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domingo, 27 de setembro de 2026

Turistas podem transmitir doenças aos gorilas e veterinária cria estratégia para protegê-los em Uganda


 Foto: National Geographic

Na floresta de Bwindi, em Uganda, uma veterinária encontrou uma forma diferente de proteger os gorilas-das-montanhas. Em vez de concentrar os esforços apenas nos animais, ela passou a cuidar também da saúde das pessoas que vivem próximas à floresta e dos turistas que entram no habitat dos primatas.

A estratégia foi desenvolvida por Gladys Kalema-Zikusoka, veterinária especializada em animais silvestres e fundadora da organização Conservation Through Public Health. O trabalho parte de uma realidade preocupante: seres humanos podem transmitir doenças aos gorilas, que são geneticamente próximos de nós e podem ser vulneráveis a agentes infecciosos que circulam entre as pessoas.

Cerca de 40 mil turistas visitam Bwindi todos os anos para observar os gorilas. A proximidade necessária para o turismo de observação cria uma porta de entrada para vírus, bactérias e outros agentes infecciosos.

Em 2009, dois gorilas de Ruanda morreram após serem infectados por um vírus respiratório que, segundo os pesquisadores, provavelmente havia sido transmitido por um turista. Anos depois, durante a pandemia de Covid-19, Kalema-Zikusoka determinou que pessoas que se aproximassem dos gorilas usassem máscaras. Nenhum dos animais monitorados em Bwindi testou positivo para a doença, e as máscaras também reduziram a transmissão de influenza entre humanos e gorilas.

A ameaça, porém, não se resume aos vírus respiratórios. Poucos meses depois de assumir como primeira veterinária especializada em animais silvestres contratada pelo governo de Uganda, Kalema-Zikusoka encontrou uma tropa de gorilas sofrendo com sarna. Os animais provavelmente tiveram contato com roupas deixadas por agricultores em espantalhos nas plantações próximas à floresta.

Um dos filhotes morreu.

O episódio fez a veterinária perceber que proteger os gorilas exigia olhar também para as condições de vida das comunidades vizinhas. Em vez de simplesmente levar recomendações aos moradores, ela passou a ouvi-los. Os próprios habitantes apontaram a necessidade de mais educação em saúde e acesso a serviços médicos.

Em 2003, Kalema-Zikusoka fundou a Conservation Through Public Health. A organização passou a atuar simultaneamente na saúde dos gorilas e das comunidades humanas. O trabalho inclui monitoramento de doenças nos animais, instalação de pontos para lavagem das mãos, cuidados com animais criados nas comunidades, distribuição de sementes para produção de alimentos e ações para reduzir a retirada de madeira da floresta.

A estratégia também busca diminuir situações que colocam humanos e gorilas em contato desnecessário. Moradores recebem orientação para conviver com os primatas que ocasionalmente deixam a floresta em busca de alimento, enquanto guardas ajudam a conduzi-los de volta ao habitat.

O trabalho ganhou ainda mais importância porque a população de gorilas-das-montanhas aumentou nas últimas décadas. Hoje, mais de mil desses animais vivem na África, tornando-os os únicos grandes primatas cuja população está crescendo. Em Bwindi, entretanto, o aumento no número de gorilas não foi acompanhado pela mesma expansão da floresta, criando novos desafios para a convivência com as comunidades vizinhas.

A experiência em Uganda mostra que a proteção dos gorilas não depende apenas de impedir a caça ou proteger a floresta. Também exige reduzir os riscos criados pelo contato com seres humanos.

Para animais que podem morrer após contrair doenças comuns entre pessoas, manter distância e controlar a transmissão de agentes infecciosos pode significar a diferença entre sobreviver e desaparecer.

E existe uma contradição que não pode ser ignorada. O turismo que leva milhares de pessoas até a floresta para observar os gorilas também pode expô-los às doenças trazidas por essas mesmas pessoas.

Proteger os animais, nesse caso, significa reconhecer que a aproximação humana tem consequências e que a responsabilidade pela segurança dos gorilas também é de quem entra em seu habitat.

Com informações de: National Geographic

" QUEM NÃO AMA OS ANIMAIS JAMAIS VAI AMAR O SEMELHANTE"

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