Foto: Jonathan Newton/Getty Images
Uma nova regra do governo de Donald Trump permite que caçadores usem alimentos humanos, como bacon, donuts e restos de carne, para atrair ursos e matá-los a curta distância em terras federais no Alasca, nos Estados Unidos. A medida revoga uma proibição restabelecida em 2024, durante o governo Joe Biden, e amplia as possibilidades de caça esportiva com métodos que eliminam qualquer possibilidade de confronto entre os animais e os caçadores.
Publicada pelo Departamento do Interior na sexta-feira no registro federal, a norma deverá entrar em vigor em meados de novembro. A decisão foi criticada por organizações de proteção animal e ambientalistas, que condenam o uso de alimentos para atrair deliberadamente animais silvestres até locais preparados para matá-los.
“Estamos desanimados com o retorno dessa regra, especialmente a que trata da isca para ursos, que é cruel e perigosa, não só para a vida selvagem, mas também para o público”, afirmou Drew Robertson, especialista sênior em regulamentação da Humane World for Animals.
A norma não especifica quais alimentos podem ser utilizados. Na prática, porém, as regras estaduais que permitem a modalidade servem de referência para os caçadores, que costumam recorrer a alimentos baratos, ricos em gordura e açúcar. Segundo Nicholas Arrivo, advogado-chefe da Animal Protection Law, a comida é colocada em tambores de aço ou latas de lixo para atrair os animais. Depois de monitorar a isca, os caçadores se posicionam em abrigos próximos e aguardam a aproximação dos ursos para atirar.
A estratégia explora o comportamento natural dos animais em busca de alimento para conduzi-los a pontos previamente escolhidos pelos caçadores. Sem reconhecer a armadilha, os ursos se aproximam da comida e ficam expostos a disparos planejados de antemão. Para críticos da prática, o método contraria a própria ideia de uma disputa entre caçador e animal, frequentemente associada à caça esportiva.
“É uma prática mais extrema do que as tradições de caça que as pessoas imaginam, e muitos caçadores não considerariam isso uma caçada justa”, disse Robertson.
Atração que ameaça a vida selvagem
A oferta de alimentos humanos pode modificar o comportamento dos ursos e levá-los a associar fontes artificiais de comida à possibilidade de alimentação. Estudos científicos citados no processo que levou à retomada da proibição em 2024 apontaram que a prática pode aumentar a agressividade dos animais.
Ao explorar essa associação para facilitar a caça, a modalidade transforma a busca por alimento em uma vulnerabilidade. Os ursos são atraídos para locais onde os caçadores controlam as condições do encontro, sem que os animais tenham como compreender o risco a que estão expostos.
A mudança integra uma série de flexibilizações nas regras de caça adotadas no Alasca nos últimos anos. Entre as práticas permitidas por autoridades estaduais e federais estão atirar em ursos a partir de helicópteros, disparar contra caribus enquanto nadam, matar filhotes de lobos em suas tocas e usar luzes artificiais para atrair ursos para fora de seus abrigos e matá-los.
Embora o uso de iscas para ursos seja permitido em cerca de uma dúzia de estados norte-americanos, outros proíbem a prática. A retomada da autorização no Alasca amplia as possibilidades de matar animais silvestres por esporte em terras federais.
Disputa sobre o controle das terras federais
O secretário do Interior, Doug Burgum, afirmou que a nova norma foi elaborada para atender às demandas dos moradores do Alasca. Em comunicado, descreveu a medida como uma estrutura de “bom senso” que daria aos habitantes do estado maior influência sobre decisões relacionadas às terras, à vida selvagem e às tradições locais.
A alteração, no entanto, decorre de uma ordem executiva assinada por Trump nos primeiros dias de seu segundo mandato, intitulada “Liberando o Potencial Extraordinário de Recursos do Alasca”. A determinação presidencial orientou a republicação da regra que permite o uso de iscas para atrair ursos.
Robertson questionou os fundamentos da decisão e afirmou que a retomada da autorização foi uma prioridade do presidente, o que, segundo ele, levanta dúvidas sobre o peso atribuído à análise científica no processo.
A disputa também envolve a competência para administrar as terras federais. Arrivo argumentou que essas áreas estão sob responsabilidade do governo federal e que a legislação atribui a ele o poder de decisão sobre sua gestão. Para o advogado, transferir maior influência ao estado nesse contexto pode contrariar o objetivo de preservar a diversidade da vida selvagem.
Uma proibição que atravessa governos
A regulamentação do uso de iscas para ursos tem sido alvo de disputas entre diferentes administrações norte-americanas. A proibição foi estabelecida durante o governo Barack Obama, revogada no primeiro mandato de Trump e posteriormente restabelecida após decisões judiciais que invalidaram a revogação. Em 2024, o governo Biden voltou a implementar a restrição, apoiado em estudos sobre os riscos associados à prática.
Agora, a administração Trump descartou novamente a norma. Ainda não há decisão sobre uma eventual ação judicial contra a mudança, mas Arrivo questionou a legalidade do procedimento e afirmou que a revogação de uma regra submetida a uma análise científica mais rigorosa levanta dúvidas jurídicas.
Fonte: anda.jor.br
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