Mariana Dandara | Redação ANDA
Foto: Leonardo Prado / Agência Câmara
O ministro Onyx Lorenzoni, da
Secretaria-Geral do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido),
propagou informações sem respaldo científico a respeito de animais de várias
espécies, incluindo cães e gatos, ao se posicionar contra o lockdown (isolamento
social rígido usado para impedir a circulação de pessoas em ruas e
estabelecimentos). Ao dizer que “o passarinho, o cão de rua, o gato, o rato, a
pulga, a formiga, o inseto” podem “transportar o vírus”, o ministro pode
reforçar na população a ideia de que animais podem transmitir o coronavírus,
contaminando as pessoas – o que, conforme comprovado por estudos, não ocorre.
“Eu considero todos muito tolos.
Muitos ainda insistem numa ferramenta chamada lockdown que já está provada por
várias experiências no mundo que é ineficiente. Alguém consegue impedir nas
áreas urbanas o passarinho, o cão de rua, o gato, o rato, a pulga, a formiga, o
inseto, eles se locomovam? Alguém consegue fazer o lockdown dos insetos? É
claro que não. E todos eles transportam o vírus, não são contaminados, mas
podem transportar o vírus. Podem, é uma possibilidade”, afirmou o ministro em
entrevista à Jovem Pan.
Os argumentos de Lorenzoni, não
apenas no que diz respeito aos animais, mas também ao controle da crise
sanitária, são pautados em falácias. O ministro afirma que “várias experiências
no mundo” mostraram que o lockdown é “ineficiente”. A verdade,
entretanto, é outra. Nova Zelândia, Coreia do Sul e Noruega são exemplos de
sucesso na luta contra a pandemia. O que essas nações têm em comum? Todas
adotaram isolamentos sociais rígidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS), a Nova Zelândia é considerada a “nação-modelo” entre os países que
melhor gerenciam a crise sanitária. Para chegar a esse nível, o país fechou as
fronteiras antes mesmo de ser registrado o primeiro caso de contaminação em seu
território, estabeleceu por um mês um rígido lockdown, realizou
testes em massa, isolou os infectados e criou um aplicativo para smartphones
para rastrear os doentes que contou com a adesão da população.
Em relação às declarações
falaciosas de Lorenzoni sobre os animais, há muito a ser explicado para que se
feche a brecha de desinformação aberta pelo ministro que pode expandir o
preconceito da população contra diversas espécies e aumentar o risco de cães e
gatos sofrerem ainda mais com abandonos.
Cachorros e gatos podem, de fato,
transportar o vírus sobre seu pelo. E, caso alguém os toque e leve a mão à
boca, ao nariz ou aos olhos, pode acabar se contaminando. A chance disso
acontecer, entretanto, é muito baixa. Isso porque, segundo o Centro de Controle
e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, tocar uma superfície contaminada, o
que inclui o pelo dos animais, e depois tocar o próprio rosto não é considerado
o principal meio de propagação do vírus, que contamina os humanos mais
facilmente e rapidamente através do contato interpessoal.
A probabilidade de um humano ter
contato com o pelo de um animal durante o período de sobrevivência do vírus sob
superfícies – já que, após horas ou, no máximo dois dias, a depender do tipo de
superfície e das condições climáticas, o coronavírus morre – e, depois, levar a
mão ao rosto e o vírus, de fato, entrar no organismo humano, contaminando-o, é
bastante pequena. Além de ser baixo o risco de contaminação por essa via, basta
lavar as mãos após tocar animais não higienizados, como os que vivem na rua, e
manter a higienização dos cães e gatos que dividem os lares com os tutores para
não haver risco algum.
Sendo assim, embora Lorenzoni
esteja certo ao dizer que cães e gatos podem “transportar” o vírus, propagar
essa informação de maneira leviana e superficial, sem complementá-la, pode
levar famílias a interpretar a afirmação do ministro de maneira equivocada. E
foi justamente os equívocos informativos e as notícias falsas que fizeram o
número de cachorros e gatos abandonados por todo o país aumentar
exponencialmente durante a pandemia de coronavírus.
Deixados à própria sorte na rua,
cachorros e gatos vivem vidas miseráveis e suportam sofrimento inimaginável.
Sob os cuidados de um tutor responsável, esses animais podem viver cerca de 15
anos. Nas ruas, é raro um animal que sobrevive por alguns anos – e os que
conseguem passam por inúmeras dificuldades. Fome, sede, doenças, chuva e sol
sem abrigo, agressões, atropelamentos, envenenamentos e até estupros fazem
parte da realidade dos cachorros e gatos que não possuem tutores amorosos para
protegê-los.
A Organização Mundial da Saúde
(OMS) estima que só no Brasil existam mais de 30 milhões de animais
abandonados, sendo cerca de 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães.
Estimativas apontam ainda que, nas grandes cidades, há um cachorro para cada 5
habitantes e 10% deles estão vivendo nas ruas. Para contornar essa triste
realidade, programas de castração, resgate e adoção de animais são essenciais,
mas não só. É preciso também educar e conscientizar a população e isso se faz
através de informações corretas e completas, bem formuladas e repassadas de
maneira ampla para a população. A desinformação, no entanto, é a fortalecedora
de preconceitos que em nada contribuem para a construção de uma sociedade mais
ética – pelo contrário, é a responsável por piorar a condição de humanos e não
humanos no Brasil e no mundo.
Animais não
transmitem coronavírus
Além dos cachorros e gatos, os insetos,
os ratos e as aves também foram citados por Onyx Lorenzoni em sua argumentação
contrária ao lockdown. O que o ministro não sabe, porém, é que não
há estudos que sequer comprovem que insetos podem transportar o vírus, como
ocorre com o pelo dos cães e gatos e com móveis e objetos como mesas, cadeiras,
controles remotos, entre muitos outros. De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz), “até o momento não foi documentada a transmissão do novo coronavírus
por moscas ou outros insetos”.
Foto: Pixabay
A respeito dos ratos e pássaros,
a situação é semelhante a dos cachorros e gatos. Caso sejam animais tutelados
por humanos, eles não devem ser tocados por pessoas que não tiverem higienizado
suas mãos e o contato com eles, e com todos os outros animais, deve ser evitado
por pessoas que testaram positivo para o coronavírus para impedir que a saliva
dessas pessoas seja depositada sobre os corpos desses animais ao falar,
espirrar e tossir.
Os animais também devem ser
mantidos em ambiente limpo – não só para não carregarem o vírus sobre seus
pelos ou penas, mas também para que tenham qualidade de vida, já que manter um
animal em local insalubre configura maus-tratos. Porém, é necessário reforçar
que o risco de um humano tocar em um pássaro ou um rato com o vírus sobre seus
corpos e, depois se contaminar ao levar a mão ao rosto, é irrisório, assim como
ocorre com cães e gatos.
A Friocruz lembrou ainda que
“embora não existam estudos aprofundados sobre o tema até o momento, o risco de
animais domésticos contraírem ou transmitirem o novo coronavírus é praticamente
inexistente”. A instituição citou ainda casos de cachorros e gatos
comprovadamente infectados pelo novo coronavírus e fez um alerta sobre o
baixíssimo número de contaminações. “Em todo o mundo há menos de 25 relatos de
cães e gatos que contraíram o Sars-CoV-2 e nenhum relato oficial de animais que
tenham transmitido para seus tutores”, reforçou.
Isso prova que, além de nenhum
animal ter a capacidade transmitir coronavírus a humanos, o risco de um cão ou
gato contrair o coronavírus é extremamente baixo, visto que enquanto mais de
125 milhões de pessoas já foram contaminadas pelo vírus em todo o mundo, há
menos de 25 relatos de cães e gatos que contraíram a doença no planeta.
Nota da
Redação: a ANDA repudia veementemente
a desinformação e o negacionismo e, por isso, não só defende que a pandemia de
coronavírus seja enfrentada com rigor para cessar o sofrimento dos animais
abandonados e dos humanos acometidos pela doença, como combate informações
inverídicas que prejudicam a sociedade ao nos manter ainda mais distantes da
construção de um mundo ético no qual a compaixão impere entre todas as espécies
humanas e não humanas. A ANDA gostaria que as autoridades em geral se
respaldassem em dados científicos e se conscientizassem para que pudessem ser
agentes transformadores da sociedade e que o ministro Onyx Lorenzoni e seus
aliados repensassem suas falas e atitudes irresponsáveis.
Fonte: anda.jor.br


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