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sexta-feira, 26 de março de 2021

FALÁCIA: Onyx Lorenzoni diz que cães e gatos ‘transportam’ coronavírus e amplia desinformação que gera abandonos de animais

 

Mariana Dandara | Redação ANDA


Foto: Leonardo Prado / Agência Câmara

O ministro Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), propagou informações sem respaldo científico a respeito de animais de várias espécies, incluindo cães e gatos, ao se posicionar contra o lockdown (isolamento social rígido usado para impedir a circulação de pessoas em ruas e estabelecimentos). Ao dizer que “o passarinho, o cão de rua, o gato, o rato, a pulga, a formiga, o inseto” podem “transportar o vírus”, o ministro pode reforçar na população a ideia de que animais podem transmitir o coronavírus, contaminando as pessoas – o que, conforme comprovado por estudos, não ocorre.

“Eu considero todos muito tolos. Muitos ainda insistem numa ferramenta chamada lockdown que já está provada por várias experiências no mundo que é ineficiente. Alguém consegue impedir nas áreas urbanas o passarinho, o cão de rua, o gato, o rato, a pulga, a formiga, o inseto, eles se locomovam? Alguém consegue fazer o lockdown dos insetos? É claro que não. E todos eles transportam o vírus, não são contaminados, mas podem transportar o vírus. Podem, é uma possibilidade”, afirmou o ministro em entrevista à Jovem Pan.

Os argumentos de Lorenzoni, não apenas no que diz respeito aos animais, mas também ao controle da crise sanitária, são pautados em falácias. O ministro afirma que “várias experiências no mundo” mostraram que o lockdown é “ineficiente”. A verdade, entretanto, é outra. Nova Zelândia, Coreia do Sul e Noruega são exemplos de sucesso na luta contra a pandemia. O que essas nações têm em comum? Todas adotaram isolamentos sociais rígidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Nova Zelândia é considerada a “nação-modelo” entre os países que melhor gerenciam a crise sanitária. Para chegar a esse nível, o país fechou as fronteiras antes mesmo de ser registrado o primeiro caso de contaminação em seu território, estabeleceu por um mês um rígido lockdown, realizou testes em massa, isolou os infectados e criou um aplicativo para smartphones para rastrear os doentes que contou com a adesão da população.

Em relação às declarações falaciosas de Lorenzoni sobre os animais, há muito a ser explicado para que se feche a brecha de desinformação aberta pelo ministro que pode expandir o preconceito da população contra diversas espécies e aumentar o risco de cães e gatos sofrerem ainda mais com abandonos.

Cachorros e gatos podem, de fato, transportar o vírus sobre seu pelo. E, caso alguém os toque e leve a mão à boca, ao nariz ou aos olhos, pode acabar se contaminando. A chance disso acontecer, entretanto, é muito baixa. Isso porque, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, tocar uma superfície contaminada, o que inclui o pelo dos animais, e depois tocar o próprio rosto não é considerado o principal meio de propagação do vírus, que contamina os humanos mais facilmente e rapidamente através do contato interpessoal.

A probabilidade de um humano ter contato com o pelo de um animal durante o período de sobrevivência do vírus sob superfícies – já que, após horas ou, no máximo dois dias, a depender do tipo de superfície e das condições climáticas, o coronavírus morre – e, depois, levar a mão ao rosto e o vírus, de fato, entrar no organismo humano, contaminando-o, é bastante pequena. Além de ser baixo o risco de contaminação por essa via, basta lavar as mãos após tocar animais não higienizados, como os que vivem na rua, e manter a higienização dos cães e gatos que dividem os lares com os tutores para não haver risco algum.

Sendo assim, embora Lorenzoni esteja certo ao dizer que cães e gatos podem “transportar” o vírus, propagar essa informação de maneira leviana e superficial, sem complementá-la, pode levar famílias a interpretar a afirmação do ministro de maneira equivocada. E foi justamente os equívocos informativos e as notícias falsas que fizeram o número de cachorros e gatos abandonados por todo o país aumentar exponencialmente durante a pandemia de coronavírus.

Deixados à própria sorte na rua, cachorros e gatos vivem vidas miseráveis e suportam sofrimento inimaginável. Sob os cuidados de um tutor responsável, esses animais podem viver cerca de 15 anos. Nas ruas, é raro um animal que sobrevive por alguns anos – e os que conseguem passam por inúmeras dificuldades. Fome, sede, doenças, chuva e sol sem abrigo, agressões, atropelamentos, envenenamentos e até estupros fazem parte da realidade dos cachorros e gatos que não possuem tutores amorosos para protegê-los.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que só no Brasil existam mais de 30 milhões de animais abandonados, sendo cerca de 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Estimativas apontam ainda que, nas grandes cidades, há um cachorro para cada 5 habitantes e 10% deles estão vivendo nas ruas. Para contornar essa triste realidade, programas de castração, resgate e adoção de animais são essenciais, mas não só. É preciso também educar e conscientizar a população e isso se faz através de informações corretas e completas, bem formuladas e repassadas de maneira ampla para a população. A desinformação, no entanto, é a fortalecedora de preconceitos que em nada contribuem para a construção de uma sociedade mais ética – pelo contrário, é a responsável por piorar a condição de humanos e não humanos no Brasil e no mundo.

Animais não transmitem coronavírus

Além dos cachorros e gatos, os insetos, os ratos e as aves também foram citados por Onyx Lorenzoni em sua argumentação contrária ao lockdown. O que o ministro não sabe, porém, é que não há estudos que sequer comprovem que insetos podem transportar o vírus, como ocorre com o pelo dos cães e gatos e com móveis e objetos como mesas, cadeiras, controles remotos, entre muitos outros. De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), “até o momento não foi documentada a transmissão do novo coronavírus por moscas ou outros insetos”.


Foto: Pixabay

A respeito dos ratos e pássaros, a situação é semelhante a dos cachorros e gatos. Caso sejam animais tutelados por humanos, eles não devem ser tocados por pessoas que não tiverem higienizado suas mãos e o contato com eles, e com todos os outros animais, deve ser evitado por pessoas que testaram positivo para o coronavírus para impedir que a saliva dessas pessoas seja depositada sobre os corpos desses animais ao falar, espirrar e tossir.

Os animais também devem ser mantidos em ambiente limpo – não só para não carregarem o vírus sobre seus pelos ou penas, mas também para que tenham qualidade de vida, já que manter um animal em local insalubre configura maus-tratos. Porém, é necessário reforçar que o risco de um humano tocar em um pássaro ou um rato com o vírus sobre seus corpos e, depois se contaminar ao levar a mão ao rosto, é irrisório, assim como ocorre com cães e gatos.

A Friocruz lembrou ainda que “embora não existam estudos aprofundados sobre o tema até o momento, o risco de animais domésticos contraírem ou transmitirem o novo coronavírus é praticamente inexistente”. A instituição citou ainda casos de cachorros e gatos comprovadamente infectados pelo novo coronavírus e fez um alerta sobre o baixíssimo número de contaminações. “Em todo o mundo há menos de 25 relatos de cães e gatos que contraíram o Sars-CoV-2 e nenhum relato oficial de animais que tenham transmitido para seus tutores”, reforçou.

Isso prova que, além de nenhum animal ter a capacidade transmitir coronavírus a humanos, o risco de um cão ou gato contrair o coronavírus é extremamente baixo, visto que enquanto mais de 125 milhões de pessoas já foram contaminadas pelo vírus em todo o mundo, há menos de 25 relatos de cães e gatos que contraíram a doença no planeta.

Nota da Redaçãoa ANDA repudia veementemente a desinformação e o negacionismo e, por isso, não só defende que a pandemia de coronavírus seja enfrentada com rigor para cessar o sofrimento dos animais abandonados e dos humanos acometidos pela doença, como combate informações inverídicas que prejudicam a sociedade ao nos manter ainda mais distantes da construção de um mundo ético no qual a compaixão impere entre todas as espécies humanas e não humanas. A ANDA gostaria que as autoridades em geral se respaldassem em dados científicos e se conscientizassem para que pudessem ser agentes transformadores da sociedade e que o ministro Onyx Lorenzoni e seus aliados repensassem suas falas e atitudes irresponsáveis.

Fonte: anda.jor.br

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