Mariana Dandara | Redação ANDA
Bois são brutalmente agredidos na farra do boi (Foto: Koldeway A. C. / Agencia RBS)
A juíza Rosana Navega Chaves, do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, combate há anos a farra do
boi, que é proibida pela Lei do Estado de Santa Catarina 17.902/2020 e pelo
artigo 32 da Lei Federal nº 9.605/1998, conforme acórdão do Supremo Tribunal
Federal (STF). Apesar da criminalização, esses eventos bárbaros, que condenam
bois a extremo sofrimento, continuam sendo realizados em Santa Catarina. Para a
juíza, é dever do poder público impedir que essa prática atroz seja perpetuada
no estado.
“Sou muito a fim com as questões
animais, há muitos anos tento combater a farra do boi, de longe, aqui do estado
do Rio de Janeiro. Recebo muitas denúncias. Tudo começou em 2008, com a
denúncia da Isabel Cristina, então presidente da SUIPA [Sociedade União
Internacional Protetora dos Animais], que me mandou um ofício relatando e
denunciando que haveria uma farra do boi naquele ano. Hoje, recebi uma denúncia
de pessoas que não quiseram se identificar de que haverão farras do boi na ilha
de Santa Catarina e eles, inclusive, relataram qual seriam os municípios:
Florianópolis, Itapema, Porto Belo, Tijucas, Governador Celso Ramos e Bombinhas”,
relatou a juíza.
A juíza Rosana Navega luta contra a farra do boi (Foto: Reprodução/Tribuna da Imprensa Livre)
Rosana Navega lembrou que a farra
do boi foi proibida por decisão do Supremo Tribunal Federal ao julgar o recurso
extraordinário nº 153.531-9. “Os açorianos trouxeram a prática da farra do boi
para o Brasil, que consiste na tortura do boi com punhaladas no pênis,
punhaladas na cabeça, cortes nos testículos, punhaladas nos olhos para que
fiquem cego. Eles idealizam o boi como algo abominável que deve ser cruelmente
torturado. Essa é a farra do boi”, explicou.
“O Supremo sabiamente disse que
isso não é cultura, é tortura. E eu acho que o Brasil inteiro concorda.
Torturar um boi, colocar uma faca, um punhal no corpo de um boi, tirar um
pedaço do pênis do boi, esfaquear o testículo do boi, isso é cruel”, criticou.
Ao comentar a mais recente
denúncia que recebeu, a magistrada contou que os denunciantes não quiseram se
identificar porque temem a associação criminosa que organiza a farra do boi em
Santa Catarina. Navega explicou ainda que a prática da farra do boi incorre em
diversos crimes.
“O primeiro é o crime contra a
saúde pública. Não é o momento de se aglomerar. Dali vai sair alguém
contaminado, que vai passar para alguém, que vai matar alguém. Não é momento de
aglomeração. Isso é uma aberração”, afirmou. A juíza explicou também que a
prática da farra do boi descumpre decisão judicial do STF, o que configura
crime.
Outro crime citado por Navega é o
de prevaricação – essa infração à lei é praticada por funcionário público
contra a Administração Pública e consiste em retardar, deixar de praticar ou
praticar indevidamente ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa
de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. A juíza explicou que
os governantes dos municípios onde ocorre a farra do boi e o governo do estado
de Santa Catarina prevaricam quando deixam que a farra aconteça. Segundo
Navega, prefeitos e governadores que cometerem prevaricação, se condenados,
entram na Lei da Ficha Limpa e se tornam inelegíveis por oito anos. Além disso,
os organizadores e praticantes da farra do boi também incorrem em crime de
maus-tratos a animais, previsto na Lei de Crimes Ambientais, com pena de até um
ano de detenção, além de multa.
A magistrada explicou que a farra
do boi ainda ocorre porque os governantes deixam de fiscalizar. “Eles têm como
fiscalizar. Inclusive, eu estou denunciando neste momento o que pode acontecer.
Se houver farra do boi em algum município que eu citei – ou outros – eles podem
ser denunciados”, reforçou.
“Santa Catarina não pode deixar
que a farra do boi aconteça. A farra do boi é crime. São vários crimes,
inclusive de associação criminosa, porque pelas denúncias, existem políticos
envolvidos, existem contraventores do jogo do bicho, todos aglomerados, todos
associados. Existe todo um aparato, uma logística para que essa atrocidade
aconteça. Essas pessoas são organizadas. É uma associação criminosa, é crime, a
pena vai até três anos”, acrescentou.
Para a juíza, a existência da
prática do boi em Santa Catarina é vergonhosa. “É uma vergonha que em nosso
país ainda aconteça uma ‘brincadeira’ de torturar, de tirar um pedaço do
testículo de um boi vivo, de colocar um punhal dentro dos olhos de um boi.
Tenho vergonha, peço perdão a Deus pela pessoa que esfaqueia um boi, que tira
um pedaço do pênis de um boi e sai rindo nessa ‘brincadeira’ que chamam de
cultura”, comentou a magistrada, que se comprometeu em denunciar Santa Catarina
ao Supremo Tribunal Federal se a farra do boi continuar a ser realizada no
estado.
“Eu não temo pela minha vida, eu
temo pela vida dos bois. Por quê não temo pela minha vida? Acho que nada vai me
acontecer, porque se alguma coisa acontecer contra mim, eu vou ser lembrada
como a juizá que combatia a farra do boi e a farra do boi vai ser lembrada
também. Então vai ser muito pior, se alguém quiser fazer um mal a mim, ela vai
dar publicidade às farras do boi que são uma atrocidade que acontecem na ilha
de Santa Catarina e que no envergonha como cidadãos, como brasileiros, como
pessoas”, concluiu.
Fonte: anda.jor.br


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