sábado, 7 de setembro de 2013
Um cachorro chamado veludo
Não se sabe de onde viera o cachorro...
Apareceu na cidade na manhã após uma noite fria e chuvosa, parecia ter vindo de muito longe, estava magro e famélico. Era um cachorro de guarda de porte médio, sabia-se ser um vira-lata, predominando a raça belga, todo preto com uma mancha branca no peito lembrava um coração.
A chuva tinha passado, a rua ainda molhada dificultava as pessoas saírem de casa naquela Quarta Feira de manhã fria. O cão fica atento, uma casa comercial começa abrir as portas, muito lentamente aproxima-se, fica olhando alguém tomar uma xícara de café comendo um pedaço de pão.
Seu Mariano, dono da padaria, olha para o cão vai para o interior da mesma e ao voltar trás num vaso pedaços de pão umedecidos no leite. Coloca perto do animal que passa a comer avidamente com receio de pegarem sua saborosa comida; dizem os entendidos que a fome é quem dá o sabor da comida, um dia vou passar fome a fim de tirar a prova. Ao terminar de comer outro vaso com água estava esperando-o para matar a sede. Depois de saciado vai para o interior da padaria procura um lugar mais aquecido deita, aquele espaço será definitivamente seu dormitório.
Os clientes ao saberem do acontecido fizeram uma assembléia para dar um nome ao cachorro, a comissão encarregada de selecionar três nomes apresentou: Rex, Veludo e Negão. Após uma acirrada discussão foi escolhido por maioria o nome de Veludo. Como o dia imediato era um Domingo a festa rolou até altas horas. Tudo naquela cidade era motivo para comemorações, os comes e bebes surgirão como por encanto.
O aparecimento de Veludo foi logo esquecido pelos moradores da pequena cidade. Não pelo seu Mariano que passa observar as qualidades dele. Aos poucos o cão volta ao peso normal, torna-se um belo animal. Nasce uma amizade muito forte entre os dois, os olhos de Veludo acompanham todos os movimentos do amigo dentro do balcão e fica espreitando quem entra e sai do estabelecimento é um fiel guarda-costas.
Todas as tardinhas seu Mariano aproveitando uma brisa que descia da serra, numa cadeira de balanço sombreado por um pé de fícus, em frente ao seu comércio, Veludo com aquela fidelidade canina deitava ao lado do amigo, não deixava ninguém que não fizesse parte do circulo de sua amizade podia se aproximar de onde seu protetor estava tirando aquela reparadora madorna de quem acorda bem cedo.
Numa dessas tardes chuvosas Veludo aparece na porta da loja a tiracolo com uma cadela em avançado estado de prenhez. Ambos estavam molhados tiritando de frio, parecia terem feito uma grande caminhada. Desde aquela manhã o cachorro desaparecera como de outras vezes. Só que dessa vez viera muito bem acompanhado com uma fêmea também pretinha, faziam um belo par.
Seu Mariano olha para o amigo com aquele sorriso de cumplicidade e mostra um quartinho que mandara fazer para Veludo. O cão balança a cauda mostrando alegria , vai acomodar sua companheira e volta logo após para reclamar as duas tigelas de ração.
Na manhã do dia seguinte, seu Mariano nota uma movimentação fora do comum e verifica que Veludo era pai de alguns filhotes...
A descendência de Veludo ia crescendo, em muitas casas e fazendas era natural se ter pelo menos uma cria do já então bisavô cachorro. Todos lembram como esse belíssimo animal apareceu na cidade e como certa tarde entrou na casa de seu Mariano de mala e cuia com uma cadela prenhe.
Dessa ninhada saíram oito filhotes, cinco machos e três fêmeas. A predominância das manchas brancas ressaltava nos machos, as fêmeas raramente apareciam malhadas. Quando uma descendente da raça Veludo ia dar cria o povo fazia uma espécie de sufrágio para ver quem vinha mais manchado se machos ou fêmeas. Uma fêmea bisneta de Veludo estava para parir, as apostas foram feitas e a grande maioria votou que os machos ganhavam como era costume acontecer. Dessa vez as fêmeas tiveram a prerrogativa de serem as mais pintadas. Sendo um acontecimento incomum foi bastante festejado.
Na altura desse acontecimento seu Mariano fazia uma década que tinha morrido. A Câmara de Vereadores aprovou uma norma que na Praça D. Pedro II, seria erguido uma estátua do seu Mariano tendo ao seu lado um cão com as características do Veludo.
Anualmente no segundo Domingo do mês de junho ao amanhecer, ao lado do pedestal, um bonito ramalhete de rosas brancas e vermelhas prestava uma homenagem aos dois.
Desde o dia que seu Mariano não pôde deixar o leito por motivo de uma queda e ter fraturado o crânio o animal postara-se ao lado da cabeceira da cama do amigo até a hora da sua morte. Acompanhou o enterro do amigo caminhando debaixo do caixão. Após o enterro Veludo não é mais visto. Duas semanas depois o encarregado do cemitério manda chamar o prefeito para mostrar Veludo morto sobre o túmulo do seu protetor. Estava magro, pareceu ter vivido um drama de muita saudade do amigo. O prefeito conversa com a família do morto a fim de ser feito uma pequena sepultura sobre o mausoléu do seu Mariano para que os dois amigos ficassem juntos.
Quinze anos se passaram depois desse acontecimento, o povo contemporâneo do cão Veludo não deixava essa tradição ser esquecida, é como se já fizesse parte do folclore da cidade. Algum jornal das cidades vizinha próxima a data faziam referência a esse ramalhete de rosas que algum desconhecido prestava essa homenagem aos dois amigos.
Dizem que um famoso poeta coetâneo ao acontecimento fez um bonito poema imortalizando certo cão Veludo. Na minha juventude li um poema falando sobre um cão com esse nome, não posso afirmar que uma coisa refere-se a outra.
A pessoa que me contou essa história, que achei muito interessante viajávamos num ônibus de Salvador para o Rio de Janeiro. Tivemos bastante tempo para falar sobre o seu Mariano (nome fictício) e o seu companheiro de Padaria Veludo. Ao chegarmos no fim da viagem apertamos as mãos e... tchau. Maricá, 19/02/2010.
Fonte: CONTOS EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros( foto: internet )
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