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terça-feira, 2 de junho de 2026

Enterrado vivo e abandonado no lixo: cães resgatados superam traumas e ganham novos lares no interior de SP

 


Foto: Arquivo pessoal

Um recomeço cercado de amor, cuidados veterinários e acolhimento pode transformar a vida de animais vítimas de violência e abandono. Mas será que essa combinação é suficiente para ajudá-los a superar os traumas dos maus-tratos?

O g1 conversou com dois tutores de cães resgatados em situações de maus-tratos na região de Itapetininga (SP). Após um período de recuperação, adaptação e muitos cuidados, eles relatam como os pets vivem hoje e as mudanças conquistadas desde o resgate.

Patrizia Azevedo Dias, moradora de São Paulo, adotou o cão que foi enterrado vivo em setembro de 2021 às margens da Rodovia Antônio Romano Schincariol (SP-127), km 28, entre Tatuí (SP) e Boituva (SP). O animal da raça dachshund recebeu o nome de Menino Bento e uma “nova vida”.

“Relembrar a história do Bentinho é sempre alegre e triste ao mesmo tempo. Uma história triste que teve um final feliz. Um dia, uma funcionária estava vendo o jornal e passou uma reportagem sobre um cachorro que tinha sido enterrado vivo no interior de São Paulo.”

Na época, a União Protetora dos Animais (Uipa) de Itapetininga, organização responsável pelo resgate, compartilhou uma foto alertando sobre o caso: o animal estava coberto por terra e foi enterrado entre entulhos na SP-127.


Foto: União Protetora dos Animais (Uipa)/Divulgação

“Era um caso bem grave e a imagem da foto me chocou bastante. Aquele ser inocente, inofensivo, tentando sobreviver só com o focinho para o lado de fora, no buraco que ele cavou para poder respirar. Imagina o medo. Eu não gosto de pensar sobre e até me emociono”, relata Patrizia.

O sofrimento vivivo por Bento ficou no passado. Atualmente, ele vive rodeado de conforto e amor, tem a companhia de Pitoco, outro cão adotado por Patrizia. Segundo ela, os dois animais possuem uma relação de “amor e ódio”, pois são grudados, mas vivem se estranhando.

“O Bentinho é uma alegria na nossa vida. É super carinhoso. Por onde passa, ele vai até as pessoas e cumprimenta. É um cachorro realmente especial. Ele tem uma mancha nas costas e eu falo que é como uma ‘pincelada’ de Deus. Ele é o amor da minha vida.”

Assim que se interessou em adotar o animal na época, Patrizia foi orientada pela Uipa de que o cão precisaria de cuidados especiais, devido aos problemas de saúde causados pelo abandono. Ele passou por um longo processo de recuperação, que fez com que a tutora precisasse até ficar sem trabalhar.

“Eu passei um mês sem trabalhar para tomar conta dele. Tudo o que ele comia caía pelo buraco que ficou no pescoço dele. Ele estava muito machucado. Comecei a alimentá-lo com comida pastosa, banana amassada, água de coco, e assim fui indo. Depois, teve que fazer regime para emagrecer de tão gordinho que ficou”, relembra a tutora.


 Foto: Patrizia Azevedo Dias/Arquivo pessoal

Uma das memórias preferidas de Patrizia, daquelas que são criadas no dia a dia com o animalzinho, é o momento em que Bento deita junto dela na cama, amontoando a coberta e se escondendo dentro do buraco criado.

“Uma vez, eu procurei ele pela casa toda e fiquei desesperada. Ele tinha entrado entre a parte de cima e de baixo do sofá, e eu não achava ele pela casa e tinha ficado quietinho. Até que eu me sentei e senti ele. Dei até uma bronca”, compartilha.


Foto: Patrizia Azevedo Dias/Arquivo pessoal

Relembre o caso

Na época, a Uipa apontou que o animal tinha aproximadamente seis anos. Ele foi encontrado por um casal de Itapetininga que passava pelo local e viu a cabeça do cão para fora do buraco.

Os moradores disseram que o animal agonizava e, durante o resgate, perceberam os ferimentos no pescoço do cão. Ele foi desenterrado pelo casal e encaminhado ao Ambulatório Municipal, onde recebeu os primeiros socorros e passou por exames.

Segundo o boletim de ocorrência registrado, os moradores que encontraram o cachorro viram uma pessoa com uma enxada nas mãos e pararam para verificar a situação. Eles fizeram perguntas ao homem, mas ele colocou a enxada no porta-malas do carro e saiu do local. Logo depois, os moradores encontraram um monte de terra com uma pequena parte da cabeça do cachorro.

Três dias depois do registro do boletim de ocorrência, a polícia localizou os suspeitos. Ao g1, o delegado responsável pelo caso, José Luiz Silveira Teixeira, contou que a mulher disse que o marido dela enterrou o cachorro pensando que o animal já estivesse morto.

Segundo o relato da mulher à polícia, o animal ficou ferido em uma briga com um pit bull e, por isso, tinha um corte profundo no pescoço.

Aos policiais, ela ainda informou que, depois da briga com o pit bull, o casal levou o cachorro ao veterinário, mas, por conta do preço estabelecido para o tratamento, retornou para casa e decidiu enterrar o animal.

A organização também informou que o cão passou por uma bateria de exames, que constatou um quadro gravíssimo de desnutrição e que ele havia sido ferido com objetos cortantes.

Após o resgate, Bento passou por vários procedimentos em uma clínica de Botucatu (SP). Em um deles, foi usada parte da pele da pata para enxertar os ferimentos no pescoço, mas o cachorro contraiu uma bactéria e os enxertos não se adaptaram ao corpo do animal. Por isso, foi necessário fazer uma nova cirurgia.


Em 2022, o acusado de enterrar o animal vivo passou por audiência e, em 2024, a Justiça manteve a condenação dele e reduziu a pena, a ser paga em prestação devido à condição financeira do acusado.

Adotado há dois meses, o filhote de pinscher que foi abandonado doente dentro de uma lixeira em Boituva (SP) ganhou um lar. O caso ocorreu em 12 de março deste ano. Na mesma semana, a zootecnista e veterinária Cláudia Montalvão Cacau decidiu adotá-lo.

O pequeno pinscher recebeu o nome de Rodolfinho e, hoje, vive ao lado de outros seis animais na casa da tutora.

“Após os dois meses, a gente praticamente não sentiu a adaptação. Ele chegou, foi tão bem acolhido que todo aquele sofrimento ficou para trás. Acho que a gente tem o poder de fazer isso desaparecer da memória deles”, comenta a tutora.

Apesar de pequeno, Rodolfinho é um cachorro corajoso. A tutora conta que ele não tem medo de nada, brinca com todos os objetos da casa, escorrega com pano e pula em cima dos outros cachorros.

“A recuperação dele foi total, consegui resolver todos os problemas de saúde dele, está totalmente saudável. Desde o início, a relação dele com os outros animais foi a melhor possível. Eles têm esse sentimento de acolher todos, não teve nenhum problema na adaptação”, disse Claudia.

Para Cláudia, Rodolfinho representa sentimentos de paz, alegria e companheirismo.

“Eu falo que o Rodolfinho foi um exemplo para muitas pessoas da cidade. As pessoas adoram a história dele, é o animal mais lindo, perfeito e saudável que existe. Eu brinco que ele tem aquela história ‘do lixo para o luxo’, pode ter certeza”, concluiu.

O animal foi resgatado pelo ativista Iran Francisco Bispo, que registrou um boletim de ocorrência em 7 de maio. Segundo Iran, após ser retirado do lixo e levado ao veterinário, o cão passou a expelir vermes, pedaços de esponja de aço e até parafusos.

No boletim de ocorrência, Iran afirmou que a mulher suspeita de abandonar o animal comercializava cães da mesma raça sem autorização e em condições inadequadas. Ao g1, ele relembrou o momento em que encontrou o filhote, extremamente pequeno e debilitado, dentro da lixeira.

“Confesso que a minha reação ao vir aquele cachorrinho abandonado no lixo foi devastadora. Foi uma sensação muito difícil de explicar: misto de tristeza, revolta e indignação. Naquele momento, a única pergunta que vinha na minha cabeça era: como um ser humano consegue chegar a esse ponto?”, questiona.

Segundo o protetor, o Pinscher estava com a saúde debilitada, muito magro, chorando e precisando de atendimento veterinário com urgência.

Por Pâmela Beker e Larissa Pandori

Fonte: g1

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