Ao abordar os recentes dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que tem “a convicção que os dados são mentirosos”. A declaração do presidente configura mais um dos desmontes ambientais promovidos pelo governo. Ao negar estatísticas levantadas por um instituto conceituado e respeitado, Bolsonaro reforça em parte da população a ideia de que não há desmatamento e, com isso, abre espaço para que áreas continuem sendo desmatadas sem qualquer ação de combate.
Em junho, segundo dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia Legal brasileira chegou a 920,4 km² – o que representa 57% de aumento em relação ao mesmo período do ano anterior.
(luoman/Getty
Images)
O
presidente disse ainda, em entrevista à imprensa estrangeira na última
sexta-feira (19), que parece que quem está à frente do Inpe “está a serviço de
alguma ONG”, mais uma vez tentando deslegitimar uma questão que atinge seu
governo usando a desculpa infundada da ideologia, sem qualquer prova que a
fundamente.
O diretor
do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Magnus Osório Galvão,
rebateu as declarações de Bolsonaro. Segundo ele, as críticas feitas são
inaceitáveis e parecem mais “conversa de botequim”. Para Galvão, a atitude do
presidente foi “pusilânime e covarde”.
No
domingo (21), Bolsonaro voltou a criticar o Inpe ao afirmar que o desmatamento
tem que ser combatido, mas que não se deve “fazer campanha contra o Brasil”.
“A
questão ambiental aí fora é na verdade psicose ambiental. Você tem que combater
se tiver desmatamento, não é justo aqui dentro fazer campanha contra o Brasil.
No mínimo, se o dado for alarmante, ele [Ricardo Magnus Osório Galvão, diretor
do Inpe] deveria, em tom de responsabilidade, respeito e patriotismo procurar o
chefe imediato, no caso o ministro e dizer: olha ministro, temos uns dados
aqui, vamos divulgar, devemos divulgar, o senhor se prepare. Assim que deve ser
feito e não de forma rasa como ele faz, que coloca o Brasil em situação
complicada. […] Um dado desse aí, da maneira de divulgar, prejudica a gente”,
declarou Bolsonaro.
Apesar do
presidente afirmar que se deve combater o desmatamento, as declarações e ações
de seu governo dizem o contrário. Desde o período da campanha eleitoral,
Bolsonaro bate na tecla de que há uma indústria de multas no Ibama – o que
nunca aconteceu, já que as multas aplicadas pelo órgão são justas e tem como
objetivo combater, entre outros crimes, o desmatamento. Em abril, o presidente
assinou um decreto para converter multas em ações de compensação ambiental. De
acordo com o jornal O Globo, o documento prevê “a conversão de multas simples
em serviços de preservação do meio ambiente e descontos de até 60% no valor da
multa em audiências de conciliação”. Se o intuito de Bolsonaro fosse, de fato,
agir contra desmatadores, ele apoiaria as multas, não o contrário.
Ao se
referir ao diretor do Inpe, Bolsonaro afirmou que seus ministros falarão com
ele. “Ele tem mandato, eu não vou falar com ele. Quem vai falar com ele é
o Marcos Pontes e, talvez, o Ricardo Salles. O que nós não queremos é uma
propaganda negativa para o Brasil. Não queremos fugir da verdade. Aqueles dados
pareceram muito com os do ano passado e deram um salto. Então, eu fiquei
preocupado com aqueles números, obviamente, mas também fiquei achando que eles
poderiam não estar condizentes com a verdade, então, ele vai conversar com
esses dois ministros e toca o barco”, declarou Bolsonaro.
“Chamar de manipulação é uma ofensa inaceitável”
O diretor
do Inpe afirmou, em entrevista à TV Vanguarda, que chamar os dados do Inpe de
manipulação é uma “ofensa inaceitável” e que ele não deixará o cargo.
“O sr.
Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar
em público, principalmente em uma entrevista coletiva para a imprensa, como se
estivesse em uma conversa de botequim. Ele fez comentários impróprios e sem
nenhum embasamento e fez ataques inaceitáveis não somente a mim, mas a pessoas
que trabalham pela ciência desse País. Ele disse estar convicto de que os dados
do Inpe são mentirosos. Mais do que ofensivo a mim, isso foi muito ofensivo à
instituição”, disse.
Galvão
falou ainda sobre a importância do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e
sobre sua própria trajetória como cientista. “O Inpe permitiu ao Brasil ser o
terceiro país do mundo a receber imagens de satélite para monitoramento de
desmatamento, do Landsat. Começamos isso em meados da década de 1970. Íamos a
reuniões internacionais que só tinham Brasil, Canadá e Estados Unidos. O Inpe
tem credibilidade internacional inatacável”, afirmou. “Quanto a mim, fiquei
realmente aborrecido, porque acho que ele fez comigo o mesmo jogo que fez com
Joaquim Levy (que pediu demissão do BNDES após também ser criticado em público
por Bolsonaro). Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, talvez esperando que
eu peça demissão, mas não vou. Eu espero que ele me chame a Brasília para eu
explicar o dado e que ele tenha coragem de repetir, olhando frente a frente,
nos meus olhos. Eu sou um senhor de 71 anos, membro da Academia Brasileira de
Ciências, não vou aceitar uma ofensa dessas. Ele que tenha coragem de, frente a
frente, justificar o que está fazendo”, completou.
“Todos os
diretores dessas unidades de pesquisa não são escolhidos por indicação política
ou porque o pai deles quis dar um filé mignon pra eles. Eles são escolhidos por
um comitê de busca nomeado pelo governo, por cinco especialistas de renome
nacional, tanto na área científica quanto na área tecnológica”, reiterou Galvão
ao fazer uma referência à indicação de Eduardo Bolsonaro, feita pelo
presidente, para o cargo de embaixador do Brasil em Washington, nos Estados
Unidos. Ao ser acusado de praticar nepotismo, Bolsonaro negou e disse que
pretende, sim, beneficiar o filho e que se “puder dar um filé mignon ao meu filho,
eu dou”.
O
cientista abordou ainda a transparência dos dados divulgados à população
brasileira. “O presidente não entende que não somos nós que fornecemos os
nossos dados para a imprensa. Os nossos alertas de desmatamento são fornecidos
ao Ibama. Isso começou ainda na gestão da ministra Marina Silva (2003-2008) por
demanda do Ministério do Meio Ambiente. Os dados são acessados pelo Ibama na
nossa página na internet. Estão abertos para todo mundo poder verificar. São
publicados em revistas científicas internacionais. Então chamar de manipulação
é uma ofensa inaceitável”, reforçou.
Ao ser
questionado sobre o posicionamento de Ricardo Salles, que colocou em dúvida a
veracidade dos dados do Inpe antes mesmo de Jair Bolsonaro, Galvão disse que
entendia que o ministro fazia essas críticas por falta de conhecimento, mas que
não sabe quais as intenções dele. “O ministro Ricardo Salles vem atacando,
desde o começo do ano, os dados do Inpe. Realmente não sei com que intenções.
Algumas pessoas dizem que ele tem intenção de transferir esse trabalho feito
pelo Inpe para empresas privadas. Não sei se é verdade, porque ele
aparentemente desmentiu”, explicou.
Galvão
citou também o ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, que, segundo o
cientista, “sempre manifestou que as questões do desmatamento e das mudanças
climáticas são questões científicas e não políticas” e “sempre demonstrou
grande respeito pelo Inpe”. O diretor do Instituto disse que, antes de
Bolsonaro se pronunciar sobre o tema, havia enviado um ofício a Pontes por meio
do qual propôs a abertura de um canal de comunicação para explicar os dados do
Inpe e criar ferramentas para que o governo pudesse usar essas informações de
forma mais clara e transparente. “Mandei para o ministro Marcos Pontes, mas
acho que ele estava viajando”, disse.
SBPC se manifesta em apoio ao Inpe
Após o
presidente criticar o Inpe, o Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência (SBPC) se manifestou, no domingo (21), publicando um manifesto em
apoio ao Instituto.
De acordo
com o SBPC, as críticas feitas pelo presidente são “ofensivas, inaceitáveis
e lesivas ao conhecimento científico.” O Conselho afirmou ainda que “em
ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos
científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de
qualquer outra natureza”.
Confira
abaixo a nota na íntegra:
O
Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, em reunião
realizada no dia 20/07/2019, deliberou por unanimidade manifestar seu apoio
integral ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, dirigido pelo Dr.
Ricardo Galvão, face às críticas do trabalho do INPE de monitoramento do
desmatamento da Amazônia brasileira, apresentadas em entrevista à imprensa
internacional pelo Presidente da República, Sr. Jair Messias Bolsonaro.
Conforme
carta das principais entidades nacionais representativas da ciência brasileira,
enviada ao Presidente Bolsonaro no dia 10/07/2019 (OF.
ABC-97/2019), a ciência produzida pelo INPE está entre as melhores
do mundo em suas áreas de atuação, graças a uma equipe de cientistas e técnicos
de excelente qualificação, e presta inestimáveis serviços ao País. O Diretor do
INPE, Dr. Ricardo Galvão, é um cientista reconhecido internacionalmente, que há
décadas contribui para a ciência, tecnologia e inovação do Brasil. Críticas sem
fundamento a uma instituição científica, que atua há cerca de 60 anos e com
amplo reconhecimento no País e no exterior, são ofensivas, inaceitáveis e
lesivas ao conhecimento científico.
Em
ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos
científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de
qualquer outra natureza. Desmerecer instituições científicas da qualificação do
INPE gera uma imagem negativa do País e da ciência que é aqui realizada.
Reafirmamos nossa confiança na qualidade do monitoramento do desmatamento da
Amazônia realizado pelo INPE, conforme a carta anteriormente enviada ao
Presidente da República, e manifestamos nossa preocupação com as ações recentes
que colocam em risco um patrimônio científico estratégico para o
desenvolvimento do Brasil e para a soberania nacional.
Fonte: anda.jor.br

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