Pássaros raros cantam à sombra das antigas torres
da Alemanha Oriental. Renas selvagens percorrem a fronteira entre a Finlândia e
a Rússia. Linces se esgueiram por bunkers comunistas nas montanhas da Albânia e
norte da Macedônia. Em toda a Europa, espécies
ameaçadas estão encontrando uma casa improvável nas terras onde a antiga
Cortina de Ferro dividiu a região durante a Guerra Fria.
Durante décadas, a fronteira que cortou a Europa
foi um símbolo da hostilidade entre os blocos socialista e capitalista. Até a
queda do Muro de Berlim, há 30 anos, que dividia a Alemanha, entre o lado
Ocidental, da República Federal da Alemanha (RFA), e o Oriental, da República
Democrática Alemã (RDA).
Muitos perderam a vida tentando atravessar para o
Ocidente, mortos por atiradores ou minas terrestres, na zona proibida entre as
duas nações. Este corredor fortemente vigiado ficou conhecido como “faixa da
morte”.
Mas nesta região onde nenhum homem podia pisar,
plantas e animais prosperavam.
Hoje, grande parte da faixa de terra ao longo da
antiga Cortina de Ferro foi transformada em um “Cinturão Verde Europeu”. Essa
faixa de 12,5 mil km de extensão liga parques nacionais e santuários de vida
selvagem do Oceano Ártico ao Mar Adriático, com um braço se conectando ao Mar
Negro.
Como a mudança climática afeta os padrões de
migração de pássaros e outros animais, ela também se tornou uma rota de fuga
vital para espécies que fogem para o norte — as áreas mais frias. E tudo
começou com alguns intrépidos observadores de pássaros.
Torres de vigia
“Quando eu tinha 14 anos, comecei a registrar as
espécies de aves da região”, diz Kai Frobel, ecologista que cresceu no lado
ocidental da fronteira da Alemanha na década de 1970. “Percebi muito
rapidamente que a maioria das espécies raras, como o cartaxo-nortenho, o
noitibó-da-europa, e a estamenha-de-milho, estavam todos se reproduzindo na
‘faixa da morte’ da RDA, em todos os lugares”.
Frobel foi o primeiro a documentar publicamente
este surpreendente refúgio de vida selvagem, o que o levou à carreira de
conservacionista. Hoje, ele trabalha para uma organização ambiental alemã
(Bund) que começou a comprar e proteger terras ao longo do lado ocidental da
fronteira nos anos 1980.
Após a queda do Muro de Berlim em
1989, Frobel sugeriu transformar a faixa de fronteira interna da Alemanha em um
“cinturão verde” de 1,4 mil km de comprimento. A Alemanha se reunificou em
1990, tornando isso possível. No centro do plano de Frobel estava esta faixa de
terra, que antes pertencera oficialmente à RDA. Por estar no lado oriental das
cercas e muros da fronteira, ela mal havia sido tocada durante os 40 anos em
que leste e oeste ficaram divididos.
“As patrulhas de fronteira só chegavam lá de poucos
em poucos anos. Elas retiravam arbustos, limpavam um pouco a área, que não era
usada de jeito nenhum”, diz Melanie Kreutz, líder de projeto em Bund.
“Portanto, sem agricultura, sem pesticidas, sem fertilizantes. E esta área,
essa terra de ninguém, é realmente a espinha dorsal ecológica do cinturão verde
(alemão) hoje. ”
Mais de 80% da antiga fronteira interna da Alemanha
agora faz parte desse cinturão verde protegido. Seu legado histórico foi
preservado junto com plantas e animais. Os visitantes podem avistar orquídeas,
lontras e cegonhas, mas também explorar a história da Guerra Fria através de
museus, exposições e caminhadas guiadas, além de passeios de bicicleta.
Ao longo da antiga Cortina de Ferro, bolsões
semelhantes de área selvagem foram mantidos intocados durante o impasse
Leste-Oeste. No norte, as florestas da Noruega, Finlândia e Rússia abrigavam
alces e ursos e, no extremo sul, nas montanhas e lagos dos Bálcãs, linces e
pelicanos prosperavam.
Após o fim da Guerra Fria, os países ao longo da
fronteira gradualmente uniram forças para preservar esse corredor acidental e
compartilhado de vida selvagem.
O Cinturão Verde Europeu agora percorre 24 países,
cobrindo uma enorme variedade de habitats, incluindo costas, lagos, florestas e
montanhas. Embora ainda existam lacunas, o cinturão verde se tornou uma linha
de salvação para muitas espécies ameaçadas de extinção.
Trampolins para renas
“Esses corredores são complexos ecossistemas que
permitem que as espécies mantenham suas fortalezas, troquem genes e migrem”,
diz Aimo Saano, gerente de conservação da natureza da Metsähallitus, uma
agência governamental que administra as principais áreas da parte finlandesa do
Cinturão Verde da Europa.
“Como sabemos da Europa densamente
habitada, esse é o perigo óbvio: que os ecossistemas foram minimizados e
cortados em pequenos pedaços, separados um do outro.”
A ligação por meio de fronteiras pode ajudar a combater
essa tendência e apoiar espécies como as renas florestais, altamente ameaçadas
de extinção. Na década de 1990, uma das poucas populações remanescentes de
renas silvestres da floresta vivia na Carélia, uma região russa na fronteira
com a Finlândia.
Diferentemente da fronteira entre as Alemanhas, a
divisa entre a Rússia e a Finlândia não desapareceu. Mas os conservacionistas
russos e finlandeses transferiram algumas das renas da floresta selvagem russa
para um parque nacional finlandês, estabelecendo uma segunda população menor a
oeste do cinturão verde. As renas podem se mover para frente e para trás
através da fronteira, e a troca genética resultante é vital para a saúde futura
da espécie, diz Saano.
Algumas espécies, como pássaros, borboletas e
outros insetos, estão migrando para o norte ao longo do Cinturão Verde Europeu
para escapar dos efeitos do aquecimento global.
“Pelo menos aqui elas terão um corredor para se
mover”, diz Saano.
Paz e pelicanos
No extremo sul do Cinturão Verde Europeu, nos
Bálcãs, o fim da Guerra Fria foi seguido por uma série de guerras sangrentas.
Quando a ex-Iugoslávia se desfez, poucas pessoas viram a proteção da vida
selvagem como prioridade. Com a paz, no entanto, surgiu uma crescente
conscientização sobre os tesouros naturais da região e uma vontade de cruzar as
fronteiras para protegê-los.
“Nosso foco principal é obviamente a proteção do
meio ambiente, mas nos Bálcãs isso vai além”, diz Sandra Wigger, gerente de
projetos da EuroNatur, fundação ambiental que coordena organizações locais ao
longo da seção balcânica do cinturão verde.
“Trata-se também de intercâmbio transfronteiriço e
desenvolvimento regional. É sobre deixar as pessoas verem que podem agir
juntas. Porque elas passaram por aqueles anos de guerra que nem sequer faz
tanto tempo.”
As condições naturais nesta área
montanhosa e escassamente povoada, e sua história da Guerra Fria, resultaram em
habitats selvagens intocados. A Albânia, por exemplo, ficou particularmente
isolada durante o regime comunista. Suas fronteiras ainda estão pontilhadas de
bunkers. Na Bulgária, uma zona de proibição de até 25 km de largura em alguns
lugares delimitava a fronteira.
“Ainda existem grandes áreas de natureza intocada,
grandes áreas florestais que foram usadas apenas pelas poucas pessoas que vivem
nessas regiões montanhosas”, diz Wigger. “As cidades geralmente estão muito
distantes. Isso significa que realmente temos uma enorme biodiversidade aqui
que foi preservada.”
Pelicanos-dálmatas estão entre as espécies que
prosperaram nesta região selvagem. A maior colônia do mundo se reproduz nos
campos de junco dos lagos Prespa, entre Grécia, Albânia e Macedônia do Norte.
Outra espécie da fronteira é o lince-dos-balcãs,
ameaçado de extinção, que perambula entre diferentes áreas de caça dentro e ao
longo do cinturão verde, como o Parque Nacional Mavrovo, no norte da Macedônia.
Mas também nas montanhas da Albânia, Kosovo e Montenegro.
Para os conservacionistas que trabalham ao longo do
Cinturão Verde Europeu, a conexão com outros países também cria oportunidades
para trocar informações e aprender uns com os outros.
“Essa abordagem europeia dá uma dimensão tão
grande, onde você realmente vê, OK, existem pessoas, organizações, agências
governamentais em todo o continente que trabalham juntas além das fronteiras”,
diz Wigger. “Existe esse apoio, esse sentimento de fazer parte de uma
comunidade em que você percebe que não está sozinho”.
‘Um monumento vivo’
Nem todo mundo é a favor do cinturão verde, no
entanto. Na Alemanha, onde os conservacionistas gostariam de fechar as lacunas
no cinturão, associações de agricultores têm protestado contra sua expansão.
Eles temem a perda de terras agrícolas. O aumento
do preço da terra, a demanda por culturas de biocombustíveis e a construção de
estradas também estão pressionando o cinturão verde.
Para Frobel, que passou a infância perto de uma
fronteira que parecia ser impossível de cruzar na época, não se trata apenas de
proteger o meio ambiente, como também de preservar uma memória.
“É um monumento ecológico vivo para uma geração que
não testemunhou a fronteira”, diz ele. “Nossa expectativa básica era de que
essa monstruosa fronteira interior da Alemanha fosse construída para a
eternidade. Quase ninguém pensou que, um dia, não estaria mais lá.”
Como diz seu colega Kreutz: “Para as pessoas, era
uma zona de morte. Mas a natureza conseguiu realmente florescer livremente lá.”
Por Sophie Hardach




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