Mariana Dandara | Redação ANDA
Foto: Arquivo Pessoal/Angélica Duclos Amado
A aposentada Angélica Duclos
Amado, de 53 anos, prefere não comprar os medicamentos dos quais precisa para
tratar uma lesão cerebral se, para isso, tiver que negligenciar os animais que
vivem com ela há 15 anos. Por isso, para manter a alimentação de seus fiéis companheiros,
ela abandonou o próprio tratamento médico.
Moradora de Praia Grande, no
litoral do estado de São Paulo, Angélica foi atropelada por um motociclista em
fevereiro enquanto atravessava uma avenida da cidade. O acidente causou um leve
sangramento em seu cérebro e, por isso, ela precisa tomar uma série de
medicamentos que custam R$ 300.
“Às vezes eu consigo uma pessoa
que doa um saco de ração, mas a gente acaba ficando em uma situação difícil, é
nessa que eu deixo de pagar uma conta, fazer uma coisa ou outra. É assim, ou a
gente compra coisas para dentro de casa ou compra ração”, explicou a aposentada
em entrevista ao G1.
Tutora de oito animais, entre
cachorros e gatos, com os quais ela divide a vida, Angélica sabe a importância
de cada um deles e entende o que muitas pessoas ainda são incapazes de
enxergar: animais são seres sencientes, capazes de sentir felicidade, medo,
angústia, dor física e psicológica, e também de amar e serem amados.
Não há, no entanto, qualquer
romantização na difícil história de Angélica. Isso porque embora seja louvável
o afeto e o respeito que ela nutre pelos animais, sua realidade é cercada da
tristeza de ter que abrir mão de suas próprias necessidades em prol dos cães e
gatos que são seus companheiros.
Por alguns anos, a tutora pôde
contar com a ajuda de um rapaz que doava ração para seus quatro gatos e quatro
cachorros. A pandemia de coronavírus, entretanto, o vitimou, tirando a vida não
só de uma pessoa que tinha uma família e amigos que dela sentirão falta, mas
também cortando definitivamente a ajuda financeira da qual Angélica tanto
precisava.
“Ele se ofereceu para ajudar e
começou a doar. Estava ajudando há mais ou menos três anos e depois eu não
consegui alguém que me ajudasse sempre como ele”, disse a aposentada, que também
já teve que ser submetida a outros tratamentos médicos para curar um câncer no
colo do útero causado pelo vírus HPV (papilomavírus humano) – a doença ainda
lhe obrigou a retirar o útero, as trompas, parte da vulva e lhe fez perder
dentes da boca.
“É o mesmo
que ter filhos em dobro. Eles são a minha companhia”
Apesar dos obstáculos que surgem
em seu caminho, a aposentada não cogita abrir mão de seus animais e reforça que
são eles que sempre estão ao seu lado nos momentos mais difíceis. “O meu
psicólogo falou para eu adotar animais, por falta de um, eu adotei vários”,
disse.
“Já teve gente que me falou para
levar na zoonoses que eles cuidam, mas não é assim, você cria os animais há 15
anos, nunca passou por isso e agora que está passando vai abandonar? É a mesma
coisa que você falar que vai dar o seu filho porque não tem leite para dar para
ele. Eu não abandono meus bichinhos de jeito nenhum, eu estou assim, com
problema de saúde e sabe o que acabo fazendo? Acabo guardando as receitas e
deixo de comprar os remédios para comprar a ração dos animais. Quando eu vou no
médico digo que tomei os remédios”, completou.
Foto: Arquivo Pessoal/Angélica Duclos Amado
De todos os animais que vivem com
a aposentada, apenas um chegou recentemente à família após Angélica fazer uma
viagem em 2018 para o interior de São Paulo, onde morou para ser submetida a um
tratamento de saúde. Na ocasião, levou consigo todos seus animais e voltou com
uma cadela a mais. “Eu fiquei um ano lá e levei os sete animais de van, só que
eu sou compulsiva com animal e voltei com oito. Aluguei a van e paguei R$ 800
para ir e R$ 1.200 para voltar”, disse.
Angélica relatou ainda que os
cachorros foram chegando aos poucos em sua vida. No passado, quando era
comerciante, ela costumava alimentar cães e gatos em situação de rua e acabou,
com o passar do tempo, adotando alguns deles. “Fui pegando um, pegando outro e
quando vi já estava com sete, agora com oito”, comentou.
O amor da aposentada pelos
animais é tamanho que certa vez Angélica contratou um advogado para mover uma
ação judicial em prol de uma gata que foi atropelada. Segundo ela, depois de
custear o tratamento veterinário do animal, a tutora da gata a quis de volta.
Para não ter que devolvê-la, Angélica recorreu à Justiça e ganhou a causa.
“Eu sempre peço para Deus não me
levar porque os meus animais não vão aguentar. Eu luto muito por causa deles. É
a mesma coisa que ter filhos em dobro. Eles são a minha companhia”, concluiu.
Nota da
Redação: a ANDA, enquanto
defensora dos direitos animais e humanos, aponta a necessidade do poder público
acolher pessoas em situação de vulnerabilidade para que tanto elas, quanto os
animais que elas tutelam, possam ter condições de viver uma vida digna, tendo
todas suas necessidades básicas atendidas.
Fonte: anda.jor.br


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