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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

famílias de capivaras que viviam na Lagoa Rodrigo de Freitas (RJ) desapareceram após sinais de violência

 


Foto: João Pedro Stephen

O dia internacional da capivara foi celebrado na quinta-feira (14/09), sem a presença de duas conhecidas famílias que viviam à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Os animais deixaram de ser alvo apenas da curiosidade e dos cliques de moradores e turistas e passaram a sofrer com atos de violência. Até o início deste ano, dois roedores adultos batizados Armando e Margarida viviam junto aos seis filhotes. Em março, a fêmea foi encontrada morta às margens da Lagoa, no trecho em frente ao campo de beisebol, na altura do Corte do Cantagalo, com sinais aparentes de que teria sido apedrejada. O macho foi visto com ferimento nas costas quatro meses depois, após uma possível briga entre capivaras, aponta o biólogo Mario Moscatelli. Os filhotes nunca mais foram flagrados na região.

— A situação não é boa na região por conta do desaparecimento da família e o histórico recente de violência. Em dois anos e meio, perdemos os oito animais originais. A primeira família apareceu há quatro anos e teve os filhotes ali. No fim de 2022, um novo casal de capivaras jovens, batizado como Boris e Judite, apareceu na Lagoa e, no momento, só temos observado a presença do macho — diz o biólogo.


Foto: João Pedro Stephen

Moscatelli destaca que uma lagoa é, de forma primitiva, o ambiente natural de capivaras, mas a espécie se afastou da região pelo crescimento da urbanização. Com a recuperação da qualidade da água e dos manguezais, elas voltaram a ser vistas nas redondezas.

O especialista critica o comportamento de parte da população carioca que, por conta de uma cultura que ele classifica de “bastante atrasada”, acredita que a natureza tem como função apenas servir ao ser humano. Essa postura pode estar por trás do sumiço do animal na região.

— Sabemos que as capivaras vêm desaparecendo ou sendo mortas na região. Algumas versões apontam que elas estão sendo apedrejadas. Também se fala que existem grupos que se juntam para caçá-las, mas ainda não podemos bater o martelo sobre a causa disso tudo — diz Moscatelli.

O biólogo ressalta ainda que animais como a capivara e o jacaré são assassinados nas proximidades das lagoas da baixada de Jacarepaguá, na Zona Oeste, com o intuito da carne ser comercializada, o que, segundo ele, traz riscos para a saúde humana.

— A carne desse tipo de caça está contaminada, já que os animais vivem em águas repletas de cianobactérias tóxicas. Não há forma de preparo que elimine essas toxinas. Observamos um crime ambiental e um contra a saúde pública — explica Moscatelli.

Maior roedor do mundo

Com cerca de um metro de comprimento e peso de até 50 quilos, a capivara é o maior roedor do mundo. A espécie vive em bandos e não costuma ser dócil, como explica Daniel Balthazar, veterinário especialista em animais silvestres e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O macho é dominante e vive com um grupo de fêmeas organizadas “em um sistema de creche”, no qual elas não amamentam apenas os seus filhotes.

— A espécie é herbívora e agressiva quando se sente ameaçada. As capivaras não toleram muito a proximidade com o ser humano e dão um grito de alerta quando observam um ser estranho. Também é comum que elas briguem entre si, principalmente quando filhotes machos começam a crescer e a desafiar a hierarquia imposta, mas os embates não chegam ao ponto de provocar mortes — detalha Balthazar.

Daniel Balthazar acredita que a Lagoa Rodrigo de Freitas não oferece o suporte alimentar necessário para garantir a sobrevivência de um grupo grande de capivaras. Por conta disso, levanta a possibilidade de a falta de recursos ter impedido a produção de leite suficiente para Margarida manter os filhotes vivos, o que poderia explicar o sumiço dos filhotes.

— As capivaras costumam ser encontradas nas regiões de baixada mais preservadas, como Itaguaí, Seropédica, Paracambi, Santa Cruz, além de bairros da Zona Oeste, como a Barra da Tijuca, Jacarepaguá e Guaratiba — explica o professor.

A capivara se tornou um símbolo não oficial da UFRRJ, já que os lagos da universidade são moradia de 40 roedores. Segundo o veterinário, o animal tem um papel essencial para o equilíbrio ecológico.

— A capivara é um consumidor primário por se alimentar principalmente de capim e leguminosas, servindo, portanto, como uma presa. Observamos um crescimento exagerado da espécie pelo fato do seu principal predador, a onça-parda, estar em falta, o que provoca um descontrole na cadeia alimentar — aponta Baltazhar.

Fonte: O Globo

 

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