Foto: Reprodução /
Greenpeace
Que a indústria da
pecuária ocupa mais de 80% das áreas desmatadas da Amazônia, muita gente já
sabe. Mas um relatório que acaba de ser lançado pelo Greenpeace Internacional
aponta que o setor está relacionado também com produtores que promovem a
destruição do Pantanal, que sofreu com incêndios recorde em 2020.
Segundo a investigação, em apenas 15 propriedades
produtoras de carne do Pantanal foram registrados 73 mil hectares de áreas
queimadas no ano passado, em um período em que o uso do fogo estava proibido
nas esferas estadual e federal. Essas mesmas fazendas trazem na bagagem longos
históricos de irregularidades ambientais, como desmatamento e incêndios
ilegais, além de contratos com grandes frigoríficos e compradores mundiais.
Os casos expõem a falha dos grandes frigoríficos em
garantir que o gado vinculado à destruição ambiental e outras violações – seja
de forma direta ou indireta – seja excluído de sua base de fornecimento.
Carne e fogo
Em 2020, o Pantanal perdeu cerca de 30% de sua área
para o fogo, enquanto enfrentava uma seca histórica. Apesar de a atividade
pecuária já estar consolidada no bioma, muitas fazendas ainda utilizam do fogo
para a renovação de pastos, e em períodos de seca intensa o fogo pode sair
rapidamente do controle, avançando sobre áreas naturais ainda preservadas, o
que ocorreu no ano passado em escala nunca antes vista.
O Pantanal é um
hotspot de biodiversidade e possui a maior concentração de vida selvagem do continente.
Uma população expressiva de onças pintadas vive ali e o bioma também hospeda um
dos maiores santuários de araras-azuis. Essas e outras espécies estão
drasticamente ameaçadas pelo fogo.
O fogo e as mudanças climáticas alteram os
ecossistemas de maneira que a biodiversidade, muitas vezes, não consegue se
adaptar. Como isso nos afeta? Uma biodiversidade em equilíbrio mantém a
natureza saudável, questão fundamental para evitar a ocorrência de doenças e
pandemias. Além disso, a fumaça das queimadas chegaram no ano passado a
diversas cidades como Cuiabá, Manaus e Rio Branco, e podem aumentar ainda mais
o risco de doenças respiratórias, em um momento em que ainda enfrentamos a
crise do Covid-19.
Apesar de seu enorme valor ambiental e para a
biodiversidade, cerca de 90% do Pantanal brasileiro é reivindicado como terra
privada hoje em dia, incluindo áreas dentro de Terras Indígenas (28%) e
sobrepostos à Unidades de Conservação em terras públicas (58%), entre reservas
federais, estaduais e municipais. Cerca de 80% destas áreas correspondem a
fazendas de gado.
O Greenpeace Internacional identificou 15 fazendeiros
que são fornecedores atuais ou recentes (2018–2019) dos principais
processadores de carne do Brasil – JBS, Marfrig e Minerva – e que estão ligados
aos devastadores incêndios de 2020 no Pantanal, além de possuírem histórico de
irregularidades ambientais, como multas e embargos por desmatamento ilegal,
queimadas não autorizadas, além de problemas em seus registros de propriedade.
Os incêndios dentro dos limites destas propriedades
queimaram juntos mais de 73.000 hectares – o equivalente a mais de 94 mil
campos de futebol – no auge da crise das queimadas, entre 1º de julho e 27 de
outubro de 2020, desafiando as proibições ao uso do fogo em vigor desde julho
de 2020 pelos governos regionais e por decreto presidencial.
Essas 15 fazendas estavam ligadas direta ou
indiretamente em 2018–2019 a pelo menos 14 instalações de processamento de
carne de propriedade da JBS, Marfrig e Minerva, que comercializam carne
globalmente.
Entre 1º de janeiro de 2019 e 31 de outubro de
2020, estas 14 instalações exportaram no total mais de meio milhão de toneladas
de carne bovina e produtos derivados de carne, no valor de quase US$ 3 bilhões,
para mercados como Hong Kong (22%), China (21%), União Européia e Reino Unido
(8%) e EUA (1%).
Os casos expõem a incapacidade do setor de
controlar toda a sua cadeia de produção, inclusive aqueles que fornecem
indiretamente, permitindo a continuidade de um processo conhecido como “lavagem
de gado”, onde o gado de fazendas com irregularidades é vendido e revendido,
até que o rastro de crimes ambientais seja dissimulado.
Se a indústria da carne levasse a sério a missão de
retirar do mercado produtores que agem contra o meio ambiente, esses
fornecedores já estariam fora do mercado em 2020, ao invés de estarem queimando
o Pantanal.
Foto: Reprodução / Greenpeace
Sem pressa para acabar com a destruição
Desde 2006 o Greenpeace Internacional vem
denunciando os danos ambientais promovidos pela produção pecuária em escala
industrial na Amazônia. O ponto de partida dessa história de denúncias e
violações ambientais foi o relatório O Rastro da Pecuária na Amazônia (2008),
seguido de A Farra do Boi na Amazônia (2009), quando revelamos como a produção
de carne vinha se tornando um importante causador de desmatamento da maior
floresta tropical do mundo.
Depois desse escândalo, os três maiores
frigoríficos que atuam na Amazônia – JBS, Marfrig e Minerva – assinaram junto
ao Ministério Público Federal um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e
aderiram por meio de um compromisso público aos”Critérios Mínimos para
operações com gado e produtos bovinos em escala industrial no bioma Amazônia”.
Estas empresas se comprometeram a desenvolver sistemas de monitoramento para
excluir de suas listas de fornecedores as fazendas que continuavam desmatando,
que usavam mão de obra escrava ou que tivessem invadindo áreas protegidas.
Mas, na prática, as empresas que assinaram os
acordos continuam monitorando apenas seus fornecedores diretos – ou seja, as
fazendas de onde compram o gado diretamente – ignorando por completo o rastro
de destruição deixado pela indústria nas etapas iniciais da criação, que vai do
nascimento à venda de fazenda em fazenda, até a fazenda que fornece os animais
para o frigorífico.
Atualmente, nenhuma empresa produtora de carne ou
derivados que recebe animais da Amazônia, do Cerrado ou do Pantanal pode
garantir 100% que sua produção não esteja associada com a destruição das
florestas ou a corrosão de direitos.
E isso se mostrou especialmente verdade a partir de
sucessivos estudos, do Greenpeace Internacional e de outras organizações, como
a Global Witness e, mais recentemente, a Repórter Brasil, apontando para o
envolvimento da pecuária em violações socioambientais. Só em 2020, denunciamos
o envolvimento da indústria com a criação de gado em Terra Indígena, em áreas
protegidas e na realização de grandes queimadas coordenadas na floresta.
Infelizmente, o que vemos hoje são empresas e
grandes consumidores, como redes varejistas e de fast food, assumindo que não
fizeram o suficiente para mudar a situação e pedindo, diante do público e de
seus consumidores, mais tempo para continuar destruindo a floresta e nosso
futuro. Esse tempo não existe mais. Já estamos em contagem regressiva para um
caminho sem volta.
Fonte: Portal Amazônia
Nota do Olhar Animal: Além das vítimas
primárias (os bois, porcos e outros animais abatidos para consumo), a pecuária
afeta também os animais silvestres, seja pela degradação ambiental causada, por
exemplo, por dejetos, seja pelo criminoso desmatamento. É mais um dano causado
aos animais por quem financia tudo isso: o consumidor.


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