Mariana Dandara | Redação ANDA
Em completo desespero, macaco grita ao ser vítima de teste em laboratório alemão (Foto: Reprodução/Cruelty Free International)
Submetido à análise da Food and
Drug Administration (FDA), agência federal do Departamento de Saúde e Serviços
Humanos dos Estados Unidos similar à brasileira Anvisa, o primeiro medicamento
produzido sem a exploração de animais em testes pode abrir caminho para o fim
da experimentação animal, caso a agência aprove o seu registro.
Desenvolvido para auxiliar no
tratamento de câncer, o remédio não foi testado em animais cruelmente
explorados pela ciência. Desta vez, o método utilizado foi um chip de simulação
de órgãos humanos. Além de mais eficaz, rápida e econômica, a alternativa
também é ética, já que livra inúmeros animais de um destino repleto de
sofrimento.
O marco na história dos direitos
animais é de responsabilidade dos cientistas da Hebrew University of Jerusalem,
situada em Israel, e foi relatado em um artigo publicado no periódico
científico Science Translational Medicine. Os pesquisadores acreditam que
conseguirão obter o registro do medicamento sem explorar animais em ensaios
científicos.
“Até onde sabemos, esta é a
primeira vez que uma droga está dando esse passo sem testes em animais, e a
razão é que eliminamos essa necessidade usando nossa tecnologia de “humano em
um chip””, disse o professor Yaakov Nahmias, principal autor do estudo, em
entrevista ao jornal Times of Israel. “Esta é a primeira demonstração de que
podemos usar essa tecnologia para contornar experimentos com animais, e isso
pode levar ao desenvolvimento de medicamentos mais rápidos, seguros e eficazes.
Levar um medicamento ao ponto de testes clínicos normalmente leva de quatro a
seis anos, centenas de animais e custa milhões de dólares. Fizemos isso em oito
meses, sem um único animal e por uma fração do custo”, continuou.
O foco do medicamento é o combate
à problemas renais causados por remédios que tratam pacientes com câncer.
A cruel e ineficaz experimentação animal
“A pesquisa científica com
animais é uma falácia”. O argumento é do médico norte-americano Ray Greek. Há
décadas, o especialista luta para convencer os cientistas de que testar
remédios em animais é ineficaz. Sem qualquer compromisso com a causa animal,
Greek não pertence ao time dos ativistas que pedem compaixão pelos animais. A
causa da militância dele é outra: a ciência.
Ao ser questionado pela revista
Veja, o médico afirmou que não vê “nenhum problema” na matança de animais. Seus
argumentos, no entanto, ajudam os ratos, coelhos, cães, gatos e tantos outros
seres vivos de várias espécies que são torturados, adoecidos, aprisionados e
mortos em laboratórios.
“Meu problema com a pesquisa
animal não é de cunho ético e sim, científico. É como dizer que estamos em um
cruzeiro atravessando o oceano Atlântico e um indivíduo cai na água e está se
afogando. Ele precisa é de um salva-vidas mas não temos nenhum, então vamos
arremessar 1.000 cães na água. Por que arremessar os cães na água já que eles
não vão salvar a vida da pessoa? Você pode construir um argumento ético dizendo
que é aceitável afogar esses cães mas o que eu quero dizer é que a pessoa
precisa de um salva-vidas e não 1.000 cães afogados. E é exatamente isso que
estamos fazendo com a pesquisa animal. Estamos matando cães pelo bem de matar
cães. Não porque matá-los irá trazer a cura para doenças como a Aids ou o
Alzheimer”, explicou.
Macacos sofrem em laboratório alemão (Foto: Reprodução/Cruelty Free International)
“Deveríamos estar fazendo
pesquisa baseada em humanos. E com isso eu quero dizer pesquisas baseadas em
tecidos e genes humanos. É daí que os grandes avanços da medicina estão vindo.
Por exemplo, o Projeto Genoma, que foi concluído há 10 anos, possibilitou que
muitos pesquisadores descobrissem o que genes específicos no corpo humano
fazem. E agora, existem cerca de 10 drogas que não são receitadas antes que se
saiba o perfil genético do paciente. É assim que a medicina deveria ser
praticada. Nesse momento, tratamos todos os seres humanos como se fossem
idênticos, mas eles não são. Uma droga que poderia me matar pode te ajudar.
Desse modo, as diferenças não são grandes apenas entre espécies, mas também
entre os humanos. Então, a única maneira de termos um suprimento seguro e
eficiente de remédios é testar as drogas e desenvolvê-las baseados na
composição genética de indivíduos humanos. Para se ter uma ideia, a modelagem
animal corresponde a apenas 1% de todos os testes e métodos que existem. Ou
seja, ela é um pedaço insignificante do todo. O estudo dos genes humanos é uma
alternativa. Quando fazemos isso, estamos olhando para grandes populações de
pessoas. Por exemplo, você analisa 10.000 pessoas e 100 delas sofreram de
ataque cardíaco. A partir daí analisamos as diferenças entre os genes dos dois
grupos e é assim que você descobre quais genes estão ligados às doenças do
coração. E isso está sendo feito, porém, não o bastante. Há também a pesquisa
in vitro com tecido humano. Virtualmente tudo que sabemos sobre HIV aprendemos
estudando tecido de pessoas que tiveram a doença e por meio de autópsias de
pacientes. A modelagem computacional de doenças e drogas é outra saída. Se
quisermos saber quais efeitos uma droga terá, podemos desenvolvê-la no
computador e simular a interação com a célula”, completou.
O especialista argumentou ainda
que a medicina estaria no mesmo lugar onde está hoje, em relação à evolução, se
nenhum animal tivesse sido explorado em testes.
“A maioria das drogas é
descoberta utilizando computadores ou por meio da natureza. As drogas não são
descobertas utilizando animais. Elas são testadas em animais depois que são
descobertas. Essas drogas deveriam ser testadas em computadores, depois em
tecido humano e daí sim, em seres humanos. Empresas farmacêuticas já admitiram
que essa será a forma de testar remédios no futuro. Algumas empresas já
admitiram inúmeras vezes em literatura científica que os animais não são
preditivos para humanos. E essas empresas já perderam muito dinheiro porque
cancelaram o desenvolvimento de remédios por causa de efeitos adversos em
animais e que não necessariamente ocorreriam em seres humanos. Foram bilhões de
dólares perdidos ao não desenvolver drogas que poderiam ter dado certo”, disse
à Veja.
Segundo o médico, por trás da
ciência existe um “sistema muito corrupto que está preocupado em garantir o
dinheiro de pesquisadores versus um sistema que está preocupado em encontrar
curas para doenças e novos remédios”.
E é essa corrupção que mantém a
exploração de animais que padecem em laboratórios pelo mundo. “Nos Estados
Unidos, a maior parte da pesquisa médica é financiada pelo Instituto Nacional
de Saúde [NIH, em inglês]. O orçamento do NIH gira em torno de 30 bilhões de
dólares por ano. Mais ou menos a metade disso é entregue a pesquisadores que
realizam experimentos com animais. Eles têm centenas de comitês e cada comitê
decide para onde vai o dinheiro. Nos últimos 40 anos, 50% desse dinheiro vai, anualmente,
para pesquisa com animais. Isso acontece porque as próprias pessoas que decidem
para onde o dinheiro vai, os cientistas que formam esses comitês, realizam
pesquisas com animais”, revelou.
“A falácia nesse caso é de que
devemos testar essas drogas primeiro em animais antes de testá-las em humanos.
Testar em animais não nos dá informações sobre o que irá acontecer em humanos.
Assim, você pode testar uma droga em um macaco, por exemplo, e talvez ele não
sofra nenhum efeito colateral. Depois disso, o remédio é dado a seres humanos
que podem morrer por causa dessa droga (…) Os testes em animais não possuem
valor preditivo. E se eles não têm valor preditivo, cientificamente falando,
não faz sentido realizá-los”, concluiu.
Os argumentos de Greek, porém, não
são os únicos que devem ser observados, embora sejam coerentes e necessários.
Isso porque o ponto de vista dos ativistas pelos direitos animais também
importa.
Uma investigação realizada pela
organização Cruelty Free International em parceria com a SOKO Tierschutz
desnudou a crueldade a qual são submetidos animais explorados em exames
toxicológicos em um laboratório alemão que atende empresas farmacêuticas,
industriais e agroquímicas de várias partes do mundo.
Beagles explorados em experimentos científicos (Foto: Beagle Freedom Project/Facebook)
Dentre os experimentos
realizados, está o envenenamento de animais que são obrigados a ingerir ou
inalar substâncias para que pesquisadores tentem descobrir se elas são tóxicas
para humanos. Caso passem mal ou sintam dores, eles não são medicados, o que
lhes causa intenso sofrimento físico e psicológico.
A investigação revelou que
macacos, cachorros e gatos eram submetidos a testes perversos e cruéis. Quando
tentavam resistir e se livrar do que lhes fazia mal, eram contidos e
imobilizados. Alguns chegavam a ser agredidos.
No laboratório alemão, os animais
viviam confinados em gaiolas pequenas e evitavam o contato humano, numa
demonstração de medo gerada pelos traumas sofridos por experimentos anteriores.
Esses horrores, entretanto, não
estão restritos ao território alemão. Isso porque uma investigação da Humane
Society International (HSI) revelou que a empresa Dow AgroSciences, que atua no
Brasil, financiou testes de agrotóxicos com cachorros nos laboratórios Charles
River, em Michigan, nos Estados Unidos. Após o escândalo, os cães da raça
beagle foram libertos pela empresa.
Antes de serem salvos, os
cachorros foram submetidos durante 100 dias a 20 experimentos de curto e longo
prazo, sendo que um dos testes consistia em forçar a alimentação de 36 beagles
que eram obrigados a consumir alimentos com altas doses de agrotóxicos
(produtos tóxicos capazes de levar os animais a desenvolver doenças que podem
ser fatais). A empresa planejava, ao final dos testes, matar os cães que
sobrevivessem, mas acabou doando-os para a ONG que denunciou os maus-tratos. A
HSI do Michigan, por sua vez, anunciou que reabilitaria os beagles e os
disponibilizaria para adoção responsável.
Fonte: anda.jor.br




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