A situação é crônica e muito
triste, mas é possível mudar esse cenário. Por isso a ANDA ouviu protetores
diretamente envolvidos nesses resgates e também procurou auxílio político em
busca de soluções para evitar os frequentes massacres de animais com máquinas
escavadeiras, normalmente usadas em reintegrações de posse e demolições.
Especialmente gatos morrem soterrados.
O deputado estadual Delegado
Bruno Lima (PSL-SP) já se comprometeu a estudar um modo de impedir mais essa
crueldade. Ele se sensibilizou com o episódio de reintegração de posse em
Carapicuíba ocorrido no último dia 12 e disse à ANDA, em primeira mão, que
pretende fazer algo a respeito: “São situações que sempre dão problema. Por
isso eu e minha equipe vamos estudar o que é possível fazer para evitar o
sofrimento e a morte desses animais em áreas marcadas para reintegração e
demolição”.
A mais
recente situação dramática ocorreu na chamada “Favela do Cigano”, em
Carapicuíba (grande SP), resultando na morte de vários animais e resgate tenso
de muitos outros que protetores locais sequer tinham como abrigar, pois, os
lares temporários estão lotados devido a ações parecidas de despejo na mesma região.
A foto
de uma gatinha, vítima de barraco incendiado por um dos moradores revoltado com
o despejo, e divulgada nas redes sociais, comoveu milhares de pessoas. Ela foi
levada pela Zoonoses de Carapicuíba e, segundo a prefeitura, está se
recuperando, mas as perguntas são: Precisava chegar a esse ponto? Não teria
sido melhor uma ação conjunta entre prefeitura e protetores locais para evitar
tanto sofrimento?
Essas
reintegrações, além de condenar à morte centenas de animais, especialmente
gatos, que se escondem em locais de difícil acesso visual dentro de casas,
edifícios e barracos, mergulha protetores num intenso desgaste físico,
emocional e financeiro.
Isso
sem falar que, do mesmo modo que um cidadão comum não pode maltratar nem matar
animais, muito menos os órgãos públicos e empresas privadas podem massacrar
animais com escavadeiras durante ações de despejo e demolições. O crime é o
mesmo!
Posição
de protetores
Situações
assim, segundo as protetoras de Carapicuíba ouvidas pela ANDA, podem ser
evitadas com pelo menos duas ações permanentes: a castração em massa de animais
de rua e de comunidades carentes (o que diminui drasticamente a população
animal nesses locais invadidos), além de uma operação conjunta entre
prefeituras e protetores para resgate dos animais, afinal, ninguém melhor que
os protetores para localizar animais escondidos dentro de locais sujeitos à
demolição.
“Gostaríamos que o serviço
de zoonoses tivesse a mesma preocupação com os bichos que temos com relação ao
manuseio, cuidados após resgate e encaminhamento para adoção. A gente se
preocupa com o estado clínico e emocional do animal, e também com o futuro
dele. Mas se não podem cuidar desses animais como nós tentamos fazer, uma
solução seria nos dar subsídios para manter esse trabalho de socorro a centenas
de animais a cada reintegração de posse”, diz Elizabeth Ferres.
“O trabalho não pode ser
feito apenas na hora que chegam as máquinas para passar por cima dos barracos.
A gente vem castrando, tratando e buscando lar para esses animais há semanas e
estamos sempre colocando a prefeitura a par de tudo. Nesse último episódio a
prefeitura nos garantiu que nenhuma reintegração aconteceria sem que todos os
animais fossem retirados, mas na hora foi justamente o contrário. Ainda havia
animais nos barracos e fomos impedidas de salvá-los. Não teria sido melhor se
ao invés de nos impedir, a prefeitura apoiasse nosso trabalho já que temos
experiência nesse tipo de resgate?”, comenta Cássia de Souza.
Foi criado um grupo no
Facebook para dar notícias sobre os animais da Favela do Cigano e uma “vakinha”
para quem puder ajudar com doações. No próximo sábado, dia 21, alguns desses
animais estarão numa feira de adoção em Moema.
Como
garantir a segurança dos animais
O
ativista Alexandre Valente, que já se envolveu em resgates de gatos em locais
sujeitos à demolição, como no episódio do
Tatuapé (zona leste de SP) em 2107 que teve grande repercussão nas
redes sociais e mídia, dá uma sugestão: “A prefeitura precisa dar um alvará de
funcionamento a qualquer estabelecimento construído e exige um laudo do Corpo
de Bombeiros. Porém, quando o caso é de demolição, a prefeitura se detém na
assinatura de um responsável técnico para garantir a segurança das pessoas e
dos imóveis vizinhos. Minha sugestão é que no alvará para demolição, seja
também exigida a presença de bombeiros para atestarem a total desocupação do
imóvel, seja por humanos ou animais”.
O
ativista sugere que a prefeitura só possa conceder o alvará de demolição
mediante esse atestado dos bombeiros e a inspeção do imóvel seja feita com o
auxílio de protetores que, num segundo momento, também participariam ativamente
dos resgates em parceria com as prefeituras – estas se responsabilizando,
inclusive, pelo atendimento e abrigo desses animais.
“Temos
que lembrar que além de cães e gatos, muitos imóveis abandonados abrigam também
ninhos da fauna silvestre e tanto estado quanto município precisam se
responsabilizar pelo bem-estar de todos esses animais. E por que penso em
bombeiros? Porque eles podem agir em todas as cidades e se já são fundamentais
na emissão do alvará de funcionamento, nada mais certo que serem também
convocados para alvarás de demolição”, conclui.
Um
filme e uma ideia interessante
A
sugestão de Alexandre Valente é em parte retratada
no filme “A caminho de casa”, exibido esse ano nos cinemas.
Protagonizado por uma cachorrinha que, aliás, foi tirada de um abrigo para o
estrelado e em seguida adotada, o filme, logo no início, mostra o drama de cães
e gatos, inclusive filhotes, que vivem nos escombros de um imóvel demolido.
A
prefeitura disse ainda, por meio de sua assessoria de imprensa, que entre os 17
animais estavam alguns entregues pelos próprios tutores com a alegação de que
não poderiam levá-los para suas novas moradias. Vale ressaltar que essa é outra
problemática: além dos animais que não têm tutores e precisam ser retirados do
local no dia da reintegração, muitos são deixados para trás pelos próprios
tutores.
A ANDA
solicitou da prefeitura fotos dos animais sob sua custódia e, em especial, da
gatinha queimada para tranquilizar as pessoas que se emocionaram com sua
história, mas não foi atendida até o fechamento desta matéria.
*Fátima
ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal
Fonte: anda.jor.br ( foto : divulgação )




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