Foto: The Donkey SanctuaryElefantes, tigres, rinocerontes e pangolins costumam ocupar o centro das discussões internacionais sobre tráfico de animais selvagens. A atenção concentrada nessas espécies, porém, pode deixar outras vítimas fora do debate. Entre elas estão os burros, submetidos a um comércio clandestino que transforma suas peles em matéria-prima para a produção de ejiao, uma gelatina utilizada na medicina tradicional chinesa.
Estima-se que pelo menos seis milhões de burros sejam mortos todos os anos para abastecer esse mercado. A população mundial da espécie é calculada em cerca de 50 milhões de animais. O volume de mortes ameaça a sobrevivência dos indivíduos e a permanência de populações inteiras em diferentes regiões.
A pressão sobre os burros está ligada ao crescimento da procura por ejiao, cuja produção depende do colágeno encontrado na pele desses animais. O produto é associado, por seus consumidores, à manutenção da juventude e a benefícios para a saúde. A expansão dessa demanda criou uma cadeia de exploração que atravessa fronteiras e alcança comunidades rurais em países pobres.
Muitos burros utilizados no trabalho são roubados de famílias que dependem deles para transportar alimentos, água, medicamentos e produtos agrícolas. O desaparecimento de um animal pode representar a perda de uma importante fonte de renda e de mobilidade para uma comunidade inteira.
Em áreas rurais e marginalizadas, os equídeos de carga também desempenham um papel social. O transporte de mercadorias permite que famílias comercializem sua produção, enquanto o deslocamento de crianças até escolas pode depender da presença desses animais. Mulheres também encontram nos burros um apoio para atividades comerciais e tarefas que, sem eles, exigiriam mais tempo, esforço e recursos.
A retirada desses animais das comunidades, portanto, não produz apenas uma vítima individual. Ela pode aprofundar a pobreza e reduzir a capacidade de famílias enfrentarem períodos de crise, inclusive após desastres naturais, quando os burros também são utilizados em operações de resgate, socorro e recuperação.
Risco que ultrapassa os animais
As consequências também alcançam a saúde pública. O comércio de peles funciona muitas vezes sem rastreabilidade, fiscalização veterinária ou condições adequadas de higiene. As mortes podem ocorrer em quintais, áreas abertas ou matagais, onde sangue, vísceras e águas residuais são descartados sem controle.
Esses resíduos podem contaminar o solo, alimentos e fontes de água.
A mistura de animais provenientes de diferentes regiões aumenta ainda mais os riscos. Burros podem atravessar fronteiras sem acompanhamento veterinário confiável, sendo colocados em contato com indivíduos de locais onde circulam diferentes agentes infecciosos.
Uma pesquisa encomendada pelo The Donkey Sanctuary encontrou um alerta importante. Entre 108 amostras de pele recolhidas em um matadouro do Quênia em 2020, 88 apresentaram Staphylococcus aureus. Em 44 delas, foi identificada resistência à meticilina, característica associada ao MRSA, uma bactéria resistente a antibióticos que representa preocupação para a saúde pública.
O problema, portanto, não se restringe à crueldade praticada contra os burros. A ausência de controle sanitário transforma a cadeia de exploração em uma vulnerabilidade que pode afetar animais, trabalhadores, comunidades e ecossistemas.
Porta para outros crimes
A falta de regulamentação internacional uniforme também cria brechas para atividades criminosas. Em diferentes países, o comércio de peles possui tratamentos legais distintos, o que dificulta o controle das rotas e a fiscalização da cadeia.
As peles podem ser misturadas a partes de outras espécies, inclusive animais protegidos pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES). Essa sobreposição dificulta a identificação de cargas e pode ser utilizada para ocultar outros produtos de origem ilegal.
A estrutura também pode se conectar a redes envolvidas em lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e comércio clandestino de armas. O mercado de peles, quando explorado por organizações criminosas, deixa de ser apenas uma atividade de exploração animal e passa a integrar uma rede mais ampla de crimes.
População brasileira despenca
No Brasil, a situação dos burros é particularmente grave. Em três décadas, a população estimada caiu 94%, passando de cerca de 1,37 milhão de animais em 1996 para menos de 78 mil.
A redução levou pesquisadores a alertar para o risco de desaparecimento da espécie no país caso as mortes continuem sem controle.
O declínio brasileiro expõe uma realidade frequentemente ignorada. Animais historicamente tratados como instrumentos de trabalho também podem desaparecer quando são submetidos à exploração comercial em larga escala. O fato de serem menos celebrados do que grandes mamíferos não diminui seu valor como indivíduos capazes de sentir dor, medo e sofrimento.
Proteção exige ação política
Em 2024, chefes de Estado africanos anunciaram uma moratória sobre a matança de burros para obtenção de suas peles no continente. Uma estratégia para ampliar a proteção da espécie e estabelecer medidas de conservação até 2035 também foi confirmada.
A medida representa um avanço importante, mas a demanda não está restrita à África. Rotas comerciais alcançam países da Ásia e também regiões da América Latina e da América Central, o que exige políticas coordenadas entre governos.
O The Donkey Sanctuary atua internacionalmente para ampliar a presença dos burros nas políticas públicas e defender o fim do comércio de suas peles. A organização também trabalha com pesquisadores e especialistas para mapear rotas comerciais, acompanhar a movimentação do mercado e compreender os fatores que sustentam a demanda.
Proteger os burros exige interromper uma cadeia que começa com a captura ou o roubo de animais e termina em um mercado que transforma suas peles em produto. Também significa proteger as famílias que dependem deles, reduzir riscos sanitários e impedir que redes criminosas continuem explorando uma espécie historicamente relegada a um lugar de menor importância.
Nenhum animal deveria precisar desaparecer para que sua pele se transforme em mercadoria. No caso dos burros, enfrentar esse comércio é também reconhecer que o valor de uma vida não pode ser determinado pelo prestígio atribuído à espécie nem pelo preço alcançado por seus restos.
Fonte: anda.jor.br
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