Anúncio de venda de armas em Luziânia, Goiás, em março de 2021. Foto: AP Photo/Eraldo Peres
A expansão do acesso às armas de fogo durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro favoreceu o avanço da caça de animais silvestres no Brasil. A conclusão é de um estudo publicado em 18 de julho na revista científica Biological Conservation, que identificou uma forte associação entre a flexibilização armamentista e o aumento da probabilidade dessa prática. Os resultados reforçam o alerta de pesquisadores de que políticas públicas voltadas à ampliação da circulação de armas podem produzir consequências profundas para os animais brasileiros, especialmente quando se somam ao desmatamento e à degradação dos ecossistemas.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da University College London, da Universidade do Estado de Mato Grosso do Sul e da RedeFauna. A equipe analisou 2.046 publicações feitas em grupos do Facebook dedicados à caça de animais silvestres brasileiros. Os pesquisadores reuniram registros publicados principalmente entre 2019 e 2020 por moradores de 790 municípios distribuídos pelos 27 estados e pelas cinco regiões do país.
Segundo Hani El Bizri, pesquisador da RedeFauna e um dos autores do estudo, o modelo foi construído a partir de variáveis respaldadas pela literatura científica e comparadas com estatísticas oficiais brasileiras capazes de explicar a distribuição da caça. O cruzamento dessas informações permitiu identificar fatores associados à ocorrência da atividade em escala nacional.
O levantamento contabilizou pelo menos 4.658 animais mortos pertencentes a 157 espécies nativas. Entre elas estavam 75 espécies de aves, 51 de mamíferos, 26 de répteis e cinco de anfíbios. Os pesquisadores destacam que esse número representa apenas os registros tornados públicos nas redes sociais e, portanto, está longe de retratar toda a dimensão da pressão exercida sobre a fauna silvestre.
Ao aplicar o modelo aos mais de 5.500 municípios brasileiros, a equipe verificou que a região Norte concentrou a maior proporção relativa de localidades com registros de caça. Rondônia, Amazonas e Pará apresentaram ocorrências em quase metade de seus municípios. Rio Grande do Sul e Pará reuniram o maior número absoluto de municípios com registros, enquanto o Distrito Federal apresentou taxa de 100%, por possuir apenas um município.
Para El Bizri, a ampla distribuição geográfica demonstra que a caça está longe de ser um fenômeno isolado. Segundo ele, o acesso às armas surgiu como um dos fatores mais fortemente associados à probabilidade de ocorrência da prática, indicando que políticas de flexibilização armamentista podem ampliar a pressão sobre a fauna nativa.
Outro resultado considerado preocupante foi a concentração de registros nos municípios do chamado Arco do Desmatamento da Amazônia, faixa que abrange áreas de Mato Grosso, Pará, Rondônia, Amazonas, Acre e Maranhão. A região combina expansão da fronteira agropecuária, intensa degradação ambiental, perda acelerada de habitats e ampla disponibilidade de armas de fogo, formando um cenário particularmente desfavorável para a sobrevivência de inúmeras espécies.
Os pesquisadores também identificaram relação entre a caça e municípios com maior Produto Interno Bruto per capita. A modalidade analisada foi associada a pessoas com maior poder aquisitivo. O estudo aponta ainda que municípios com maior alinhamento a políticas antiambientais apresentaram maior probabilidade de ocorrência da atividade, enquanto a posse de armas permaneceu entre os principais fatores explicativos.
Um dos autores da pesquisa, Juliano Bogoni, da Universidade do Estado de Mato Grosso, afirma que a caça figura entre os principais motores da defaunação, sobretudo de animais com mais de dez quilos. Segundo o pesquisador, o cenário político observado durante o período analisado pode ter contribuído para reduzir a percepção de risco entre caçadores, estimulando a atividade.
Proteger os animais não exige apenas fiscalização e responsabilização dos caçadores, mas também políticas públicas capazes de reduzir os fatores que favorecem a perseguição e a morte deles.
Fonte: anda.jor.br
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