Sue Branford e Thais Borges (Mongabay) |
Traduzido por Milena Rodrigues, Oliver Furquim e Michelle
Um novo
relatório documenta rígidos cortes orçamentários para o monitoramento ambiental
brasileiro e combate a incêndios. As reduções, de 9,8% em 2020 e 27,4% em 2021,
segundo analistas, foram infligidas pelo governo Bolsonaro em “uma política
clara para arruinar as políticas ambientais nacionais”.
Durante o governo Bolsonaro, as agências
ambientais do Brasil foram submetidas a quase 600 mudanças administrativas e
regras, invocadas por ordem executiva presidencial e resultando em
desregulamentação ambiental massiva.
Ainda sob o mandato do governo
Bolsonaro, o desmatamento disparou, com um aumento de 34% nos últimos dois
anos. Além disso, a capacidade de punir criminosos ambientais caiu
drasticamente devido à escassez de fundos. As multas impostas por desmatamento
ilegal, ao invés de aumentarem durante a onda de crimes ambientais na Amazônia
caíram 42%, de 2019 a 2020.
Diante da destruição de agências e
proteções ambientais pelo governo Bolsonaro, dois líderes indígenas – o chefe
Kayapó Raoni Metuktire e o chefe Paiter Surui Almir Narayamoga Surui – pediram
ao Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia para investigar o presidente
Bolsonaro por “crimes contra a humanidade.”
Foto: Chico Batata / Greenpeace
“O governo Bolsonaro tem uma
política clara para desmantelar todas as políticas ambientais nacionais. Estão
deslegitimando os órgãos ambientais federais e seus funcionários, demitindo
pessoal competente, nomeando pessoas mal preparadas para chefiar ministérios e
‘flexibilizando’ os regulamentos que constituem uma parte importante das
políticas ambientais em todos os países. “Ele está destruindo tudo isso”, disse
Suely Araújo ao Mongabay. Suely é especialista sênior em políticas públicas do
Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras que trabalham contra as
mudanças climáticas.
A maneira como ocorre o
desmantelamento dos órgãos e políticas ambientais do país na prática foi
descrito em detalhes em um novo relatório, publicado em 22 de janeiro pelo
Observatório do Clima. Ele mapeia como o governo Bolsonaro sistematicamente
cortou o orçamento para monitoramento ambiental e combate a incêndios –
reduzido em 9,8% em 2020, depois em outros 27,4% em 2021. De acordo com o
relatório, os cortes são tão amplos que tornam impossível para as agências
ambientais do país cumprirem seu trabalho com eficácia.
Os críticos apontam que, se o
governo estivesse realmente comprometido com a proteção ambiental, esses cortes
não fariam o menor sentido. Outra prova: mesmo com o aumento do desmatamento no
Brasil, sob liderança do governo Bolsonaro (mais precisamente 34% nos últimos
dois anos), a capacidade das agências federais para punir os criminosos
diminuiu drasticamente devido à escassez de financiamento. O número de multas
impostas por desmatamento ilegal e danos à vegetação, que deveria aumentar
devido a essa prática criminosa, caiu drasticamente em 42%, de agosto de 2019 a
julho de 2020, de acordo com dados fornecidos pelo órgão ambiental do governo,
o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Longe de tentar conter o
desmatamento, o Observatório do Clima acredita que o objetivo do governo seja
facilitá-lo. “O governo está optando por não ter políticas ambientais, por
paralisá-las”, disse Araújo. “Os recursos destinados ao Ministério do Meio
Ambiente e seus órgãos já são tão pequenos, que reduzi-los não faria muita
diferença para a economia do país. Ou seja, quando você corta recursos que já
são insuficientes, o objetivo é destruir os órgãos que os recebem. É
sabotagem. Devemos nos lembrar de que além da baixa inaceitável da
distribuição orçamentária de 2021, o governo ainda recusou o dinheiro do Fundo
Amazônico, fornecido internacionalmente, desde janeiro de 2019.
A intenção do governo de
desmantelar as proteções ambientais não é percebida apenas nos cortes drásticos
de orçamento, conforme aponta o relatório. O governo não só impulsionou a
desregulamentação, mas também rápidas mudanças nas regras, de uma forma
“infra-legal”, ou seja, movendo-se por fora dos processos legais. Quase 600
mudanças regulatórias importantes foram implementadas com nada mais do que uma
canetada do presidente.
Essas alterações principais
incluem: a flexibilização dos controles sobre as exportações suspeitas de
madeira amazônica; as tentativas de permitir a exploração de petróleo em áreas
preservadas, como a do Arquipélago de Abrolhos, a região marinha mais diversa
do oceano Atlântico Sul; o amontoamento de militares em órgãos ambientais; e a
proposta de fusão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICM-Bio) que administra as áreas protegidas do Brasil com o IBAMA.
De acordo com o relatório, a
abordagem de desregulamentação ambiental massiva do governo foi revelada pelo
Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em uma reunião ministerial, em 22 de
abril de 2020. Essa reunião foi filmada e o governo tentou impedir que o vídeo
fosse divulgado, mas o Juiz Celso de Mello, presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF), ordenou a divulgação do vídeo em 22 de maio do mesmo ano.
Usando uma frase na reunião que
ficou famosa no país, o ministro Ricardo Salles suplicou que os outros
ministros aproveitassem o quase exclusivo foco da grande mídia na pandemia de
COVID-19 para “passar a boiada” – frase usada posteriormente pelo Observatório
do Clima como título do seu relatório. Salles foi explícito em sua intenção:
“Há uma lista enorme de coisas que nós podemos simplificar nas regulações de
todos os ministérios. Não precisamos do Congresso”, ele disse.
O Mongabay contatou o Ministério
do Meio Ambiente para comentar sobre as alegações feitas no relatório. Quando
esse artigo foi publicado, o ministério ainda não havia respondido.
Mas, de acordo com o relatório,
as políticas de Bolsonaro enfrentam resistências no Congresso, no Judiciário e
na Sociedade Civil. O governo encerrou o ano de 2020 enfrentando quatro ações
judiciais de alto impacto que tramitam no STF, tratando do desmantelamento de
políticas ambientais. Anteriormente, o Supremo Tribunal Federal já havia
imposto derrotas contra o governo de Bolsonaro, ao exigir políticas explícitas
de proteção aos povos indígenas e determinando que o governo fornecesse ajuda
emergencial no combate aos surtos de Covid-19 nos territórios indígenas.
A destruição das políticas
ambientais também tem em vista, claramente, as comunidades tradicionais,
incluindo os povos indígenas. Mas existem outras formas pelas quais o governo
de Bolsonaro tem atacado, deliberadamente, essa população.
O Observatório do Clima dá vários
exemplos: a decisão normativa nº 9, publicada pela agência indígena, FUNAI,
fornece permissão aos proprietários de terras privadas, para que estes possam
requerer terras em territórios indígenas, desde que essas terras estejam
totalmente demarcadas; e o Projeto de Lei 191/2020, que rege atividades
econômicas, como mineração, exploração madeireira e a construção de represas
hidrelétricas dentro de territórios indígenas. Somado a isso, os ataques de
Bolsonaro aos povos indígenas, que encorajam invasões às suas terras, aumentou
135% em 2019, de acordo com o Conselho Indígena da Igreja Católica (CIMI).
Pedidos
de investigação à Corte de Crimes Internacionais.
Enfrentando a deturpação das
agências federais e de proteção causadas por Bolsonaro, além de suas políticas
anti-indígenas, dois caciques indígenas brasileiros – o chefe Raoni Metuktire,
lider dos Kayapo e o Chefe Almir Surui, líder do grupo Surui – solicitaram à
Corte de Crimes Internacionais (ICC) em Haia a investigação do Presidente
Bolsonaro pelos “crimes contra humanidade”. As acusações são de ampla
variedade, com Bolsonaro sendo acusado de mortes, exterminações de povos
indígenas, migração forçada, escravidão e execução de políticas
anti-ambientais.
Um dos caciques, Raoni Metuktire,
com idade próxima a 90 anos, disse no último ano: “Eu vi muitos presidentes
indo e vindo, mas nenhum falou tão mal de pessoas indígenas, como ele, a ponto
de nos destratar, a nós e a floresta. Desde que ele [Bolsonaro] se tornou
presidente, ele está sendo o pior para nós.”
Não é a primeira vez que estas
acusações contra o Bolsonaro são trazidas ao ICC. Três tentativas de acusações
foram feitas a “crimes contra a humanidade” devido à negligência sofrida
durante o combate à pandemia da Covid-19. A todo momento, o governo brasileiro
se recusa a fazer comentários sobre o assunto. A Mongabay contatou a
presidência a respeito das acusações dos líderes indígenas, e não havia
recebido resposta até a data de publicação deste artigo.
O advogado parisiense, William
Bourdon, está representando os indígenas neste caso. Bourdon disse a Mongabay
que a ICC tem uma “jurisdição subsidiária” a processos nacionais e pode se
envolver apenas sob última recusa de processo ou em sua impossibilidade de
realização. O advogado explicou: “Neste caso, o princípio da subsidiariedade
[jurisdição] é atendida porque as autoridades judiciais brasileiras se recusam
a processar e … também são incapazes de fazê-lo.” Ele disse que Bolsonaro
provavelmente seria acusado de “crimes contra a humanidade perpetuados no
contexto mais amplo do crime ambiental”. Em outras palavras, ele adicionou que,
se o caso prosseguir, Bolsonaro será acusado de “ecocídio”.
Nos meses seguintes, o promotor
chefe, Fatou Bensouda, precisará determinar se existem provas suficientes para
uma investigação a Bolsonaro ou não. Não há um prazo para a decisão, mas Bourdon
disse a Mongabay que este é um caso urgente. “Bolsonaro quer destruir estas
comunidades indígenas. Nós temos o dever coletivo de protegê-las.”
Fonte: anda.jor.br

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