Bruna Araújo
| Redação ANDA
Proibida por lei e punida com multa de R$ 10 mil, a farra do boi ainda é uma lamentável realidade no estado de Santa Catarina. A prática, de origem açoriana, é realizada frequentemente durante a Quaresma e a Semana Santa, e é marcada pela violência extrema. A psicóloga, ativista e vereadora Priscila Fernandes (PODE) descreve os maus-tratos que os animais sofrem. “A farra do boi é um ato cruel cometido por um grupo de pessoas que se juntam pra ‘farrear’ o boi, ou seja, torturar, machucar, correr atrás do animal, atiçando-o pra que ele corra atrás dos farristas, que geralmente deixam o animal em um local ermo. Também há ocorrências em regiões urbanas, como aconteceu nesse último final de semana, na praia de Bombinhas (SC). O animal é acuado o tempo todo. Embora seja uma prática ilegal e proibida por lei, inclusive com decisão do STF, ainda é vergonhosamente praticada no litoral catarinense, manchando de sangue e de vergonha as pessoas que não compactuam com tamanha covardia e perversidade. Há, inclusive, lei aprovada recentemente em SC que multa os praticantes da farra”, salienta a ativista.
Priscila explica ainda que
a prática é difícil de ser combatida pelas autoridades. “A polícia faz o que
consegue fazer, pois quando há a denúncia de uma farra, eles buscam ir até o
local pra coibir, porém muitas vezes sem sucesso, porque os farristas se
comunicam muito rápido e se protegem. Geralmente escondem o animal no mato ou
em algum local desconhecido e quando a polícia vai embora, voltam a farrear.
Raramente algum farrista é pego em flagrante. O boi é capturado pela polícia é
encaminhado para a CIDASC (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de
Santa Catarina) para ser morto, mesmo o animal estando saudável. Aqui, em Santa
Catarina, os animais recebem um brinco com uma numeração para se saber sua
origem. Os farristas arrancam esses brincos, tornando o seu reconhecimento
impossível. E como somos o único estado livre de febre aftosa sem vacinação, o
boi que não está com a identificação recebe a sentença de morte. Eles são
mortos sumariamente”, explica a vereadora.
A ativista em defesa dos
direitos animais conta ainda a origem dos animais que são maltratados e
abusados durantes as farras. “Geralmente, os farristas juntam um valor pra
efetuar a compra desses bois, que chegam em caminhões fechados até a região. Há
também pessoas de poder aquisitivo ligadas à farra que compram esses animais
para dar aos farristas em troca de favores, inclusive temos relatos de
políticos envolvidos. Esses bois são de dentro do estado mesmo, de localidades
próximas, porém já sem o brinco que iria identificá-lo. E como disse
anteriormente, sem a identificação, não é possível reconhecer o guardião e,
automaticamente, os criminosos”, afirma. Ela esclarece ainda como denunciar o
crime. “Sempre que souberem que uma farra irá acontecer ou que esteja
acontecendo é muito importante ligar pra polícia comunicando o local através do
190. Ligar várias vezes. Se puderem fotografar os farristas também é de grande
importância para a identificação dos criminosos”, pontua.
Priscila acredita que a
educação, a conscientização e as ações voltadas para a sensibilização da
sociedade são fundamentais. “A população deve denunciar sempre como forma de
não permitir que tamanho ato de crueldade e criminalidade permaneça acontecendo
em nosso estado. Não podendo mais carregar essa marca de covardia perante os
animais. Além de denúncias, temos que trabalhar de forma preventiva com nossas
crianças nas escolas, mas também com as comunidades onde isso mais acontece,
pois as pessoas nasceram e cresceram achando isso normal. Temos que mostrar que
não há nada de normal em torturar um animal. Outro lugar que precisamos buscar
parceria pra ajudar a coibir tamanha monstruosidade é a Igreja, pois geralmente
esses atos ocorrem na semana na Quaresma, na qual há todo um ritual religioso.
Precisamos que isso seja falado pelos padres, pastores, para que as pessoas que
vão até lá para rezar e pedir a um Deus maior, também entendam que todo ser
vivo merece amor e respeito. Se ao menos não podem amar por acharem que os
animais nasceram para ‘nos servir’, que ao menos os respeitem dentro do
possível”, conclui a vereadora.
A advogada e consultora
jurídica da ANDA Letícia Filpi contesta a morte dos animais pela CIDASC, órgão
agropecuário do estado, e fala sobre a indiferença do poder público. “Santa
Catarina é um estado que é permissivo com a farra do boi, é um local onde a
prática é considerada crime de maus-tratos e infração administrativa passível
de multa, mas o estado continua fechando os olhos, fazendo uma fiscalização
totalmente inoperante. Além de tudo, os animais que sobrevivem aos maus-tratos
são condenados à morte. A CIDASC mata o animal por que fala que ele está sem
brinco, em Santa Catarina todo animal tem que ser brincado, ou seja, ele tem
que ter um brinco contendo todas as informações sobre esse animal, quem é o
guardião, o estado de saúde, se ele está são, se ele não está, o brinco atesta
a sanidade do boi e de onde ele veio. A primeira coisa que um criminoso faz
quando pega um boi para torturar na farra é tirar o brinco do animal, porque
ele sabe que está cometendo um crime e ele não quer ser identificado pela
polícia, mas a orelha do boi está furada, porque o furo é muito visível, mas a
CIDASC, mesmo sabendo disso, mesmo sabendo que esses bois estão sãos, porque
eles estavam de brinco, ela mata, porque é uma questão de comodismo. Ela tira a
vida da vítima que já sofreu maus-tratos. Santa Catarina tem uma atuação muito
inócua, muito infeliz no combate à farra do boi, que já deveria ter sido
completamente abolida daquele estado, porque tem duas leis amparando a ação da
polícia e mesmo assim ainda acontece. É um absurdo, é muito triste, é uma
tragédia ainda acontecer isso, mas acontece, infelizmente”, salienta a advogada.
Em desespero, um boi que
era perseguido por mais de 50 pessoas durante uma farra do boi entrou em uma
pousada e mergulhou em uma piscina para fugir das agressões na última sábado
(27). O episódio lamentável ocorreu na cidade de Bombinhas, em Santa Catarina.
Segundo a equipe da Polícia Militar que atendeu a ocorrência, o animal estava
exausto e desnorteado, chegando a colidir com carros durante a fuga. Apesar da
prática de farra do boi ser crime, nenhum dos participantes foi detido. A
polícia apenas usou munições especiais para dispersar a multidão. O animal foi
encaminhado para a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa
Catarina (CIDASC) e, apesar de aparentar estar saudável, foi condenado à morte
e sacrificado. Também no dia 27, uma ocorrência de farra do boi foi registrada
no bairro Rio Tavares, em Florianópolis. Os agressores fugiram com a chegada da
polícia. Apenas um homem foi preso. O animal entrou em uma região de mata e
ainda não foi encontrado.
Foto: divulgação
Fonte: anda.jor.br



Nenhum comentário:
Postar um comentário