Sophia com Marrom, Pipa e Josephine.
Eu era apenas uma jovem estudante de psicologia na PUC-SP quando decidi
que queria fazer trabalho voluntário em uma ONG que abrigava animais de rua.
A grade horária da
psicologia era integral e, frustrada por não poder exercer trabalho remunerado
em paralelo à faculdade, entendi que fazer trabalho voluntário seria um modo
produtivo de ocupar outros espaços para além da universidade.
Nunca imaginamos
que uma escolha tão trivial pode mudar todo o curso da nossa vida.
Ao me tornar
voluntária de um abrigo de animais, diversas problemáticas ficaram escancaradas
para mim: o abandono, os maus tratos, a perversidade do comércio de raças, a
acumulação de animais.
Eu visitava a ONG
todo final de semana para fotografar os animais e divulgar a adoção deles nas
redes sociais da organização.
Na medida que a
equipe do abrigo foi confiando mais em mim, passei a intermediar as adoções por
conta própria.
Não me conformava
em ver pets preteridos na adoção e criei a campanha “Adote um animal especial”.
Recebi muitos
adotantes no abrigo e consegui doar diversos animais. Mas via que sobravam os
menos “interessantes” aos olhos dos adotantes: cães de porte grande, de pelagem
preta, com idade avançada, alguma comorbidade ou algum tipo de deficiência.
Quando trazia essa
pauta, escutava do pessoal do abrigo: “Ah, mas esses vão ficar aqui para o
resto da vida. Ninguém adota mesmo”.
Eu não podia me
conformar com aquilo. Quem me conhece mais profundamente sabe que quando coloco
algo na cabeça, vou até o fim.
Inquieta com aquela
realidade, decidi criar a campanha: “Adote um animal especial”. Consegui doar
dois gatos cegos e uma cachorrinha bem idosa
O Marrom seria o
próximo. Era um cão cadeirante extremamente carinhoso, porte médio, marrom de
tudo (pelagem, olhos, focinho). Enquanto outros cachorros latiam, ele se
destacava e nos fazia dar boas risadas com sua vocalização que mais parecia uma
pessoa conversando.
Depois de ter sido
atropelado em uma rodovia, foi trazido pelos funcionários que fiscalizam a via
para o abrigo, onde já estava há mais de três anos. O atropelamento resultou em
uma lesão na coluna e na medula, deixando-o paraplégico.
Devido à falta de
verba do abrigo, Marrom nunca tinha feito reabilitação e passou estes anos
todos se arrastando no piso áspero do abrigo para poder se locomover.
Na impulsividade,
levei o marrom comigo para não deixar que ficasse se arrastando no chão após a
castração.
Quando comecei a
promover a campanha de adoção de pets especiais, sabia que seria um desafio
grande conseguir encontrar uma família para ele, já que o Marrom não controlava
o xixi nem o cocô e precisava de trocas de fraldas frequentes.
Para podermos
doá-lo, precisávamos castrá-lo. Na recuperação, ele ficaria se arrastando no
abrigo — e arrastando a parte operada — sem um cuidado individualizado.
Foi aí que tomei a
atitude mais impulsiva da minha vida, daquelas que se você pensa duas vezes,
facilmente percebe que não seria uma boa ideia.
Decidi levá-lo para
casa, sem ninguém saber. Acredito que grandes encontros se fazem nos acidentes
de percurso, no acaso. Uma escolha impulsiva que mudaria tudo.
Cheguei em casa com
Marrom e dizia que ele era um hóspede, que estava fazendo apenas lar temporário
para ele.
Comecei a esvaziar
a bexiga do marrom quatro vezes ao dia para evitar infecções urinárias (e uma
zona em casa)!
No abrigo, me
disseram que ele fazia as necessidades sozinho, mas que tinha incontinência e
não conseguia segurar a urina.
Os primeiros xixis
do Marrom tinham muito sangue e odor forte. As fraldas enchiam rápido e em
poucas horas já tinha xixi e cocô por todo lado na minha casa.
A situação começou
a ficar muito insustentável e, mais uma vez, eu não conseguia me conformar de
que só tinha como ser daquela forma.
Passei a pesquisar
sobre os cuidados com um cão cadeirante e encontrei pouca coisa. Em um dos
blogs que achei sobre o assunto e que me abriu muitos horizontes, vi um vídeo
sobre esvaziamento da bexiga de pet cadeirante.
Aquilo foi
fundamental porque me fez perceber que, caso eu esvaziasse a bexiga dele, o
Marrom não ficaria com xixi vazando o tempo todo e teria menos infecções
urinárias.
A partir daquele
momento, comecei a fazer aquele procedimento quatro vezes ao dia e os problemas
de xixi por todo lado se resolveram.
Eu passava com ele
em veterinários, que rapidamente prescreviam antibióticos e diziam que ele
faria xixi sozinho.
Foram quase seis
meses até encontrar um veterinário que entendesse sobre o esvaziamento da
bexiga.
As enormes
dificuldades que enfrentamos no começo (ainda como lar temporário) foram fruto
de desinformação e falta de orientação por parte dos profissionais.
Não apareceu nenhum
adotante para o Marrom. Mas, sem perceber, nossa história já estava
entrelaçada.
Enquanto isso, as
divulgações de “Adote o Marrom” ocorriam, sem sucesso… Passei a informar que
era necessário fazer o esvaziamento da bexiga e troca de fralda quatro vezes ao
dia.
Correram semanas e
nenhum interessado apareceu. Completamos três meses de lar temporário, sem
qualquer adotante potencial para o Marrom.
Neste tempo fui
conhecendo cada vez mais a realidade dos “cãodeirantes”, como chamo
carinhosamente e, consequentemente, as dificuldades que eles enfrentam.
O entrelace da
minha vida com a do Marrom foi se dando no acontecer. Aproximando-me desta
realidade, fui me apropriando dela, tornando essa história cada dia mais minha
sem nem perceber (ou percebendo e não querendo resistir ao rumo que este
encontro estava tomando)
Não tinha mais
saída: a luta pelos animais que eram menos vistos — como os vira-latas e os
pets com deficiência — ganhou potência ali, com Marrom mostrando que as
barreiras iniciais que impedem alguém de adotar são, na maior parte das vezes,
pré-concepções que partem da desinformação.
O afeto pelo Marrom
só aumentou neste período de lar temporário e não imaginava mais minha vida sem
ele. Oficializei a adoção e criei um perfil no Instagram para ele, no qual compartilhava
a rotina, as dificuldades, os cuidados.
Em menos
de um ano, visitei o mesmo abrigo onde Marrom esteve e me encantei com uma
cachorrinha preta e que andava apenas em três patinhas.
Voltamos
para casa e não conseguíamos esquecer o olhar meigo dela. Em uma semana, Pipa
estava em casa, na nossa família.
A última
adotada foi Josephine, uma vira-lata de porte grande, sem deficiência, e que
estava no abrigo há um ano.
Toda essa
história virou um projeto que ajuda a dar visibilidade e conseguir um lar para
animais com deficiência.
Ao me inserir
cada vez mais no contexto dos pets com deficiência, me sensibilizei com
diversos pedidos desesperados de ajuda a pets que não tinham acesso a
reabilitação e cuidados.
Então,
decidi tornar o Instagram, que inicialmente era do Marrom, em um projeto social
focado em conscientização e visibilidade a pets com deficiência, o Projeto Cãodeirante.
Iniciamos
em 2020 e de lá para cá resgatamos alguns animais com deficiência e conseguimos
lares para todos. Auxiliamos pets com deficiência de abrigos e protetores a
saírem da invisibilidade e terem chances de adoção
Tivemos
casos bastante surpreendentes, como o do Vitório, um cão que sofria maus-tratos
e ficou cadeirante. Após seu resgate por protetoras independentes, fomos
procurados por elas, pois buscavam orientações quanto aos cuidados com um pet
com deficiência.
Assumimos
o caso, realizamos uma bateria extensa de exames e descobrimos a hemofilia, um
quadro hematológico raro e sem cura que poderia impossibilitar uma adoção.
Vitório
foi acompanhado pelos melhores veterinários em hematologia e passou a utilizar
medicação diariamente para controle da doença. Fizemos uma divulgação massiva
da busca por adotantes, mesmo nos parecendo tão intangível uma adoção.
Além de
cadeirante e hemofílico, Vitório é de porte grande, preto e de pelagem curta;
um perfil de cão que pouco atrai adotantes.
Depois de
mais de um ano na busca por um lar, uma seguidora do projeto que já estava
encantada por ele decidiu dar uma chance para o Vitório, que foi fazer parte de
uma família, segue realizando fisioterapia e até vai à creche brincar.
Agora,
minha busca no mestrado é entender o fenômeno “mãe de pet”.
Em três
anos de Projeto Cãodeirante, conseguimos promover a adoção de mais de 20 cães e
gatos com deficiências variadas — desde animais com três patinhas, cadeirantes,
cegos até tetraplégicos.
Realizamos
quatro grandes eventos de adoção e selamos parcerias importantes no auxílio aos
pets com deficiência.
Em 2022,
iniciei meu mestrado em psicologia clínica, com o objetivo de me aprofundar na
relação entre pessoas e cachorros e, mais especificamente, compreender o
fenômeno “mãe de pet” na contemporaneidade.
A ideia do
mestrado tornou-se real na medida em que minha orientadora, Profa. Marlise
Bassani, rapidamente acolheu minha proposta temática e se viu afinada com
aquilo que eu estava buscando pesquisar.
Durante o
trabalho de mestrado, realizei a mediação do processo de adoção de um cão que
estava no mesmo abrigo do Marrom e da Pipa para minha orientadora
Marlise
adotou Francesco, um vira-lata de porte grande, extremamente medroso, que
estava no abrigo há anos.
Adotar é
um ato de amor. A cada adoção, o mundo de um animal (e de um ser humano!) é
totalmente tranformado.
A cada
adoção, sinto que pude fazer um pouco por um cão e por uma pessoa. Ali,
forma-se um vínculo, uma família.
Tento
acreditar que cada animal que passa por nossas vidas tem uma missão. Não a
partir de uma visão autocentrada e antropocêntrica, do benefício que este
animal gera a nós, seres humanos, mas na repercussão que o encontro entre este
animal e o humano gera no mundo.
São muitos os “Marrons” que existem por aí em abrigos, sem nunca
terem tido qualquer chance de adoção. Marrom foi catalisador de transformação.
No nosso encontro germinou a busca por mudanças
Mesmo que
em pequena proporção, comparada à realidade da causa animal no Brasil, sabemos
que o mundo de cada um destes animais adotados foi totalmente transformado.
Adotar é
um ato de amor. E como sempre digo: “Dê uma chance à vida. Adote!”.
Por Sophia Porto
Kalaf
Fonte: Projeto Draft
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