Foto: Meredith Lee/Humane World for Animals
A Suíça avançou na restrição ao comércio de peles de animais, mas a medida está longe de representar o fim da exploração que sustenta essa indústria. O país aprovou regras para impedir a importação e a comercialização de produtos obtidos por métodos considerados cruéis, uma iniciativa histórica que, no entanto, mantém aberta a possibilidade de vender peles provenientes de sistemas de produção classificados como aceitáveis pelas autoridades.
Em setembro de 2026, o Conselho dos Estados, uma das duas câmaras do Parlamento suíço, aprovou uma proposta legislativa que proíbe a importação e o comércio de peles produzidas com crueldade. A proposta também havia recebido o aval do Conselho Nacional. Ainda restam questões legislativas a resolver antes da conclusão do processo.
A regulamentação já existente estabelece restrições à entrada e à venda de produtos de origem considerada cruel, mas os prazos de transição foram ampliados em junho deste ano. A proibição da importação desses artigos deverá produzir efeitos a partir de julho de 2029, enquanto a restrição à venda está prevista para julho de 2030. O modelo também prevê um programa de certificação para identificar produções que atendam aos critérios definidos pelas autoridades suíças.
A Humane World for Animals celebrou a iniciativa como um marco internacional contra a crueldade animal. Para a organização, a decisão pode estimular outros países a adotar medidas semelhantes e enfraquecer o comércio internacional de peles.
O avanço legislativo, contudo, não elimina o problema central. A proposta não estabelece o fim de todos os produtos feitos com pele animal, mas diferencia métodos de produção conforme critérios de bem-estar. Essa distinção permite que a exploração continue quando determinada forma de criação ou obtenção da pele é considerada aceitável.
Nenhuma pele justifica a exploração
Visons, raposas e outros animais são mantidos em instalações destinadas à produção de peles, frequentemente em espaços restritos que impedem a expressão de comportamentos naturais. Na captura de animais silvestres, armadilhas também podem provocar ferimentos, estresse e sofrimento prolongado.
A finalidade desses sistemas é transformar os corpos dos animais em mercadorias. Mesmo quando as instalações recebem melhorias ou passam por certificações, os indivíduos continuam submetidos a uma atividade que os trata como recursos para a indústria da moda.
Sob uma perspectiva abolicionista, não existe método de criação, captura ou morte que torne moralmente aceitável explorar um animal para retirar sua pele. A ausência de determinados procedimentos considerados cruéis não transforma a exploração em respeito aos direitos animais. Tampouco o cumprimento de parâmetros técnicos elimina a privação de liberdade e a morte impostas a esses indivíduos para a fabricação de produtos dispensáveis.
Por isso, uma política efetiva de proteção não deve se limitar a estabelecer quais métodos podem ser utilizados. O objetivo precisa ser interromper a exploração em sua origem, com a proibição integral da produção e do comércio de peles de animais, independentemente da espécie ou do sistema empregado.
O fim da indústria exige proibição integral
A decisão suíça representa um avanço político ao restringir o mercado de produtos associados à crueldade, mas a possibilidade de certificar determinadas formas de produção impede que a medida seja confundida com o fim do comércio de peles.
A certificação pode estabelecer exigências e permitir maior fiscalização, mas não responde à questão ética fundamental. Animais não existem para fornecer matéria-prima à indústria da moda, e a possibilidade de produzir uma mercadoria sob condições consideradas menos prejudiciais não torna legítima a apropriação de seus corpos.
No Reino Unido, a campanha Fur Free Britain reúne apoio parlamentar para ampliar as restrições ao comércio de peles. Na União Europeia, organizações de proteção animal também pressionam por medidas mais abrangentes contra a criação de animais para essa finalidade.
O caminho para uma mudança efetiva exige que governos deixem de distinguir entre formas supostamente aceitáveis e inaceitáveis de exploração. Enquanto a pele animal continuar sendo tratada como um produto comercial legítimo, indivíduos continuarão sendo criados, confinados, capturados e mortos para abastecer esse mercado.
A proteção dos animais não pode depender de certificações que legitimem a continuidade da atividade. O avanço necessário é o fim da indústria de peles.
Fonte: anda.jor.br
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