Mariana Dandara | Redação ANDA
Bentley, um cachorro da raça rottweiler de um ano de idade, foi assassinado no mês passado na cidade de Guarujá, no litoral do estado de São Paulo. A morte por envenenamento é investigada pela Polícia Civil, que recebeu denúncia feita pela tutora do animal. A bacharel em direito Luíza Abduch sofre com a ausência do cão, que era tratado como membro da família, e relata que o crime aconteceu dias depois de um vizinho fazer ameaças contra o cachorro.
No dia 1º de março, um
professor de 55 anos que mora no mesmo condomínio residencial que Luíza foi ao
local de trabalho do namorado dela e, segundo a tutora do cão, reclamou dos
latidos do cachorro durante a noite. Ao receber a resposta de que quem latia
eram outros cães da vizinhança, o homem teria ficado irritado e afirmado que,
se fosse preciso, resolveria a situação por conta própria.
Bentley vivia em um terreno
nas proximidades do prédio onde Luíza mora. Além dele, a bacharel em direito
tutela Bruce, outro rottweiler adotado recentemente. Em um perfil no
Instagram criado para os cães, a tutora contou que os vizinhos do
terreno gostavam dos animais e não reclamavam de latidos. Segundo a tutora, no
dia em que seu namorado recebeu a ameaça em relação a Bentley, Luíza foi à casa
de todos os vizinhos da rua, perguntando se os cachorros causavam algum
incômodo. “Todos os vizinhos responderam que não”, escreveu.
Após o assassinato do
cachorro, Luíza encontrou imagens de câmeras de segurança da região que,
segundo ela, flagraram o vizinho que fez as ameaças indo em direção ao terreno
onde os cães viviam, carregando uma sacola na mão. Minutos depois, o homem foi
filmado retornando para sua casa.
Além de obter as imagens para anexar ao caso como
prova do crime, a bacharel em direito também reuniu 12 testemunhas e um laudo
técnico, elaborado após necropsia, que detectou uma grande quantidade de
chumbinho no organismo de Bentley – veneno com venda proibida – e confirmou a
morte do cachorro por envenenamento.
“Sabemos que a justiça
brasileira é falha no que diz respeito aos animais, mas temos fé que a Lei
Sansão irá prevalecer e o culpado pagará por esse ato covarde. Precisamos da
ajuda de todos vocês para fazermos barulho e pedirmos justiça por Bentley”,
escreveu a tutora do cão nas redes sociais.
A Lei Sansão, a qual Luíza se
referiu, foi sancionada no final de 2020 e aumentou a punição
para crimes cometidos contra cachorros e gatos. Com a nova
legislação, os casos de crueldade contra esses animais passaram a ser passíveis
de punição de até cinco anos de prisão, além de multa e da proibição de tutelar
animais.
“Um ser inocente de apenas um
aninho muito amado, bem cuidado e mimado agonizou por horas no chão por culpa
de uma maldade sem tamanho, e nós queremos justiça”, reforçou Luíza.
Além da
denúncia à polícia, a tutora recorreu às redes sociais para mobilizar
internautas, e funcionou. No final do mês de março, Luíza contou, em uma
publicação no Instagram, que a mobilização deu voz ao caso e chamou a atenção
do delegado Bruno Lima, protetor de animais e deputado estadual de São Paulo.
“O delegado Bruno Lima entrou em contato comigo e irá me ajudar! Vamos
continuar lutando por justiça pelo meu filho! Peço que não marquem mais ninguém
no meu post para que outros casos consigam chegar até ele também, mas peço que
continuem compartilhando, porque quanto mais voz tivermos, mais conseguiremos
justiça. Muito obrigada”, escreveu.
Amor
incondicional
Em
publicações nas redes sociais, Luíza deixou claro que sempre tratou Bruce e
Bentley como membros de sua família e que eles nunca foram explorados para
proteger imóveis – prática cruel que reduz animais à condição de objetos a
serviço das necessidades humanas e que frequentemente os condena à solidão e a
maus-tratos.
“Meus
cachorros não eram cães de guarda. Eles estavam lá temporariamente, o futuro
deles era comigo, o Ben era meu, o Bruce foi adotado já adulto depois. Não
cabiam dois rottweilers aqui. O Bruce, para não ficar sozinho, ficava com a
companhia do Ben. A pandemia atrasou nossos planos”, contou a tutora. Segundo
ela, por dificuldades financeiras ocasionadas pela pandemia de coronavírus, a
mudança para um imóvel que coubesse os cachorros foi adiada e, por isso, os
rottweilers permaneceram no terreno, mas tinham sempre a companhia e os
cuidados da tutora, que após passar algum tempo com eles, se despedia dizendo:
“estamos quase conseguindo, vocês vão sair daqui logo logo”. “Mas o tempo foi
cruel conosco, não deu tempo dos nossos planos se concretizarem”, lamentou
Luíza.
“Ele [Bentley] tinha uma cama personalizada com o nome
dele que me custou o olho da cara, coleira, comedouro, vacinas em dia,
vermifugado regularmente, banho de 15 em 15 dias, limpava a orelha 2 vezes por
semana e se vocês caçarem bem no meu Facebook, devem achar até vídeo dele
escovando os dentes! Sim, ele escovava os dentes uma vez por semana. Ele ficava
no lugar mais confortável do mundo, temporariamente, e era um cachorro muito feliz,
com 600 m² para correr e uma casinha enorme e confortável”, contou. Luíza
reforçou ainda que os cães não latiam e que o vizinho os confundiu com outros
cachorros da vizinhança. “Quem conhece rottweiler sabe que eles não passam a
noite latindo não”, disse a tutora.
Além de bem cuidados, os
cachorros eram unidos e se amavam muito. A tutora contou que não podia
separá-los, senão Bruce passava a noite chorando de saudade e que Bentley
procurava ao redor quando a ouvia perguntar “cadê o Bruce?”.
“Por que me tiraram um
serzinho que eu amava tanto?”
O luto e a saudade se tornaram
companheiros de Luíza, que desde o assassinato de Bentley faz publicações nas
redes sociais falando sobre o quão triste tem sido viver sem o cachorro. “Por
que comigo? Por que com ele? Por que eu estou tendo que sofrer assim? Por que
me tiraram um serzinho que eu amava tanto? Nunca tive vergonha de falar ou
demonstrar que você era a minha vida todinha! E fazia tudo por você, e sei que
você por mim. E eu nunca vou conseguir entender porque você viveu tão pouco e
porque a sua missão foi tão curta!”, escreveu a tutora.
“É cruel, dói demais meu coração saber que sua missão
foi realizada em um espaço tão pequeno de tempo. Dói demais não ter tido a
oportunidade de ter me despedido de você, de ter falado no seu ouvido que eu te
amei mais que o mundo”, completou.
Como Bruce foi adotado já
adulto e, antes de ser conquistado pela nova família, era um cachorro
anti-social, Luíza prefere pensar que talvez a missão de Bentley tenha sido
mudar a vida dela e salvar a vida de Bruce, que passou a ser um cachorro mais
feliz com a companhia do cão que, meses depois, foi assassinado, e que era seu
melhor amigo.
Preconceito contra
rottweilers
“Sentimento hostil, assumido
em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou
imposta pelo meio; intolerância”. Assim é definida a palavra “preconceito” pelo
dicionário e é essa palavra que resume comentários desrespeitosos recebidos por
Luiza Abduch desde que ela passou a usar as redes sociais para denunciar o
assassinato de Bentley.
“Recebi comentários maldosos
de que pit bull e rottweiler deveriam todos morrer”, escreveu a tutora dos cães
em uma publicação nas redes sociais. O relato expõe o risco que cachorros
dessas raças correm em uma sociedade repleta de pessoas que se deixam levar por
preconceitos alheios e os incorporam às suas vidas.
Inúmeros tutores de rottweilers podem atestar o quão
dóceis são esses cães. O mesmo podem fazer famílias que tutelam pit bulls.
Fotografias antigas que mostram pit bulls cuidando de crianças, e que deram a eles o
título de “babás”, também provam que pit bulls são cães como
quaisquer outros. Especialistas em comportamento animal e veterinários também
reforçam que cachorros de qualquer raça, e até mesmo os que não possuem raça
alguma, podem se tornar anti-sociais em decorrência de uma possível má criação.
O que não ocorre de maneira diferente com humanos que, assim como os cães,
muitas vezes reagem de maneira inadequada após passarem por situações
traumáticas.
Mas, embora existam
preconceituosos em meio à sociedade, há também pessoas que possuem corações tão
bons quanto o de Bentley, que, segundo Luíza, “era um amor de cachorro”, que
gostava de abraços de crianças e nunca fez “mal para ninguém”. E são esses bons
seres humanos, capazes de perceber que cães têm muito a nos ensinar sobre amor,
que apoiaram a família do rottweiler assassinado e fizeram Luíza concluir que
“ao mesmo tempo que tem gente ruim, têm pessoas maravilhosas também”. “Obrigada
aos de bem”, disse a tutora, que segue homenageando Bentley através da batalha
que bravamente enfrenta para fazer justiça pelo doce cão.
(Foto:
Reprodução/Instagram/@luizaabduch)
Fonte:
anda.jor.br






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