Foto: Divulgação
O boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), uma das figuras mais emblemáticas da Amazônia, atravessa um período crítico de declínio populacional, que ameaça sua sobrevivência nos próximos anos. A caça ilegal é o principal fator por trás dessa redução, com estimativas apontando para uma diminuição de 50% na população dessa espécie em três gerações (69 anos), segundo dados de 2023 da plataforma SALVE do ICMBio. Sem uma ação imediata, o eco dos saltos desse mamífero, que tanto marca os rios brasileiros, poderá desaparecer.
Por trás da caça ilegal: Motivos econômicos e culturais
A caça ilegal do boto-cor-de-rosa está diretamente ligada a práticas econômicas destrutivas e crenças culturais persistentes. A pesquisa de Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), revela que o aumento na caça está associado à pesca da piracatinga, um bagre necrófago cuja carne, proveniente da matança de botos, é exportada para a Colômbia. “A carne de um boto pode gerar até uma tonelada de piracatinga, vendida a R$ 1,00 por quilo”, aponta a pesquisadora. Anteriormente à moratória de 2015, até 7 mil botos eram mortos anualmente. Além disso, a crença de que o óleo de boto possui propriedades afrodisíacas contribui para a continuidade dessa prática, mesmo sendo ilegal desde a Lei nº 5.197/1967.
O impacto ambiental e a ameaça à biodiversidade
Estudos realizados na Reserva Mamirauá entre 1994 e 2017 revelam uma queda anual de 10% na população de botos fora de áreas protegidas. A população estimada na Amazônia caiu de aproximadamente 50 mil indivíduos na década de 1980 para menos de 25 mil hoje. A caça do boto-cor-de-rosa não afeta apenas a espécie, mas desestabiliza o equilíbrio ecológico. Como predador de topo, o boto desempenha um papel essencial na regulação das populações de peixes, e sua ausência pode desencadear o colapso das cadeias alimentares locais. “Estamos vendo sinais claros de desequilíbrio nos ecossistemas aquáticos da região”, alerta Ana Costa, do INPA.
Desafios na fiscalização e a falta de controle efetivo
Embora o boto-cor-de-rosa seja protegido por lei desde 1967, a fiscalização na região amazônica continua sendo ineficaz. Em 2024, o Ibama realizou algumas apreensões, mas poucas punições concretas ocorreram. A vastidão do território e a escassez de recursos dificultam o combate à caça ilegal. “A presença de mais agentes e a utilização de drones são fundamentais para aumentar a eficácia das operações de fiscalização”, afirma João Silva, da ONG Ecoamazônia. Apesar de uma moratória na pesca da piracatinga que ajudou a reduzir a matança temporariamente, a prática voltou a crescer após o fim da medida em 2021.
Caminhos para a preservação do boto e da Amazônia
Especialistas propõem uma série de medidas para reverter esse cenário de extinção iminente:
- Monitoramento avançado: adoção de tecnologias como satélites e drones para rastrear e monitorar os botos, como foi feito pela Iniciativa Botos da América do Sul (SARDI), que monitorou 29 botos entre 2017 e 2019.
- Alternativas econômicas: oferecer alternativas sustentáveis para os pescadores, como atividades de piscicultura, para reduzir a dependência da pesca ilegal da piracatinga.
- Educação ambiental: investir em campanhas para conscientizar sobre os danos causados pela caça do boto, especialmente a desmistificação do uso de seu óleo, conforme sugerido por Batista (2022) na Revista Brasileira de Educação Ambiental.
A luta para salvar o boto-cor-de-rosa é muito mais do que um esforço para proteger uma espécie. Ela reflete a necessidade de preservar a biodiversidade da Amazônia e a própria identidade cultural da região.
Fonte: AM POST
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