Vanessa Negrini*
Foto: Assocon/Divulgação
As imagens de
brasileiros mendigando osso na fila de frigoríficos é o retrato de um Brasil
que volta ao mapa da fome, arrasado pelo regime bolsonarista e pela Covid-19.
Essas questões têm sido centrais nos debates dos encontros setoriais em 13
estados do recém-criado Setorial de Direitos Animais do PT. Não se trata de um
Setorial para tratar apenas de cães e gatos, embora também sejam importantes. É
um Setorial que luta pela vida das pessoas e de todos os animais, pois direitos
humanos e direitos animais estão conectados. Com mais de 600 mil mortos pelo
coronavírus no País, é preciso lembrar que essa doença é uma zoonose, fruto da
exploração predatória do ser humano contra o meio ambiente e as outras formas
de vida, fruto das nossas escolhas por um modelo de produção que viola os
direitos animais e favorece a propagação de doenças.
Relatório da ONU de
2013 já indicava que ao menos 70% das enfermidades que apareceram a partir da
década de 40 tiveram origem na exploração animal. A expansão agrícola e a
interatividade entre animais humanos e não humanos fizeram com que novas
doenças surgissem e se disseminassem rapidamente, como o HIV-1, doença da vaca
louca, síndrome respiratória aguda grave, gripe suína, gripe aviária. A
COVID-19 é mais um capítulo dessa trágica história, que nos mostra que quando
violamos os direitos animais, os humanos também acabam vitimados.
O biólogo
evolucionista Rob Wallace (que já foi consultor da ONU e do Centro de Controle
e Prevenção de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos) explica que em condições
normais, há um limite natural para a virulência de patógenos. Afinal, se você
for um patógeno, não vai querer matar seu hospedeiro antes de infectar o
próximo, ou isso destruiria sua própria cadeia de transmissão. Mas quando o
patógeno percebe que o próximo hospedeiro está chegando cedo demais, ele pode
se tornar virulento a vontade. É exatamente isso que a indústria capitalista da
produção animal proporciona. Desde a década de 70, a produção pecuária
intensiva se espalhou pelo planeta. São bilhões de aves, bois, porcos
amontoados, produzidos em monoculturas, compartilhando raça, idade e sistema
biológico, numa ecologia quase perfeita para a evolução de várias cepas
virulentas.
Para além do
sofrimento animal e riscos para a saúde humana, a pecuária industrial contribui
para uma redução de oferta global de água e alimentos, considerando a baixa
taxa de conversão alimentar. É preciso gastar muito alimento, o qual poderia
nutrir diretamente vários humanos, para produzir um pouco de carne. Para cada
quilo de proteína animal produzido, os animais consomem em média seis quilos de
proteína vegetal proveniente de grãos e forragem, além de 15 mil litros de
água. Mais de 40% dos grãos mundiais são dados para os animais na produção
industrial de carne. Num mundo em que antes da pandemia quase 690 milhões de
pessoas estavam subnutridas, de acordo com a FAO, a urgência de se discutir a
redução consciente (não aquela provocada pela miséria das pessoas) de consumo
de carne não é mais um projeto utópico de quem ama os animais. É questão de
sobrevivência para todos os humanos.
A presidenta do PT,
Gleisi Hoffmann, durante o seminário inaugural do Setorial de Direitos
Animais do PT, afirmou corretamente que “a nossa luta por uma sociedade
melhor, onde não haja explorados nem exploradores, que haja justiça entre a
humanidade, ela prescinde também de uma luta para que a gente no futuro
possa ter com certeza a libertação dos animais”. A questão animal será
destaque nas eleições de 2022. Cada vez mais, a sociedade se preocupa e
reivindica os direitos animais. Em 40% dos lares brasileiros há pelo menos um
cão, e em 19% tem pelo menos um gato. E 14% dos brasileiros são veganos ou
vegetarianos, um universo de 30 milhões de pessoas que decidiram mudar sua
alimentação e estilo de vida em respeito aos animais. De forma que é preciso
ouvir o que 30 milhões de pessoas estão falando: precisamos tratar os animais
de forma digna, precisamos priorizar um sistema de alimentação que preserve o
meio ambiente, os direitos animais e a saúde humana.
As soluções
passam pela valorização de pequenos agricultores, da agricultura familiar
e orgânica, livre de agrotóxicos, pela educação pelos direitos animais e
ambientais. Mas passam também pela possibilidade de o PT inovar, tornando o
Brasil um país líder internacional em agricultura celular, onde já é possível
produzir carne em laboratório, sem matar nenhum animal. Israel já inaugurou a
primeira fábrica do gênero, mas o PT pode fazer com que o Brasil lidere
este mercado, ao passo que reduz a emissão de metano, o uso da água e da terra,
previne novos surtos virais e liberta do sofrimento bilhões de animais.
*Coordenadora do
Setorial de Direitos Animais do PT. Mestre e doutora em Políticas de
Comunicação e Cultura (UnB); professora da disciplina Mobilização Pública e
Direitos Animais na Universidade de Brasília; coordenadora executiva do Núcleo
de Estudos sobre Direitos Animais e Interseccionalidades (NEDAI/Ceam/UnB);
primeira suplente de deputada federal (PT-DF).
Fonte: anda.jor.br
Programa Mundo Animal aos
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