopulação de animais de rua nestas regiões.

Coordenadora da Célula Mãe, Janaína Rios disse que a instituição surgiu de forma assistencialista, por meio de um grupo de mulheres motivadas em agir pela raiz do problema, que é a promoção de ações preventivas, para inibir a superpopulação de cães e gatos, propagação de zoonoses e abandono.

Além de dificuldades com o manejo do resgate de animais em situação de risco ou rua e castração, a organização anda recebendo críticas por ter projeto aprovado junto à SESAB.


ONG Focinhos de Luz, de Sepetiba/RJ, acolhe animais num abrigo e promove eventos com profissionais da área veterinária. Além das feiras de adoção (que não pararam, se adaptando ao ambiente virtual), eles ainda têm o programa de apadrinhamento. Você pode se tornar padrinho de um pet garantindo alimentação e despesas à distância.

A junta de voluntários se formou em 2010 para refazer um “campo de concentração de animais” a que foram ajudar como abrigo. Uma senhora mantinha bichos resgatados, porém sem qualquer organização ou atenção à saúde dos animais, um verdadeiro depósito sem adoção.

Atualmente eles estão construindo uma Casa de Passagem que dará atendimento à saúde e lar temporário para os animais que serão adotados e que hoje estão sob nossa responsabilidade.


ONG Cão sem dono, de São Paulo, atua em toda Itapecerica da Serra, na capital e região metropolitana. Também tem forte atuação em Pouso Alegre (MG) e cidades da região sul de Minas Gerais.

A associação dá suporte a animais em tragédias com material de campanha e cercados, captação e transporte de alimentos e veterinários. Anualmente, realiza campanhas de conscientização, mutirões de castração e atendimento veterinário gratuito.

Mantém 2 abrigos (em Itapecerica da Serra, SP) com 450 animais que são tratados por veterinários, alimentados com ração de qualidade, bebem água potável e dormem em abrigos especialmente construídos.

Possui em sua estrutura grandes canis, espaço para atendimento veterinário emergencial, depósitos, casas de caseiros, área de internação e muito, mas muito verde.


Apenas o essencial

Na casa de Normangela Pereira da Rocha, de 51 anos, a compra do essencial é motivo de festa. Ela tem cinco cachorros, – Branquinho, 12; Liliu, 7; Pituca, 6; Shakira, 3; e Dudu, 2 – e cinco gatos sem raça definida que não se dão.

Ela é auxiliar de limpeza, mas se encontra desempregada desde o surto da Sars-CoV-2 no Brasil. Normângela mantém a casa onde mora, na Favela do Pedreira, em Guaianases, zona leste da capital. Os pets se valem com a pensão por viuvez que ela recebe mensalmente.

Em suas palavras, os cuidados com animais de estimação vão além da nutrição. No entanto, ela nada pode fazer com a quantia requerida para fazer a bateria de exames, medicamentos e injeções de que os 10 necessitam.

Dentro do que pode, Normângela diz que mimou demais os animais, principalmente os cães, que comem ração com arroz e caldo. Um luxo seriam ossinhos, bifinhos e outros petiscos, mas está fora de alcance no momento.

“Eles são gordinhos, são bonitinhos. Se eu tivesse condições, adotaria mais”, fala, aos risos.

Foto: Blog Pet Anjo

Fonte: anda.jor.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário