quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Em festa mexicana touros velhos são espancados até a morte
Em Tlacotalpan, no Estado de Veracruz, no México, os criadores de gado doam seus touros mais velhos para a crueldade popular. O município de cerca de 8.000 habitantes realiza uma festa religiosa em que jogam os animais no rio para espancá-los na margem.
Não nasceram para atacar. Sequer para correr. E muito menos atrás de centenas de pessoas bêbadas que riem enquanto jogam paus e latas de cerveja em seu lombo. Os touros de Tlacotalpan nasceram para viver tranquilos. Seis touros zebus, um tipo de rês doméstica e mansa, são sacrificados anualmente para a brutalidade popular. Porque não valem nada. Seus guardiões, os criadores de gado do pequeno município de 8.000 habitantes, doam os mais cansados e velhos para as festas religiosas da Virgem da Candelária, no início de fevereiro.
A tradição pinta de violência um dos eventos com maior participação no Estado de Veracruz. Para engrandecer o espetáculo, os touros devem atravessar um rio antes de ser submetidos a um espancamento. Desde 2014, o município teve de decretar um regulamento por pressões de organizações de defesa dos animais e da Secretaria de Meio Ambiente para que os maus-tratos não fossem tão descarados. A única mudança desde então é que as reses chegam ao povoado, que é seu inferno, em balsas. Até o prefeito, Homero Gamboa, reconheceu que nada mudou: “Apesar das campanhas de conscientização sobre o cuidado com o touro, muitos espectadores desrespeitam as normas e tentam bater nos animais”.
Vão cruzando de um em um. Quando chegam ao povoado, devem sair da água, arrastados por uma corda por centenas de espectadores, e correr atrás delas. Apesar de não conseguirem nem quererem, porque são originalmente mansos e tranquilos, ou porque acabaram de atravessar o Papaloapan, a segunda bacia hidrográfica mais importante do país. Geralmente chegam cansados e mal se movem. É aí que começam os golpes mais fortes das pessoas ansiosas para que sua festa não vá por água abaixo graças a um chifrudo de 800 quilos.
“Acredito que os desta vez eram os mesmos do ano passado”, conta uma vizinha à repórter Ana Alicia Osorio. O povoado viu cair a presença nas famosas festas e é provável que os criadores de gado tenham diminuído também a qualidade dos touros doados. Mesmo assim, a população do município se multiplicou por oito em apenas dois dias. Foram cerca de 60.000 pessoas, segundo os números da Prefeitura.
As associações de defesa dos animais consideram que o novo regulamento é suave demais: “Deve-se proibir e erradicar de nossa sociedade, especialmente festividades religiosas que deveriam ter como objetivo inculcar valores positivos nas pessoas”, afirmam em um comunicado conjunto as associações AnimaNaturalis México, PATAS e Proyecto ARPA.
Quando o cansaço já é mais do que evidente, arrastam o animal até um curral e a luta passa para o seguinte. “Um senhor bastante embriagado subiu no animal e tentou montá-lo. Evidentemente, e devido a seu estado, quando o touro avançou um pouco, ele caiu no chão”, conta Osório sobre as festas realizadas nesta segunda-feira. À sua volta havia oficiais da polícia, segundo conta a repórter, mas ninguém impediu que golpeassem e maltratassem o animal na frente de todos. Alguns se gabam de terem dado pequenas descargas elétricas no touro, conta Osorio. Qualquer coisa para que se mova e descarregue assim a adrenalina dos tlacotalpeños.
Para a maioria não restava muito tempo de vida. Alguns chegam à margem sangrando pelo nariz. Em outros anos, alguns se afogaram no caminho. Tlacotalpan é o destino fatal que espera os touros velhos que ninguém quer. O prólogo violento de uma morte próxima.
Fonte: El País
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