Foto: Milos Bicanski | We Animals Media
Em uma guerra, o medo não atinge apenas os seres humanos. Animais também sentem medo, estresse e sofrimento diante de explosões, sirenes e deslocamentos forçados. Na Ucrânia, essa realidade levou o governo a modificar as normas de acesso a estruturas de proteção e permitir que famílias permaneçam com seus animais domésticos durante situações de emergência.
A alteração ocorreu em janeiro de 2024, quando o Ministério do Interior ucraniano publicou a Ordem nº 18. O texto retirou das normas a proibição de levar animais para abrigos de defesa civil e estabeleceu condições para que eles permaneçam nesses espaços com segurança. A medida entrou em vigor em 25 de janeiro daquele ano.
Pelas novas regras, pessoas acompanhadas de animais devem ser acomodadas, sempre que possível, em cômodos separados ou áreas específicas. Os responsáveis precisam manter os animais sob supervisão, garantir condições adequadas às necessidades de cada espécie e cumprir normas de higiene e cuidados veterinários. Animais que possam oferecer risco devem permanecer na coleira, enquanto cães incluídos na legislação ucraniana sobre raças consideradas perigosas precisam usar focinheira.
A mudança ganhou força depois de um episódio ocorrido em Kiev. Filhos de um soldado ucraniano morto em combate foram impedidos de entrar em um abrigo instalado em uma escola porque estavam acompanhados do cachorro da família. As crianças permaneceram do lado de fora durante um ataque aéreo enquanto um foguete explodiu sobre elas. Os três sobreviveram, mas o episódio provocou indignação e expôs as consequências de uma norma que obrigava famílias a escolher entre a própria segurança e a proteção de seus animais.
A experiência ucraniana também dialoga com uma questão recorrente em situações de desastre. Pessoas que consideram seus animais membros da família podem hesitar em deixar suas casas ou entrar em abrigos quando sabem que terão de abandoná-los. Uma regra criada para proteger a população pode, dessa forma, produzir o efeito contrário ao afastar cidadãos de estruturas destinadas à sua própria segurança.
O vínculo também tem uma dimensão emocional. Em situações de guerra e outras emergências, a presença de um animal pode oferecer conforto e estabilidade a pessoas submetidas a medo, perdas e deslocamentos. A separação compulsória acrescenta sofrimento a uma experiência já marcada pela violência.
Para os animais, os riscos são igualmente concretos. Bombardeios, ruídos intensos, destruição de habitats, deslocamentos e perda de referências familiares podem provocar medo e sofrimento. Em conflitos armados, eles podem morrer, ser feridos, abandonados ou ficar sem acesso a alimento, água e atendimento veterinário.
A reforma ucraniana parte de uma constatação simples. Se os animais fazem parte das famílias, os planos de proteção precisam considerá-los antes que a emergência aconteça.
O Eurogroup for Animals defende que os animais sejam incorporados aos planos de preparação para desastres da União Europeia. A organização sustenta que medidas como áreas específicas, uso de coleiras e focinheiras quando necessário e protocolos de higiene permitem conciliar a segurança coletiva com a proteção dos animais.
A inclusão de animais nos sistemas de defesa civil não deve ser tratada como uma concessão. Em uma emergência, permitir que pessoas procurem abrigo sem abandonar aqueles que dependem delas também pode aumentar a adesão às orientações de evacuação e proteção.
A guerra na Ucrânia transformou essa questão em uma necessidade concreta. Ao rever suas regras, o país reconheceu que proteger uma família não significa separar seus integrantes quando o perigo chega. Significa criar condições para que todos possam sobreviver.
Fonte: anda.jor.br
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