Jorge de
Souza (Histórias do Mar)
Foto: Animal Welfare Foundation
Em meados
de dezembro do ano passado, pouco antes do Natal, dois navios carregados com
bois vivos partiram da Espanha com destino a Turquia, onde os animais seriam
desembarcados para morte e consumo.
Mas, até
hoje, quase dois meses e meio depois, mais de 2500 bois continuam confinados
nos porões daqueles dois navios, sob condições ainda não possíveis de precisar.
O
problema começou quando os dois velhos navios, o Elbeik, com 1776 bois, e o
Karim Allah, com 895 bezerros, foram impedidos de atracar tanto na Turquia
quanto nos países vizinhos (Líbia, Egito, Tunísia e Chipre), sob a alegação de
que os animais estariam contaminados com a chamada doença da “língua azul”, que
não afeta o homem mas pode disseminar entre os animais – o que o Ministério da
Agricultura da Espanha sempre negou, garantindo que os animais estavam 100%
sadios ao serem embarcados.
Desde
então, os dois navios têm vagado de porto em porto, tentando desembarcar os
animais sobreviventes – porque é certo que muitos deles já morreram -, mas o
acesso vem sendo sistematicamente negado.
Mortos de
fome e de sede
“Só
queremos que, ao menos, veterinários possam embarcar e examinar os animais que
estão confinados nos dois navios, e fazer a eutanásia dos que estão sofrendo e
que não terão mais condições de sobreviver”, diz a representante a ONG Animal
Welfare Foundation, a espanhola Maria Boada Saña.
“Estimo
que boa parte dos animais já esteja morta, de fome e de sede. E os que ainda
estão vivos estão vivendo um verdadeiro inferno nos porões daqueles navios”,
completa Sylvia Barquero, diretora da ONG Animal Equality, também da Espanha.
O que
fazer com eles?
Na última
segunda-feira, após quase um mês parado ao largo da Sardenha, mas sem poder
atracar na ilha, porque o governo italiano também proibiu isso, o comandante do
Karim Allah finalmente recebeu autorização do governo da Espanha para retornar
ao porto espanhol de Cartagena, de onde havia partido, quase 70 dias atrás.
Mas nem
lá pode desembarcar o que ainda resta da sua carga viva, porque, agora, os
espanhóis também temem que os animais mortos possam contaminar o porto, bem
como os demais bois que por ali passam para serem embarcados, o que levantou a
suspeita de que os animais estivessem, de fato, contaminados.
A posição
do governo espanhol é de que os animais devam ser sacrificados, para evitar
riscos.
Mas os
donos da carga se recusam a fazer isso e continuam buscando compradores para os
animais em outros países, tornando a pendenga cada vez mais difícil de ser
resolvida.
Tempos
atrás, o comandante do Karim Allah parou de pedir o embarque de ração para os
bois. Isso, mais a relutância em receber veterinários a bordo, foi interpretado
pelos defensores dos direitos dos animais como um sinal de que todos já teriam
morrido.
Mas,
segundo o Ministério da Agricultura da Espanha, “apenas 15 animais estavam
mortos no Karim Allah”, o que, no entanto, ainda não foi confirmado.
No outro
navio, pior ainda
Já a
preocupação com os animais que ainda estão confinados no outro navio, o Elbeik,
é maior ainda.
Após
tentar parar em portos da Turquia, Líbia, Egito e Tunísia, e ser impedido nos
quatro países, o Elbeik rumou para a ilha de Chipre, onde permanece até hoje,
também sem autorização para atracar.
De acordo
com o site de rastreamento de embarcações Marine Traffic, o Elbeik se encontra
parado a meia milha da costa cipriota desde o início do mês, supostamente
aguardando um carregamento de comida para os animais.
Mas
igualmente sem permitir o embarque de fiscais sanitários, o que acende o alerta
de que muitos animais, talvez, já estejam mortos.
O mais
provável é que, após conseguir um suprimento de ração para os bois
sobreviventes, o Elbeik também retorne à Espanha, de onde partiu quase dois
meses e meio atrás.
“Quando
um país impõe restrições a parada de um navio por conta da sua carga, todos os
demais países tendem a copiá-lo”, diz um especialista no assunto, que completa:
“E o pior é que há uma carência de árbitros internacionais para intermediar
casos assim”, lamenta.
Foto: Animal Welfare Foundation
“Precisamos
parar com isso”
O drama
dos bois confinados nos dois navios desde o ano passado trouxe novamente à tona
a delicada questão do transporte de animais vivos pelo mar.
Em
novembro de 2019, o navio Queen Hind tombou na costa da Romênia e das 14 0o0
ovelhas que transportava, apenas 32 animais foram resgatados com vida.
Mais
recentemente, em setembro do ano passado, outro navio dedicado ao transporte de
animais, o Gulf Livestock, foi pego por um tufão e afundou na costa do Japão,
quando transportava 5867 vacas, da Nova Zelândia para a China. Nenhum animal
sobreviveu.
“A
exportação de animais vivos em navios para consumo humano no destino precisa
ser imediatamente banida no mundo inteiro”, prega Sharon Núñez, presidente da
ONG Animal Equality.
“Precisamos
parar com o cruel sofrimento dos animais durante as longas travessias em navios
sem condições para isso”, diz ela, acrescentando que, muitas vezes, os animais
moribundos são jogados ao mar ainda vivos, para que não contaminem o restante
do grupo.
“Está
mais do que na hora de pararmos de aceitar esse tipo de situação. A Organização
Mundial da Saúde Animal precisa achar uma solução definitiva para a terrível
questão do transporte de animais vivos pelo mar”.
Um caso parecido
no Brasil
Incidentes
marítimos que transformam também os animais em vítimas são frequentes no mundo
inteiro. Inclusive no Brasil.
Um dos
casos mais recentes por aqui foi o do navio libanês adaptado para transportar
gado Haidar, que tombou quando estava sendo carregado com bois no porto de
Bacarena, no Pará, em outubro de 2015, matando todos os 4920 animais que
estavam a bordo – mas a maioria deles não no naufrágio e, sim, nos atos de
selvageria perpetrados pelos moradores da cidade, que passaram a caçar os
animais na água e matá-los em seguida a fim de vender a carne em mercados
clandestinos.
No caso
dos animais que estão, desde o ano passado, confinados nos dois navios que
partiram da Espanha e não conseguiram parar em lugar algum desde então, o destino
parece ser o mesmo: os açougues.
Mas, ao
menos, com menos sofrimento do que ficar confinado por meses a fio em fétidos
porões de velhos navios-estábulos.
Fonte: Histórias do Mar


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