Mariana Dandara | Redação ANDA
O Hospital Veterinário do Trabalhador (HVT) está sendo acusado de maltratar e negligenciar animais em Maceió, no estado de Alagoas. As denúncias foram feitas por famílias que levaram animais ao local para receber atendimento médico. O HVT nega as acusações (confira a nota da empresa ao final da reportagem).
Um dos denunciantes é Ronald
Mickael, tutor do cachorro Lock, um husky siberiano de 7 meses que morreu após
ser internado na clínica com uma fratura em uma das patas. A internação teria
ocorrido no dia 17 de abril, depois do cão fraturar a tíbia em um acidente
doméstico. Após um veterinário de plantão examinar o animal, foi indicada uma
cirurgia, realizada no dia seguinte.
“Depois de 8 a 10 dias com a
primeira cirurgia realizada, o cão começou a ficar com um cheiro podre de
carne. O ambiente do hospital também estava sujo, mistura de xixi e fezes que
estavam há muito tempo por lá. O médico deixou ele [o cão] internado lá e foi
para casa da família, em Sergipe, e sem nenhum acompanhamento. No total paguei
R$ 2.888 pela cirurgia, efetuei o pagamento e os funcionários recomendaram não
levar o cachorro para casa porque ele poderia piorar, e que eu ia ser o
responsável pela morte dele”, relatou Mickael ao G1.
Dias depois, na terça-feira (27),
Lock piorou e foi operado novamente no sábado (1º), dia em que o veterinário
responsável pela clínica já havia retornado para Maceió.
“Quando fui lá no hospital ver o
Lock, eu senti um fedor de podre, vi uma cena deplorável, o cachorro estava
sempre úmido. Na hora que peguei ele no colo vi que ele tinha defecado sangue
nas minhas pernas. Foi nesse momento que achei um absurdo”, disse o tutor.
O quadro de saúde do cachorro,
entretanto, não parava de piorar. Foi então que o médico veterinário que operou
Locki afirmou que ele estava com uma bactéria no estômago denominada
parvovirose canina. O tutor denuncia que o animal era mantido em um ambiente
pequeno e quente, sem refrigeração, com fezes de outros animais doentes pelo
chão.
“Eles [os funcionários] estavam
supondo que o cachorro teve Pavorvirose, uma bactéria no estômago. Eles fizeram
exame na segunda-feira, mas até agora não tive acesso a essa documentação. Eu
não tenho confiança lá. O filho do dono também estava lá [no hospital] e disse
que a gente fosse procurar nossos direitos, debochando. Um absurdo”, contou
Mickael ao relatar o episódio que diz ter vivido depois de receber um
telefonema, na última terça-feira (4), por meio do qual o cirurgião da clínica
teria informado a morte do husky.
Indignado, o tutor publicou um
vídeo nas redes sociais. Nas imagens, Locki aparece morto em uma mesa de
cirurgia, dentro de um saco plástico. Em meio a muitas lágrimas, Mickael
acaricia o pelo do animal enquanto seu pai cobra explicações dos funcionários
da clínica.
Cadela
sacrificada após diagnóstico de cinomose
Outra cliente do hospital também
relatou ao G1 um possível caso de negligência. Resgatada da rua em 2017, Nina
precisou ser internada na clínica em abril deste ano após Ilda Lourenço, sua
tutora, notar um inchaço na barriga do animal. No estabelecimento, foi dito
para a família que a cadela precisaria ser operada por estar com um problema no
útero.
“Ela passou uns dias na clínica.
Eles [funcionários da clínica] não cuidavam direito da cachorra. Minha mãe
tinha que ir todo dia dar de comer pro animal, cuidar dela porque os
funcionários não faziam isso. Após uma semana eles deram alta, só que ela
continuou em casa muito mal e muito fraca, eles passaram remédios, mas passaram
mais dias e ela não estava melhorando”, contou Ilda.
Depois de
receber alta com a indicação de tomar suplementos, a cadela foi levada para
casa e piorou, tendo ficado fraca, desorientada e com tosse, segundo a tutora.
Levada novamente ao hospital, Nina foi operada mais uma vez, tendo sido
submetida a um procedimento que custou R$ 2 mil.
Preocupada com o bem-estar da cadela, a família
decidiu levá-la para outra clínica veterinária. Após novos exames, foi
constatado que Nina estava com cinomose e que não poderia ter sido operada por
estar com a imunidade baixa.
“A gente levou para outra clínica para saber a
verdadeira causa. A veterinária falou que ela não estava em condições nenhuma
de fazer cirurgia porque ela estava com imunidade baixa. A médica falou que ela
estava em um estágio avançado, com Cinomose, e o quadro dela era irreversível.
Para não deixar ela sem andar e correr, optamos por realizar a eutanásia”,
contou Ilda, emocionada.
Outras denúncias
Locki e Nina não foram os únicos animais que passaram
pela clínica com tutores insatisfeitos com o serviço prestado. Na publicação de
Mickael nas redes sociais, diversos internautas relataram casos vividos por
eles ou por pessoas próximas envolvendo maus-tratos e negligência a animais.
Outras denúncias foram recebidas pela advogada da
Comissão do Bem-estar Animal da Ordem dos Advogados do Brasil seccional Alagoas
(OAB-AL), Rosana Jambo. “Inúmeros casos já nos chegaram e nós informamos ser
necessário registrar a queixa na polícia e também iniciar o processo ético
disciplinar contra o médico (dono do hospital). Formalmente, quem tem os dados
são o Conselho Regional de Medicina Veterinária e a Polícia. Tenho vídeos e
relatos diversos de animais cirurgiados sem anestesia. Animais que vieram a
óbito sem tratamento, maltratados”, relatou ao G1.
Segundo a advogada, o responsável pela clínica pode
ser processado pelo crime de maus-tratos a cães e gatos, com pena de dois a
cinco anos de prisão, além de multa. Por ser veterinário, ele também poderá
responder por erro médico e negligência, além de receber um processo ético
disciplinar do CRMV-AL.
O caso será investigado pela Polícia Civil. De acordo
com o delegado Leonam Pinheiro, o proprietário do estabelecimento foi intimado.
“A gente vai abrir um procedimento investigativo, o boletim de ocorrência já
foi instaurado, os tutores do animal já foram ouvidos, como também outras
pessoas foram ouvidas. O dono do local já foi intimado. A gente vai apurar as
condutas do hospital”, disse o delegado.
Íntegra da nota do HVT
“Sobre o vídeo do animal que está
circulando nas redes sociais, informamos que o animal já estava com a patinha
quebrada, o animal era um paciente jovem, bebê e, portanto, inquieto. A placa
do osso estava fora do local e é normal. Não foi culpa do dono, nem do animal,
nem do hospital. Foi refeita essa cirurgia, após essa cirurgia o animal teve
esse quadro de saúde.
Estamos aguardando o alvará do nosso
advogado para nos posicionarmos sobre os casos. Temos câmeras de segurança
desde o internamento do animal, que comprova que o animal foi limpo, o cliente
vinha todo dia, teve o contato com o dono do hospital e, infelizmente,
aconteceu essa fatalidade.
O nosso objetivo como hospital é salvar
vidas e nosso local é um ambiente limpo. Ontem a gente só não conseguiu falar
com o filho e o pai dele porque estavam exaltados e agitados. Eles chamaram o
dono do hospital de assassino. Entendemos a dor do tutor do animal, mas o modo
como ele agiu com os funcionários do hospital não foi bom.
A gente propôs fazer exame necrópsia,
mas eles não quiseram. O cliente só teve um gasto único.
No HVT há 14 funcionários, 24 horas por
dia e sempre disponíveis. Temos a parte do canil e gatil, mais de 50 cães e em
média 20 gatinhos. Todos os animais têm ficha de protocolo. No local há um
médico plantonista, um para atendimento e outro para acompanhamento.”
Fonte


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