Foto: Ilustração | Pixabay
Poucos animais ilustram tão claramente as contradições da relação humana com outras espécies quanto o pombo. Reverenciado por antigas civilizações, associado a divindades, usado para salvar vidas em guerras e criado como companheiro por séculos, ele acabou reduzido ao estigma de “rato com asas”, um rótulo que a ciência considera profundamente exagerado.
A história dessa mudança revela menos sobre as aves e mais sobre a forma como os humanos abandonaram uma espécie que eles próprios domesticaram.
A pomba-das-rochas (Columba livia), ancestral dos pombos urbanos, figura entre as primeiras aves domesticadas pela humanidade. Evidências arqueológicas encontradas em Chipre indicam que, por volta de 1400 a.C., esses animais já conviviam intimamente com comunidades humanas. Ossos de pombas encontrados em contextos de banquetes rituais apresentam sinais de que elas compartilhavam uma alimentação muito semelhante à das pessoas.
Segundo o zooarqueólogo Anderson Carter, da Universidade de Groningen, essa descoberta sugere que as aves ocupavam um lugar muito mais relevante do que o de simples recurso alimentar. Os resultados foram publicados na revista Antiquity.
Companheiros da história humana
A convivência entre humanos e pombos atravessou civilizações inteiras. Além de fornecer carne e guano usado como fertilizante, essas aves adquiriram profundo significado simbólico.
Na Grécia Antiga, eram associadas à deusa Afrodite. Na tradição judaico-cristã, o pombo enviado por Noé tornou-se símbolo de renovação após o dilúvio, enquanto o Espírito Santo aparece como uma pomba no relato do batismo de Jesus. A tradição islâmica também atribui aos pombos um papel de proteção ao profeta Maomé.
Sua extraordinária capacidade de retornar ao próprio ninho transformou essas aves em mensageiras indispensáveis durante milênios. Muito antes da compreensão científica de que utilizam o campo magnético terrestre para se orientar, navegadores exploravam esse instinto no Mediterrâneo.
Egípcios transmitiam notícias sobre as cheias do Nilo. Gregos anunciavam resultados dos Jogos Olímpicos. Júlio César enviava informações de campanhas militares por meio de pombos-correios. Séculos depois, a notícia da derrota de Napoleão em Waterloo chegou rapidamente a Londres graças a uma dessas aves.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, o pombo-correio Cher Ami atravessou cerca de 40 quilômetros gravemente ferido para entregar um pedido de socorro que contribuiu para salvar 194 soldados aliados. A ave recebeu posteriormente a Cruz de Guerra francesa.
O abandono após a perda de utilidade
A reputação dos pombos começou a desmoronar na metade do século XX.
Com o surgimento do telégrafo, do telefone e, posteriormente, de outras formas modernas de comunicação, eles deixaram de exercer a função de mensageiros. O desenvolvimento dos fertilizantes sintéticos reduziu o valor econômico do guano, e a criação industrial favoreceu aves maiores, como galinhas e perus.
Segundo o sociólogo ambiental Colin Jerolmack, da Universidade de Nova York e autor de The Global Pigeon, os pombos tornaram-se “detritos históricos”, sobreviventes de uma relação que a sociedade preferiu esquecer.
Domesticados durante séculos para viver próximos das pessoas, continuaram ocupando os espaços urbanos onde sempre encontraram alimento, abrigo e segurança relativa.
A construção do “rato com asas”
O crescimento das populações urbanas de pombos coincidiu com campanhas que passaram a responsabilizar essas aves por diversos problemas sanitários.
Jerolmack afirma que elas se tornaram bodes expiatórios convenientes.
O apelido “rato com asas”, hoje amplamente difundido, surgiu em Nova York na década de 1960, durante um projeto de revitalização do Bryant Park. Autoridades municipais descreveram os pombos como uma ameaça à saúde pública, e a expressão acabou sendo reproduzida em jornais por todo o país antes de ganhar popularidade na cultura pop.
A narrativa, porém, não corresponde ao consenso científico atual.
O infectologista Arturo Casadevall, da Universidade Johns Hopkins, explica que as fezes de pombo podem abrigar fungos responsáveis por doenças como criptococose e histoplasmose, mas o risco costuma estar associado à inalação de grandes quantidades de excrementos secos dispersos no ar, situação típica da limpeza de pombais.
A transmissão direta por um pombo é considerada extremamente rara.
“Mosquitos e carrapatos são animais muito mais perigosos do que pombos”, afirma Casadevall.
Redescobrindo uma antiga convivência
Nos últimos anos, iniciativas culturais e grupos de resgate têm ajudado a transformar novamente a percepção sobre essas aves.
Em 2024, Nova York instalou a escultura monumental Dinosaur, do artista colombiano Iván Argote, um pombo de quase cinco metros de altura que despertou amplo interesse público. Embora temporária, a obra inspirou uma petição com milhares de assinaturas e antecedeu o Festival dos Pombos realizado na cidade em 2025.
O movimento também cresce entre pessoas que passaram a adotar pombos resgatados.
Abby Jardine, moradora do Brooklyn, acolheu um filhote encontrado na rua acreditando que seria uma solução provisória. Anos depois, a ave chamada Pidge tornou-se presença constante em seus vídeos nas redes sociais, onde conquistou dezenas de milhares de seguidores.
Na Califórnia, a organização Palomacy mantém centenas de pombos resgatados e incentiva a adoção responsável. Sua diretora, Cynthia Bardouka-Large, afirma que muitas pessoas mudam completamente de opinião depois de conviver com esses animais.
Ela descreve os pombos como companheiros leais, inteligentes, dóceis e profundamente sociáveis.
A trajetória dessas aves revela uma ironia difícil de ignorar. Durante milhares de anos, os humanos selecionaram pombos para viver ao seu lado. Quando sua utilidade econômica desapareceu, eles permaneceram onde sempre pertenceram, enquanto a sociedade passou a tratá-los como invasores.
Hoje, parte desse passado começa a ser recuperada por pesquisadores, cuidadores e defensores dos animais que lembram uma verdade frequentemente esquecida. Os pombos das cidades não escolheram tornar-se nossos vizinhos. Foram os próprios humanos que os transformaram em companheiros de jornada.
Fonte: anda.jor.br
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