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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Após mais de 40 anos aprisionada em circos e 10 em zoológicos, Bambi chegou ao santuário 680 kg abaixo do peso e passou a viver em grandes áreas abertas


 Transferência para Mato Grosso provocou uma disputa técnica

Em 26 de setembro de 2020, depois de passar mais de quatro décadas sendo utilizada em circos e aproximadamente outros dez anos em zoológicos brasileiros, a elefanta-asiática Bambi chegou ao Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso. Ela tinha cerca de 58 anos e, segundo o Global Sanctuary for Elephants, apresentava pouca massa muscular e estava aproximadamente 1.500 libras, cerca de 680 kg, abaixo do peso considerado adequado pela equipe do santuário.

A mudança colocou Bambi diante de uma realidade completamente diferente daquela que havia conhecido durante décadas. Em vez de um recinto zoológico de aproximadamente 1.500 a 1.800 m², documentos do processo de transferência registravam que ela teria inicialmente 2,5 hectares, ou 25 mil m², apenas para sua adaptação, cercados por vegetação. Nos anos seguintes, o próprio santuário relataria uma transformação física significativa, com recuperação de peso, fortalecimento muscular e uso crescente das áreas abertas.

Mais de 40 anos da vida de Bambi foram passados em circos

A história conhecida de Bambi no Brasil está profundamente ligada ao entretenimento com animais. O Global Sanctuary for Elephants afirma que ela passou mais de 40 anos como elefanta de circo antes de ser confiscada e encaminhada para um zoológico.

A Prefeitura de Ribeirão Preto registrou que Bambi havia passado a vida no Circo Stankowich antes de chegar ao sistema de zoológicos. Após a retirada do circo, ela foi encaminhada ao Zoológico de Leme, no interior paulista.

O santuário informa que a permanência em Leme durou aproximadamente cinco anos. Posteriormente, Bambi foi transferida para Ribeirão Preto, onde permaneceria até setembro de 2020. Seu histórico oficial mantido atualmente pela organização resume a trajetória como mais de 40 anos em circo, cinco anos em Leme e outros cinco em Ribeirão Preto.

Equipe do santuário conheceu Bambi ainda em 2013

O encontro entre Bambi e os futuros responsáveis pelo Santuário de Elefantes Brasil ocorreu muito antes de sua transferência.


Em 2013, Scott Blais e Kat Blais visitaram Bambi no Zoológico de Leme durante uma viagem destinada a avaliar a necessidade de criação de um santuário especializado em elefantes na América do Sul. Segundo a organização, os responsáveis pelo zoológico chegaram a perguntar se eles poderiam receber Bambi naquele momento.

O problema era estrutural: o santuário ainda nem possuía uma propriedade.

Bambi acabou permanecendo no sistema zoológico e posteriormente foi levada para Ribeirão Preto. Quando integrantes do projeto voltaram a encontrá-la anos depois, a avaliação da organização era bastante diferente daquela observada em 2013.

Bambi chegou a Ribeirão Preto com problemas de saúde já conhecidos

A situação da elefanta tornou-se objeto de avaliações técnicas e de uma disputa sobre qual seria o ambiente mais adequado para mantê-la.

A Prefeitura de Ribeirão Preto informou em 2020 que Bambi tinha problemas crônicos de saúde, deficiência visual em um dos olhos e dificuldades dentárias. O zoológico afirmava fornecer alimentação adaptada, hidratação, enriquecimento ambiental e acompanhamento veterinário.

O recinto compartilhado pelas duas elefantas do zoológico possuía, segundo a prefeitura, aproximadamente 1.500 m², além de um tanque de 200 m². A administração municipal sustentava na época que uma viagem de longa distância representaria risco devido à idade e às condições clínicas de Bambi.

O Santuário de Elefantes Brasil apresentava uma avaliação diferente. A organização descreveu Bambi naquele período como magra, com pouca musculatura e comportamentos repetitivos associados ao estresse.

Cerca de 680 kg abaixo do peso na chegada ao santuário

O dado mais impressionante divulgado posteriormente pelo santuário envolve a condição corporal.

Em uma atualização publicada em janeiro de 2026, a organização afirmou que Bambi estava cerca de 1.500 libras abaixo do peso quando se preparava para deixar Ribeirão Preto. A conversão corresponde a aproximadamente 680 kg.


A entidade também relatou pouca massa muscular e problemas nos pés, além da catarata que já comprometia o olho esquerdo.

O próprio santuário ressalva que não conseguiu determinar uma única causa para a perda de peso. Segundo a organização, não havia dados suficientes para estabelecer se o quadro decorria de problema físico, dieta, estresse ou combinação desses fatores.

Essa distinção é importante: a condição corporal foi documentada pela equipe que recebeu Bambi, mas sua origem não foi determinada de maneira conclusiva.

Transferência para Mato Grosso provocou uma disputa técnica

Antes da viagem, não havia consenso sobre o que seria melhor para Bambi.

Em julho de 2020, um parecer citado pela Prefeitura de Ribeirão Preto recomendava que ela permanecesse no zoológico, argumentando que idade, condição de saúde e o estresse de uma viagem longa poderiam colocar o animal em risco.

A transferência foi discutida judicialmente. Documentos posteriormente analisados pelo Tribunal de Justiça de São Paulo mostravam argumentos favoráveis ao santuário, incluindo a oferta inicial de um recinto de 25 mil m² com vegetação e adaptação gradual antes do contato próximo com outros elefantes.

Bambi acabou sendo transferida em setembro de 2020. Em julgamento posterior, realizado em fevereiro de 2021, a 2ª Câmara Reservada ao Meio Ambiente do TJSP registrou que o deslocamento havia sido realizado com êxito e reconheceu, por maioria, o recurso favorável à medida.

Viagem até Mato Grosso exigiu dias de preparação

Colocar uma elefanta idosa dentro de uma caixa de transporte não era algo que poderia ser feito rapidamente.

A equipe do santuário chegou a Ribeirão Preto vários dias antes da partida e começou a acostumar Bambi à estrutura. Inicialmente, ela entrava parcialmente, pegava alimentos com a tromba e recuava. O processo foi conduzido sem forçá-la imediatamente a permanecer no interior.

Somente depois de aproximadamente uma semana Bambi entrou completamente e foi possível iniciar a viagem.

A transferência ocorreu por estrada, de Ribeirão Preto até Mato Grosso. Registros da época apontam trajeto de aproximadamente 1.270 km e cerca de 48 horas de deslocamento.

Primeiros passos revelaram comportamento inesperado

O comportamento observado após a chegada surpreendeu a própria equipe. Segundo o Global Sanctuary for Elephants, Bambi saiu da caixa de transporte mais rapidamente do que qualquer outro elefante que o projeto havia recebido no Brasil até aquele momento.

A adaptação, entretanto, não consistiu simplesmente em colocá-la junto aos demais animais.

O processo foi gradual. Bambi passou a explorar recintos maiores, teve contato progressivo com outras elefantas e desenvolveu relações sociais diferentes ao longo dos anos, incluindo vínculos com Mara, Rana e principalmente Maia.

Grandes espaços produziram uma mudança visível na rotina

Um dos relatos mais recentes do santuário ajuda a dimensionar a diferença espacial. Em dezembro de 2025, a organização relembrou que Bambi havia vivido mais de 50 anos entre circos e zoológicos antes de finalmente ter acesso a grandes áreas abertas.

Segundo os cuidadores, quando encontrava um campo amplo à frente, ela chegava a correr pelo terreno e, em algumas ocasiões, ultrapassava Maia.

A liberdade dentro do santuário não significa retorno à natureza selvagem. Bambi continua sendo uma elefanta mantida sob cuidados humanos, com acompanhamento veterinário e alimentação suplementar.

A diferença está na escala e no modelo de manejo: ela pode escolher onde caminhar, descansar ou interagir dentro dos espaços disponíveis, em vez de permanecer permanentemente limitada a um pequeno recinto zoológico.

Bambi recuperou peso e massa muscular

A transformação física tornou-se um dos principais indicadores utilizados pelo santuário para acompanhar sua evolução.

O perfil oficial de Bambi informa que ela chegou severamente abaixo do peso e com pouca massa muscular, mas posteriormente atingiu uma condição corporal considerada saudável pela equipe.

Os cuidadores associam parte dessa evolução ao aumento natural da atividade física. Caminhar por áreas maiores, subir terrenos e escolher pontos diferentes para alimentação e descanso aumentou sua movimentação diária.

Para uma elefanta que havia passado décadas em áreas muito menores, o espaço tornou-se também uma forma de exercício.

Aos cerca de 60 anos, novo desafio é a perda de visão

A idade avançada continua impondo limitações. O perfil mais recente do Global Sanctuary for Elephants apresenta Bambi com aproximadamente 60 anos. Ela chegou ao santuário já cega do olho esquerdo devido à catarata e posteriormente passou a apresentar comprometimento também no olho direito.

A organização relata que Bambi está gradualmente aprendendo a circular pelo território com visão reduzida.

Maia tornou-se uma companhia importante nesse processo, enquanto outras elefantas também adaptam suas interações quando estão próximas dela.

De cinco décadas de confinamento para uma nova escala de espaço

A história de Bambi é marcada sobretudo por uma mudança de escala. Foram mais de 40 anos em circos, seguidos por aproximadamente dez anos em dois zoológicos. Quando chegou ao Mato Grosso em 2020, tinha cerca de 58 anos, pouca musculatura e, segundo o santuário, estava aproximadamente 680 kg abaixo do peso considerado adequado.

Anos depois, a mesma organização registra Bambi com peso recuperado, maior massa muscular e acesso contínuo a extensas áreas onde pode definir o próprio ritmo de deslocamento.

Para uma elefanta que passou praticamente toda a vida adulta em circos e recintos zoológicos, talvez o contraste mais expressivo não esteja apenas nos números de peso ou idade.

Está nos milhares de metros quadrados que se abriram diante dela quando, já próxima dos 60 anos, pôde finalmente escolher até onde queria caminhar.

Por Valdemar Medeiros

Fonte: Click Petróleo e Gás

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