Juliana Machado | Redação ANDA
Pixabay
Ativistas em defesa pelos
direitos dos animais denunciam que empresas canadenses compraram, no ano
passado, 1.000 macacos para fins de experimentação científica de fornecedores
do Camboja, afirmando que o país não deveria apoiar o tráfico e tortura de
animais.
“Foram levantadas sérias
preocupações sobre o bem-estar e as condições de vida desses macacos no Camboja
e em países vizinhos, assim como sobre informações enganosas fornecidas por
vendedores de lá. E eu acho que o Canadá ser cúmplice disso é bastante
preocupante ”, disse Camille Labchuk, uma advogada animalista e diretora
executiva do grupo de defesa Animal Justice.
Liz White, chefe da Animal
Alliance of Canada, também está preocupada com a saúde das populações de
animais no Camboja.
“Esta é uma preocupação séria no
sentido de manter uma vida selvagem saudável para os macacos no Camboja”, disse
White. “Isso tem grandes implicações em termos de números da população e da
saúde da população e dos países de onde eles estão sendo enviados.”
Em 2020, o governo canadense
aprovou a exportação de 1.056 macacos da espécie Macaca fascicularis,
por conta de interesses privados do Camboja, para uso “científico e de
pesquisa” – foi a primeira importação desde pelo menos 2016, de acordo com
documentos obtidos pelos Correios canadenses por meio de uma requisição de
acesso à informação.
Documentos também mostram que
pelo menos uma parte desses macacos, senão todos, foram trazidos para Quebec em
nome dos laboratórios Charles River, uma grande importadora de primatas usados
para reprodução e testes científicos com sede nos Estados Unidos e várias
localidades em toda a província canadense.
De acordo com documentos da
Agência Canadense de Inspeção de Alimentos (CFIA, na sigla em inglês), o
governo aprovou a importação anual de cerca de 2.500 primatas dos EUA para fins
de teste de pesquisa nos últimos cinco anos.
Mas 2020 marcou o primeiro ano em
que um número adicional de primatas foi importado do Camboja, país que tem sido
alvo frequente de críticas por organizações de proteção animal por conta de
supostos maus-tratos aos animais.
Um exemplo: uma investigação de
2008 feita pela União Britânica para a Abolição da Vivissecção descobriu que
até 80 por cento dos macacos em cativeiro na selva cambojana morreram antes de
chegar a um laboratório devido a um trauma ou tratamento inadequado.
“Camboja, Laos e Vietnã são
bastante conhecidos pela criação de macacos e pela captura de macacos na
natureza, colocando-os em cativeiros para reprodução”, disse Labchuk.
Nem o governo canadense nem os
laboratórios Charles River responderam a diversos questionamentos sobre o tipo
de pesquisa em que os macacos seriam usados e quem os comprou.
“A importação de macacos ocorre
regularmente e não é um evento incomum”, disse um porta-voz da Agência
Canadense de Inspeção de Alimentos por e-mail. “Por motivos de privacidade e
confidencialidade, a Agência não está autorizada a compartilhar informações
pessoais ou confidenciais sobre importadores com terceiros.”
Um porta-voz dos laboratórios
Charles River, Sam Jorgensen, não respondeu a perguntas específicas, como a
finalidade da importação dos macacos do Camboja para o Canadá, nem o tipo de
pesquisa no qual seriam usados.
Jorgensen também não respondeu a
um pedido de comentário sobre episódios anteriores de maus-tratos a macacos nos
EUA, como um relatório de 2010 da rede de televisão estadunidense CBS que
mostrou que 30 macacos foram cozidos ainda vivos em seu laboratório de pesquisa
no estado de Nevada após serem colocados, por engano, em uma máquina de lavar
automática .
“Os laboratórios Charles River
estão profundamente comprometidos com o bem-estar animal e com a superação dos
padrões internacionais de pesquisa durante nossa administração”, disse
Jorgensen por e-mail.
Tanto White quanto Labchuk supõem
que o aumento repentino nas importações de macacos para o Canadá pode
significar que eles estão sendo usados para testar vacinas e tratamentos para a
COVID-19 no país.
“Esses animais podem ter sido
importados para serem usados no desenvolvimento da vacina para a Covid-19, ou
pode haver uma outra empresa que está fazendo testes de medicamentos e demanda
primatas para realizá-los”, explicou White, apontando para vários relatórios da
imprensa e documentos de indústrias farmacêuticas que mostra que as vacinas
foram testadas em macacos.
Labchuk concordou com a teoria de
White, mas ambos os ativistas também denunciaram a “total falta de
transparência” no Canadá quando se trata de pesquisa animal. “Minha maior
preocupação com a pesquisa com animais no Canadá, e especificamente com essa
situação, é que ela não é transparente e não é supervisionada por autoridades
públicas”, explicou Labchuk.
“O que as pessoas merecem é a
possibilidade de saber sobre os experimentos que estão sendo feitos e julgar
por si mesmas se são aceitáveis ou não. Mas com este sistema tão obscuro, a
maioria das pessoas comuns não tem ideia sobre os testes em animais que estão
acontecendo no Canadá”.
Fonte: anda.jor.br

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